Intraempreendedorismo para superar a crise de inovação corporativa

Por Geraldo Campos, CEO da Sapienza, e Luciano Bitencourt, jornalista.

Cenários de crise tendem a elevar o pessimismo no mundo dos negócios. Mas um fator bem específico chama a atenção no relatório da PwC lançado no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Em linhas gerais, os altos executivos ouvidos na pesquisa se ressentem de lideranças que encorajam “o debate e a discordância”, toleram “falhas de pequena escala” e “tomam decisões estratégicas” para seus setores.

Na 26ª edição, a Pesquisa Anual Global com CEOs ouviu 4.410 executivos de médias e grandes empresas de 105 países. Mais de um terço teme que suas organizações não serão mais economicamente viáveis em dez anos. No Brasil, 33% deles compartilham esse temor. Os fatores são muitos, mas a ideia de que faltam lideranças que ajudem a pensar soluções para o negócio abre uma discussão interessante. Boa parte dos CEOs reconhece que não está dedicando tempo nem recursos suficientes para mudar o ambiente.

Ao que parece, 2023 abre uma janela de oportunidade para o intraempreendedorismo na busca por inovação corporativa. Se, por um lado, as organizações ainda estão aprendendo a lidar com relações mais horizontais e abertas, por outro ainda há fortes resistências nas equipes de trabalho em “ampliar a zona de conforto”, como diz Sandra Mota, gestora de portfólio da DB1 Global Software, empresa que oferece consultoria no desenvolvimento de softwares.

Sandra Mota: liderança dirigida a pessoas. (Foto: arquivo pessoal)

Buscar inovação dentro das organizações faz parte da trajetória de Sandra desde que resolveu deixar o trabalho mais técnico em TI, área em que é formada, para dedicar-se à gestão. Ao longo da carreira tem desenvolvido o que se pode chamar de inteligência empreendedora, que associa mindset e lifestyle diferenciados. Ao mesmo tempo que entende a mudança de comportamento pela mentalidade mais aberta em relação ao ambiente de trabalho, ela assume uma postura de liderança também dirigida à transformação das pessoas.

“O desafio é transformar as empresas e o ambiente em que você está para melhorar as entregas, ser mais produtivo sem comprometer a saúde, o tempo livre e a qualidade de vida das pessoas”, define Sandra.

Uma parte considerável desse desafio está em pensar no conhecimento a ser partilhado para desenvolver pessoas dentro de suas rotinas diárias. Processos contínuos de melhoria pedem tempo para olhar para o longo prazo, entender o que é preciso fazer hoje para construir um futuro que se gostaria de ver. É preciso, de acordo com Sandra, pôr em prática as ideias efetivamente transformadoras.

Ideias novas, na concepção dela, precisam de quem financie ou exerça sua influência para viabilizar a proposta, de lideranças que engajem as pessoas envolvidas e que entreguem resultados práticos. Não se trata de criar um empreendimento novo, mas de criar alternativas para a organização estar mais sintonizada com o mundo dos negócios da atualidade. Os passos são praticamente os mesmos.

Em 2022, Sandra teve oportunidade de implantar um programa de intraempreendedorismo na empresa em que atua, fruto da parceria com a Sapienza em anos anteriores. Encontros mensais estimularam lideranças a pensar formas de viabilizar os resultados prometidos à organização. E esse é um aspecto importante: empreender internamente tem como foco principal o resultado. Contudo, o caminho traçado para isso envolve também aprendizado e ganhos pessoais e profissionais por ajudar no desenvolvimento de quem está no programa.

“A gente realmente criou um movimento. A gente movimentou um time, um grupo de pessoas, que entendeu a oportunidade de crescimento de forma sustentável”, enfatiza Sandra.

As conexões propiciadas pelo programa resultaram em outras proposições que vão ser postas em prática neste ano por novas lideranças, reflexões entregues à organização com boas práticas e fatores relevantes, além dos resultados prometidos.

Sandra faz questão de reforçar que o propósito não é dizer como alguém deve fazer o que deve ser feito, mas incorporar novos conhecimentos dentro do contexto e da realidade de cada pessoa, adaptando as ações aos conceitos, valores e princípios individuais.

“Permitir mais colaboração, mais compartilhamento, que as ideias que estão surgindo sejam postas em prática. Entender que as gerações novas pensam e trabalham de outra maneira, tudo isso junto gera oportunidade de fazer coisas diferentes para adaptar as empresas nesse cenário de dúvidas e angústias”, sugere.

Estimular que as pessoas aprendam dentro das organizações e apresentem ideias novas para melhorar continuamente produtos, serviços, processos e modelos mostra-se um investimento promissor para a superação da crise que tem tirado o sono dos CEOs espalhados pelo mundo. Dar espaço para quem tem vontade, como demonstra Sandra, e desenvolver lideranças capazes de desenhar, criar e transformar desafios em oportunidades tende a ajudar na longevidade de organizações que não se veem no futuro.

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