Um dos grandes problemas ambientais de difícil resolução é a correta destinação de resíduos industriais, incluindo aqueles das indústrias de fundição. A indústria de fundição no Brasil descarta anualmente mais de 2 milhões de toneladas de areias de fundição, que constituem o principal resíduo em volume. Outros resíduos incluem escória metalúrgica, borras, óleos e poeiras.
A notícia boa é que existem formas de transformar esses resíduos em recursos sustentáveis para a construção civil, promovendo economia circular e gerando impactos ambientais positivos.
E foi justamente com esse projeto que a convidada da coluna desta semana conquistou em agosto de 2025 o Troféu Prata, na Etapa Estadual de Santa Catarina do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios – Ciclo 2025, ficando em 2º lugar na categoria Ciência e Tecnologia.
A Raquel Carnin é Doutora em Química, possui mais de 25 anos de experiência em ESG e gestão de riscos, gestão de resíduos, gestão ambiental, desenvolvimento de pesquisas inovadoras, elaboração de leis e normas ambientais, educação ambiental.
Raquel, você é uma referência na área ambiental e esta premiação é um reconhecimento muito merecido da sua trajetória. Consegue nos contar um pouco sobre sua formação e os desafios que você superou até chegar nesta conquista?
Minha formação é em Química Industrial, com doutorado na área, e ao longo de mais de 25 anos de atuação profissional construí uma trajetória muito conectada à gestão ambiental, ESG, gestão de riscos e valorização de resíduos industriais, especialmente no setor de fundição. Desde o início da minha carreira, percebi que muitos resíduos considerados “problemas” tinham, na verdade, um enorme potencial técnico e ambiental, desde que estudados com profundidade e responsabilidade. Os desafios foram muitos. Enfrentei barreiras técnicas, regulatórias e, principalmente, culturais. Transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis exige persistência, diálogo com a indústria, órgãos ambientais e a sociedade. Além disso, como mulher em ambientes majoritariamente masculinos, precisei provar minha competência muitas vezes mais do que o esperado. Essa premiação representa não apenas um reconhecimento pessoal, mas a validação de um trabalho construído com ciência, ética e compromisso com o futuro.
Transformar pesquisas científicas em inovação que de fato beneficia a sociedade não é tarefa fácil, ainda mais para uma mulher. Quais os principais desafios que uma mulher ainda tem nesses ambientes de pesquisa de ponta e quais os gargalos que ainda existem para tirar pesquisas das prateleiras das universidades?
Ainda existem desafios estruturais importantes. Muitas mulheres enfrentam sub-representação em espaços de decisão, dificuldade de acesso a financiamento e pouca valorização da liderança feminina em áreas tecnológicas. Além disso, a sobrecarga entre vida profissional e pessoal ainda é uma realidade para muitas pesquisadoras. No caso da transferência de tecnologia, um dos grandes gargalos é a distância entre universidade, indústria e poder público. Muitas pesquisas ficam excelentes do ponto de vista acadêmico, mas não avançam por falta de apoio para testes em escala real, validação regulatória e segurança jurídica. Precisamos fortalecer ecossistemas de inovação mais integrados, com políticas públicas que incentivem essa ponte entre ciência e aplicação prática.
Conta um pouco mais sobre o projeto que foi premiado, desde quando você vem pesquisando nesta área? Você teve apoio de alguma fundação ou algum outro tipo de fomento? Na sua visão, que outras ações poderiam ser implementadas para incentivar mais mulheres a empreenderem com inovação?
Esse projeto é resultado de mais de duas décadas de pesquisa e atuação prática com resíduos da indústria de fundição, especialmente a areia descartada de fundição (ADF). O foco sempre foi demonstrar, com base científica sólida, que esses materiais podem ser utilizados de forma segura e eficiente na construção civil e infraestrutura, substituindo matérias-primas naturais e reduzindo impactos ambientais. Ao longo dessa trajetória, contei com o apoio de instituições de pesquisa, universidades, fundações de fomento e parcerias com a indústria, além de editais públicos e iniciativas de inovação. Na minha visão, para incentivar mais mulheres a empreenderem com inovação, é fundamental ampliar o acesso a financiamento, mentorias, redes de apoio e reconhecimento, além de criar ambientes mais inclusivos e colaborativos.
Você é inventora e atua em projetos inovadores. Você já tem alguma patente? É muito burocrático conseguir uma patente? Quais são os principais desafios? Você tem alguma dica de ouro para outras mulheres e pesquisadoras que sonham em conquistar uma patente?
Sim, atuo como inventora em projetos inovadores e o processo de proteção intelectual faz parte dessa jornada. O caminho para uma patente é, sim, burocrático e exige paciência, pois envolve etapas técnicas, jurídicas e estratégicas. Um dos maiores desafios é transformar uma boa ideia em algo tecnicamente bem descrito, reprodutível e com aplicação clara. Minha dica de ouro é: documente tudo desde o início, busque apoio de núcleos de inovação tecnológica, converse com especialistas em propriedade intelectual e, principalmente, não desista diante da complexidade do processo. A patente não é apenas um título, é uma ferramenta poderosa de valorização do conhecimento.
Como uma protagonista na ciência, que transformou desafios em soluções para um futuro melhor, quais conselhos você pode dar para meninas e mulheres que sonham em atuar na área?
Eu diria para acreditarem no poder do conhecimento, da curiosidade e da persistência. A ciência precisa de diversidade, sensibilidade e diferentes olhares para resolver problemas complexos. Não tenham medo de ocupar espaços, de fazer perguntas, de errar e recomeçar. Busquem formação sólida, mas também propósito. A inovação mais transformadora é aquela que melhora a vida das pessoas e cuida do planeta. E, acima de tudo, lembrem-se: vocês pertencem à ciência, à tecnologia e à inovação. O futuro precisa da coragem e da inteligência das mulheres.