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Empreendedorismo regenerativo: negócios que promovam uma cultura de paz

Foto: divulgação

Ao observarmos o cenário global dos últimos anos, torna-se cada vez mais difícil dissociar conflitos geopolíticos, guerras declaradas ou veladas e disputas territoriais de um pano de fundo comum: a economia.

Recursos naturais, cadeias produtivas, controle energético, tecnologia, dados, mercados e influência econômica tornaram-se os verdadeiros territórios em disputa.

As batalhas deixaram de ser apenas físicas; hoje elas são travadas nos campos financeiro, tecnológico, informacional e ambiental.

Nesse contexto, o empreendedorismo, historicamente associado à geração de riqueza, competitividade e crescimento, passa a ocupar um novo papel.

Surge a necessidade de um empreendedorismo que não amplifique conflitos, mas que atue como força de mediação, regeneração e reconstrução social. É nesse ponto que se consolida o conceito de empreendedorismo para a paz.

A economia como motor de conflito e como possibilidade de reconciliação

Grande parte das conquistas bélicas e disputas internacionais contemporâneas está diretamente conectada a interesses econômicos: acesso a commodities estratégicas, domínio de rotas logísticas, controle tecnológico, soberania energética ou influência sobre mercados consumidores.

Quando a lógica econômica se estrutura exclusivamente na escassez, na competição predatória e no ganho de curto prazo, ela tende a aprofundar desigualdades, gerar tensões sociais e alimentar ciclos de violência.

Por outro lado, quando a economia é pensada como sistema vivo, interdependente e regenerativo, ela pode se tornar um dos principais instrumentos de construção da paz.

Empreender, nesse novo paradigma, deixa de ser apenas “criar negócios” e passa a significar criar soluções que reduzem tensões, ampliam oportunidades e fortalecem o tecido social.

Do mundo VUCA ao mundo BANI: empreender em tempos frágeis

Por muitos anos, utilizamos o conceito de mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) para explicar os desafios do ambiente de negócios. No entanto, a realidade recente mostrou que fomos além. Vivemos hoje em um mundo BANI:

• Brittle (Frágil): sistemas que parecem sólidos, mas colapsam rapidamente
• Anxious (Ansioso): sociedades sob pressão constante, medo e insegurança
• Nonlinear (Não linear): causas e efeitos desproporcionais
• Incomprehensible (Incompreensível): excesso de informação e perda de sentido

Nesse cenário, modelos tradicionais de gestão e empreendedorismo mostram-se insuficientes. O empreendedor do mundo BANI precisa desenvolver consciência sistêmica, inteligência emocional, visão de longo prazo e responsabilidade coletiva. Empreender para a paz passa a ser uma resposta estratégica, não apenas ética.

Modelos de corporações e seus impactos no mundo

A forma como as organizações operam influencia diretamente a sociedade, o meio ambiente e a estabilidade econômica. Podemos compreender essa evolução por meio de diferentes modelos organizacionais, cada um com impactos distintos:

• Red (Vermelho): estruturas baseadas em poder, controle e medo. São eficientes no curto prazo, mas altamente instáveis e geradoras de conflito.
• Orange (Laranja): foco em performance, crescimento e resultados financeiros. Trouxe avanços importantes, mas também intensificou desigualdades e exploração.
• Blue (Azul): organizações mais estruturadas, reguladas e orientadas por processos. Promovem estabilidade, porém podem ser rígidas e lentas.
• Green (Verde): modelo orientado por valores, propósito, pessoas e sustentabilidade. Introduz colaboração, diversidade e responsabilidade social.

O empreendedorismo para a paz nasce especialmente da transição para modelos Green, e além deles, onde o sucesso não é medido apenas por lucro, mas por impacto positivo, regeneração ambiental, inclusão social e fortalecimento das comunidades.

Empreender para pacificar sistemas

Empreender para a paz não significa ignorar o mercado ou romantizar a economia. Significa reposicionar o papel do empreendedor como agente de equilíbrio em sistemas tensionados.

Negócios que:

• geram trabalho digno
• promovem inclusão
• respeitam limites planetários
• reduzem assimetrias de poder
• fortalecem economias locais
• criam valor compartilhado

Não apenas prosperam de forma mais sustentável, como atuam preventivamente contra conflitos sociais, econômicos e ambientais.

Em um mundo marcado por guerras, polarizações e crises múltiplas, a neutralidade econômica já não existe. Toda escolha empreendedora gera consequências. A pergunta que se impõe é: estamos empreendendo para ampliar disputas ou para construir pontes?

O futuro do empreendedorismo passa pela paz

O Empreendedorismo para a Paz não é uma utopia. Ele já se manifesta em negócios de impacto, economias regenerativas, inovação social, cooperativismo moderno, tecnologias limpas e modelos educacionais transformadores.

Mais do que nunca, precisamos formar empreendedores capazes de compreender que a verdadeira inovação do nosso tempo não está apenas na tecnologia, mas na forma como organizamos a vida, o trabalho e a economia.

Empreender para a paz é, acima de tudo, uma decisão estratégica sobre que tipo de futuro queremos sustentar.

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CEO da Sapienza.

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