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Um elevator pitch no elevador da vida

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Foto: divulgação

Eu começo este artigo me sentindo um pouco como o Forrest Gump, o contador de histórias. Alguém sentado num banco, observando o movimento, lembrando de conversas, de encontros e de caminhos que só fazem sentido quando a gente olha para trás. Sempre me impressionou o poder das histórias. Algumas ganham câmera e viram documentários, séries, institucionais, infoprodutos. Outras não passam de uma ligação inesperada, de um áudio de WhatsApp, de uma boa conversa tomando café ou, ainda, de uma breve troca de ideias no elevador. No fundo, todas importam do mesmo jeito.

Talvez por isso, no momento atual, eu esteja desenvolvendo um novo projeto que volta a falar da história de empresas de tecnologia. Algo que já fiz em outro momento, em uma série que se encerrou, mas que nunca terminou de verdade. Porque as histórias continuam lá. O que muda é o formato, o tempo, o contexto e as pessoas que voltam a cruzar o nosso caminho.

Quando o publicitário se vê perdido, bate aquela velha crise criativa. O roteiro é quase sempre previsível. A gente volta para o básico. Lê jornal, acompanha noticiário, assiste bons filmes, bons documentários, revisita campanhas que estão rodando, tenta entender o espírito do tempo. Isso ajuda. Mas, num segundo momento, quase sempre mais potente, a gente se conecta com quem está perto. Conversa. Troca ideia. Senta em roda. Muitas vezes a crise não está do outro lado do mundo, ela está ali, na mesa ao lado.

Existe ainda um terceiro movimento, mais pessoal, que sempre me guiou. Buscar o que é diferente. O que incomoda. Principalmente aquilo de que eu não gosto. O que está fora do mainstream, fora da manada, fora do padrão. É nesse desconforto que, quase sempre, mora alguma chance real de dizer algo novo. Uma espécie de escolha consciente de sair da vista incrível de um rooftop, pegar o elevador e voltar para o térreo.

Muitas vezes, esse movimento não é voltar ao começo de tudo, afinal, já existe um caminho pisado. Mas é, pelo menos, ousar lembrar de onde tudo começou. Talvez por isso este momento da POPS me remeta a quase 19 anos atrás. Naquele tempo, eu me formava bacharel em Ciência da Computação. Um diploma que segue pendurado na parede, mas que nunca exerci do jeito mais óbvio. Quando me formei, escolhi outro caminho. Fui trabalhar com cultura, virei produtor musical, depois engenheiro de áudio. Não me tornei programador nem analista de sistemas. Parecia um desvio. Hoje, olhando com calma, era só outra rota.

O curioso é que aqueles caminhos que pareciam distantes acabaram desembocando exatamente no que hoje chamamos de tecnologia, inovação, startups, inteligência artificial e tudo o que está acontecendo agora. Nada se perdeu. Só ficou guardado esperando o tempo certo.

Nesse resgate de quase duas décadas, uma pessoa reaparece com força. Flávio Ceci. Colega de graduação, parceiro de Trabalho de Conclusão de Curso, amigo. Na época, o TCC era feito em dupla. Eu escrevia com prazer. Ele dominava a tecnologia. A parceria funcionou. Ele seguiu pela vida acadêmica, construiu títulos, pesquisa, profundidade. Eu fui para outro lado, outros diplomas vieram: Publicidade e Propaganda, Cinema e Imagens Contemporâneas.

Hoje, entendendo melhor o meu papel como alguém que registra e documenta histórias, fica muito clara a importância da convivência e da troca. Quase nunca é quando a câmera está ligada que as coisas mais importantes acontecem. É no antes. É no depois. É no café. Não há semana que passe sem que alguma memória daqueles dias de estudante volte à cabeça. Algumas conexões simplesmente não expiram.

Mais recentemente, outra pessoa entrou nessa equação. Tiago Nicchellatti. Nos conhecemos em Blumenau, durante um trabalho, eu registrando um evento, ele naturalmente fazendo algo que faz bem: newtorking. Nada épico. Um coffee break qualquer. Foi ali que a conversa começou. E é curioso como algumas conexões nascem exatamente quando não há expectativa nenhuma.

O Tiago faz algo que admiro profundamente. Ele tem uma formação acadêmica sólida, é professor, alguém que absorveu o que existe de melhor na universidade e levou isso para o papo de inovação, tecnologia e startups. Ele sai da própria cidade para conversar. Vai a outras cidades, passa um dia, às vezes menos, fala com empresários, líderes de ecossistemas, centros de inovação e também com quem registra histórias.

Sempre defendi a importância da leitura diária de um bom livro. Mas conversar com pessoas diferentes talvez seja uma outra forma, igualmente poderosa, de leitura cotidiana. Quando falamos apenas com iguais, repetimos assuntos. Mesmo assim, até entre iguais existem pequenas diferenças. E são essas pequenas diferenças, aquelas mesmas dores que as startups tentam mapear, que apontam caminhos, soluções e ideias. Inovação quase nunca nasce do óbvio.

Por isso, volto ao banco do Forrest Gump, ou talvez ao térreo de um edifício, com o dedo apertando o botão para subir a outros andares. Não como alguém preso ao passado; pelo contrário, dando um passo à frente, entendendo que o presente é feito de encontros acumulados. Conexões como as do Flávio e do Tiago têm sido faísca e apoio para novas conexões e para um projeto muito maior. Este é o primeiro artigo de 2026. Um livro aberto. Um caderno em branco. As histórias que aparecem aqui não são ponto final, são ponto de partida. É a partir dessas relações, construídas ao longo do tempo e reativadas agora, que uma nova história começa a ser escrita. Uma nova websérie. Um novo futuro em movimento. 

Vem aí, o POPS Elevator.

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publicitário, documentarista e fundador da POPS, agência que desenvolve conteúdos de identidade marcante para o ecossistema de inovação de Santa Catarina.

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