Por muito tempo, Florianópolis foi apresentada como uma promessa. Cidade criativa, alta qualidade de vida, forte base tecnológica e um ecossistema de startups que cresceu apoiado em colaboração, densidade relacional e capital humano qualificado. Hoje, essa promessa está cumprida. O desafio agora é outro.
Dados recentes mostram que o ecossistema de inovação da capital catarinense alcançou um nível relevante de maturidade interna, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa força local em presença internacional consistente. A leitura aparece de forma clara no relatório Assessment of the Florianópolis Startup Ecosystem, publicado pela Startup Genome em 2025, mas também se repete em levantamentos do Sebrae, da ACATE, da ABStartups e em bases globais como Dealroom e PitchBook. Florianópolis já funciona bem por dentro. O que falta é funcionar melhor para fora.
Um ecossistema coeso, colaborativo e desejado
Segundo a Startup Genome, Florianópolis apresenta um dos maiores níveis de suporte entre founders quando comparada a ecossistemas internacionais de porte semelhante. O número de conexões relevantes entre empreendedores, mentores e investidores locais supera a média global, algo raro fora de grandes capitais.
Essa força social não surge por acaso. Instituições como ACATE e Sebrae aparecem recorrentemente como articuladoras do ecossistema, enquanto a alta densidade de startups cria um ambiente onde encontros, trocas e mentorias informais fazem parte da rotina. É um tipo de capital social que muitos hubs tentam construir artificialmente e não conseguem.
Esse ambiente explica por que 34% dos fundadores se mudaram para a cidade e por que 96% afirmam não ter planos de sair, segundo o levantamento da Startup Genome. Florianópolis tornou-se um destino desejado para quem quer empreender com qualidade de vida. Mas esse mesmo conforto começa a revelar seus limites.
O paradoxo da maturidade: quando o local deixa de ser suficiente
Apesar da solidez interna, os dados mostram que startups de Florianópolis têm menos clientes fora do Brasil e do continente americano do que seus pares internacionais. A proporção de founders que estruturam seus negócios já mirando mercados globais é significativamente menor.
Esse padrão não é exclusivo de Florianópolis. Estudos da própria Startup Genome, comparando ecossistemas em estágios semelhantes, mostram que cidades com alta qualidade de vida e forte mercado interno tendem a postergar a internacionalização. O crescimento acontece, mas de forma mais confortável, menos agressiva e com menor apetite a risco.
No caso catarinense, isso se reflete em decisões estratégicas importantes:
- produtos pensados prioritariamente para o mercado nacional
- pressão por rentabilidade precoce
- menor frequência de viagens internacionais de negócios
- poucas conexões estruturadas com hubs como Estados Unidos, Europa ou Ásia
O resultado é um ecossistema sólido, mas ainda pouco inserido em cadeias globais de valor.
Capital existe, mas a escala trava
Outro ponto recorrente nos dados é o gap de financiamento em rodadas Series A. Florianópolis aparece entre os cinco ecossistemas que mais levantaram recursos no Brasil em volume de rodadas, mas com tíquetes médios menores nas fases de crescimento.
Bases como PitchBook e Dealroom indicam que muitas startups locais conseguem seed rounds competitivos, mas enfrentam dificuldades para levantar Series A robustas sem recorrer a fundos de fora do estado ou do país.
Esse fenômeno gera um ciclo conhecido:
- startups promissoras buscam capital externo
- exits acontecem cedo
- o capital não é reciclado localmente
- a ambição média do ecossistema cresce mais devagar
É um padrão que São Paulo conseguiu romper na última década e que Florianópolis começa agora a enfrentar de forma mais clara.
Falta uma bandeira clara para o mundo
Embora Florianópolis tenha startups relevantes em software, IA, fintech, healthtech e energia, ainda não construiu uma especialização setorial reconhecida internacionalmente. Dados da Startup Genome e da Dealroom mostram uma distribuição bastante pulverizada de investimentos entre setores.
Ecossistemas que conseguem se projetar internacionalmente costumam fazer escolhas estratégicas. Tel Aviv consolidou-se em deep tech. Estocolmo em fintech e consumer tech. Waterloo em enterprise software.
Florianópolis reúne condições para se posicionar, por exemplo, como:
- polo de software B2B e SaaS exportável
- hub de soluções digitais ligadas à indústria e energia
- referência em tecnologia aplicada a serviços e plataformas
Mas essa narrativa ainda não foi assumida de forma coletiva.
Internacionalizar o ecossistema, não apenas as startups
Talvez o ponto mais importante seja entender que internacionalização não é uma jornada individual, mas um projeto de ecossistema. Cidades que avançaram nesse caminho criaram:
- programas permanentes de softlanding
- conexões institucionais com hubs globais
- incentivos para investidores apoiarem expansão internacional
- uma cultura que normaliza pensar fora do país desde o início
Florianópolis já construiu a base. Agora precisa construir as pontes.
Um novo momento para o ecossistema catarinense
Florianópolis deixou de ser promessa. Tornou-se referência nacional. O próximo passo é mais complexo e exige coordenação, visão estratégica e escolhas claras.
A cidade não precisa abrir mão de sua identidade, nem de sua qualidade de vida. Precisa, sim, transformar seus ativos locais em presença internacional consistente.O ecossistema está pronto para crescer.
A pergunta é se está pronto para escalar.