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Gestão, governança, segurança e a resiliência estratégica no ano de estresse brasileiro

Foto: divulgação

Por Charles Dalpiccol, consultor de negócios e segurança da informação Introduce.

A Inteligência Artificial (IA) transcendeu o papel de ferramenta de otimização para se tornar o modelo de negócio em si. Esta é a visão de longo prazo da IBM, que projeta a “empresa em 2030” como uma entidade AI-first, e da Capgemini, que detalha como a IA está silenciosamente remodelando as decisões executivas. Para o gestor brasileiro, contudo, embora a IA seja uma promessa futurista, ela pode ser uma solução tática e imediata para um ano de complexidade operacional sem precedentes.

O ano de 2026 no Brasil impõe um teste de estresse triplo à gestão: a fragmentação do tempo produtivo devido à concentração de feriados e eventos esportivos; a incerteza regulatória e a polarização política inerentes ao ciclo eleitoral (presidenciais e estaduais). Além deste cenário, o aumento dos ataques de hackers deve se intensificar, explorando as vulnerabilidades existentes nos ambientes tecnológicos.

Neste contexto, a IA se estabelece como a âncora de resiliência essencial. O desafio é aplicar as previsões de longo prazo como um roteiro de sobrevivência no curto prazo, integrando a tecnologia através de uma governança robusta e uma segurança inabalável dos dados corporativos.2. O cenário brasileiro

A crise de tempo e a paralisia decisória

O calendário de 2026 cria uma realidade de semanas curtas e interrupções frequentes. A redução do volume de dias úteis contínuos é um obstáculo direto à execução de projetos e à manutenção da cadência estratégica. Paralelamente, o ciclo eleitoral no segundo semestre historicamente induz uma paralisia decisória em setores-chave, à medida que empresas e investidores aguardam a definição do cenário político-econômico.

A IA, neste contexto, pode atuar como um multiplicador de tempo e um estabilizador de incertezas. A capacidade de processar sinais de mercado continuamente e ajustar o curso em tempo real (o que a IBM chama de “smarter enterprise”), é a única forma de manter a velocidade e a precisão decisória, mesmo com a redução do tempo disponível.3. Acelerando com propósito

A IA como tática de sobrevivência em 2026

A primeira previsão da IBM, de que a pressão competitiva tornará as grandes apostas não negociáveis, deve ser traduzida em 2026 como a necessidade de velocidade de execução para compensar a dificuldade que teremos para encontrar tempo em um ano com muitas semanas curtas e sobrecarga de variáveis necessárias para avaliarmos na tomada de decisão.

O insight convergente da IBM e Capgemini de que a velocidade é mais importante que a perfeição é a chave para gerenciar a crise de tempo de 2026. Para 55% dos executivos, a velocidade é o fator determinante. Organizações AI-first que abraçam essa filosofia antecipam 74% maior redução nos tempos de ciclo de processo e 70% maior melhoria na produtividade até 2030.

A Capgemini revela que 59% dos CXOs já reduziram o tempo e o custo para tomar decisões com o uso da IA. Devemos usar essa velocidade para:

  • Simulação de cenários imediatos: Utilizar a IA para stress-test hipóteses e simular o impacto de diferentes resultados eleitorais ou regulatórios, permitindo que os gestores tomem decisões mais rápidas com menos informação completa, evitando a paralisia do segundo semestre.
  • Cultura de experimentação rápida: Adotar uma cultura de experimentação focada em resultados, implantando Minimum Viable Products (MVPs) rapidamente. A IBM destaca que, no tempo que organizações mais lentas levam para completar um ciclo de desenvolvimento, as líderes completam múltiplos, criando um efeito composto exponencial.

Produtividade como combustível

A segunda previsão da IBM, de que os ganhos de produtividade de hoje financiarão a transformação de amanhã, deve ser interpretada como a composição de tempo. O tempo economizado pela IA deve ser reinvestido imediatamente em pensamento estratégico e inovação, garantindo que a empresa não apenas se mantenha operacional, mas que utilize o tempo liberado para fazer grandes apostas estratégicas.

O Efeito Flywheel se torna a estratégia de curto prazo:

NívelGanhos de Produtividade (Capgemini)Reinvestimento Tático (2026)Resultado Imediato
ExecutivoDecisões mais rápidas/precisas (59% de redução de tempo/custo).Tempo liberado para foco estratégico e big bets.Manutenção da cadência estratégica apesar da redução de dias úteis.
OrganizacionalAutomação de processos e eliminação de restrições de skills (67% esperam que a IA elimine restrições de skills).Financiamento de inovação em produtos/serviços (prioridade #1 para 2026-2030).Superação da inércia do ano eleitoral, transformando eficiência em capacidade de inovação.

4. Governança e segurança

O imperativo tático da IA customizada

A terceira previsão da IBM, de que a melhor IA será única — a sua, é o imperativo tático para proteger a empresa em 2026. A IA genérica leva à conformidade, o que é perigoso em um ano que exige diferenciação e resiliência.

O futuro é multi-modelo, com 72% dos executivos esperando que os Small Language Models (SLMs) se tornem mais proeminentes que os LLMs. Os SLMs, treinados em dados proprietários, são a defesa mais forte contra a incerteza:

  • Dados proprietários: A IA customizada, treinada com dados internos e contexto único, cria uma vantagem impossível de ser replicada por concorrentes.
  • Continuidade decisória: Ao capturar o raciocínio estratégico da liderança e codificá-lo em modelos, a empresa garante a continuidade decisória, crucial em períodos de transição política ou alta rotatividade de pessoal.

Ação imediata

A falta de governança é o principal obstáculo: 68% dos executivos temem que seus esforços de IA falhem por falta de integração. A Capgemini reforça que apenas 34% das empresas têm governança clara, enquanto 71% temem riscos legais e de segurança.

Para o cenário de 2026, a implementação de um Framework de Governança Convergente de Três Camadas deve ser um 90-Day Governance Sprint para mitigar os riscos antes que se tornem reais e possam afetar a continuidade de negócios.

CamadaFocoAção crítica
EstratégicaDefinição de ética e portfólio de modelos.Estabelecer o AI Officer (68% esperam ter um até 2030) e o Comitê de Ética.
OperacionalOrquestração e explicabilidade (XAI).Implementar uma camada de orquestração neutra para integrar modelos e garantir audit trails e decision logs.
TécnicaSegurança e qualidade de dados.Foco na Qualidade de Dados (preocupação de 60% dos CXOs) e na Criptografia Pós-Quântica (PQC).

5. Segurança e o próximo salto

A quinta previsão da IBM, sobre o salto sísmico da computação quântica, transforma a segurança de dados em um imperativo de 2026.

A ameaça de “harvest now, decrypt later” — roubar dados criptografados hoje para descriptografá-los com computadores quânticos no futuro — exige uma resposta imediata. A confidencialidade de dados estratégicos e a propriedade intelectual são cruciais e a proteção contra essa ameaça deve ser priorizada. A IBM destaca que 72% dos executivos esperam que a segurança seja um mandato de board igual à performance financeira até 2030.6. O novo organograma híbrido: Onde o humano aumenta a IA

A quarta previsão da IBM, de que a IA não fará todo o seu pensamento por você, reforça que o foco se desloca da automação de tarefas para a orquestração de agentes e a amplificação do julgamento humano.

A Capgemini detalha que, quando a IA contradiz o julgamento do executivo, 56% dos CXOs colaboram com a IA para refinar a decisão, e apenas 1% a segue cegamente. Isso demonstra que o valor humano reside na criatividade, na engenhosidade e no julgamento ético — as áreas que a IA não pode replicar.

O novo organograma será híbrido, com agentes de IA incorporados em todas as funções. Isso exige uma redefinição de papéis:

  • De especialista técnico a estrategista de negócios: O prêmio se desloca do conhecimento técnico para o estrategista que pode revisar e aprimorar os outputs da IA com foco em valor de negócio.
  • Prioridade Tática: Desenvolver a “Human-AI Chemistry“. O sucesso reside na qualidade da colaboração. A IBM sugere que o aprendizado seja embutido no workflow, usando a própria IA para fornecer coaching e desenvolvimento de skills em tempo real, preparando a força de trabalho para a obsolescência de 57% das skills atuais até 2030.

7. Conclusão

O ano de 2026 no Brasil é o catalisador que exige a transição imediata para a “smarter enterprise“. A IA é a única ferramenta capaz de compor o tempo perdido com feriados e estabilizar a incerteza inerente a um ciclo eleitoral.

O roadmap para o gestor brasileiro deve ser pragmático e focado em governança:

  1. Prioridade imediata: Iniciar o 90-Day Governance Sprint com foco na Camada 3 (Segurança e dados).
  2. Investimento em diferenciação: Mudar o foco de LLMs genéricos para SLMs customizados, treinados com dados proprietários. Transformar a qualidade de dados na principal prioridade de investimento para criar o moat estratégico.
  3. Liderança híbrida: O C-suite deve liderar a transição, desenvolvendo a “Human-AI Chemistry” e reestruturando o organograma para a orquestração de agentes.

Ao ancorar a tomada de decisão em dados seguros, customizados e governados, a empresa brasileira estará preparada para transformar a complexidade do cenário local em uma vantagem competitiva sustentável, pavimentando o caminho para a visão de 2030, onde a IA é a fonte primária de receita e inovação.

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