Por Priscila Schapke, sócia e headhunter na Evermonte Executive & Board Search.
Você já entrou em uma reunião e teve a sensação de que estava atrasado, mesmo estando no horário? Há alguns dias eu estava entrevistando uma conselheira com uma sólida trajetória no mercado.
Ao perguntar sobre decisões difíceis, ela sorriu sem graça e confessou: “Na minha última reunião, eu entendi em cinco minutos que a decisão já tinha sido tomada”.
Esse tipo de relato não é isolado. Ao longo da minha carreira, escutei versões parecidas muitas vezes, mais do que gostaria de admitir.
E sempre volto a uma mesma pergunta: quantas decisões “oficiais” são apenas formalidades, com o debate real acontecendo em outro lugar?
Quando a reunião vira encenação
Muitas vezes, há pressa, rotina, e a necessidade legítima de “resolver logo”. Mas quando esse padrão se torna regra, o custo é alto: a reunião perde sua função deliberativa e vira apenas a validação de algo pré-definido.
Nesse cenário, as perguntas surgem redondas demais, as alternativas só cumprem protocolo e as objeções são administradas como ruído. A discussão deixa de existir de fato. O fórum vira encenação.
Influência por acesso, não por argumento
A consequência mais sensível nem sempre é perceptível de imediato: quando o debate acontece fora do fórum oficial, a influência depende menos de qualidade e mais de acesso.
Quem participou dos “pré-alinhamentos” chega com contexto, clima e acordos. Quem não participou, chega tentando contribuir – mas o trem já partiu. Isso gera aquela sensação comum: você falou, mas não mudou nada.
A informalidade pode até funcionar – mas apenas para quem já está dentro do circuito. Para quem está entrando, construindo credibilidade, ou não tem acesso prévio por cultura, estilo ou estrutura, esse modelo exclui mais do que inclui.
O paradoxo das reuniões em excesso
Curiosamente, a maioria das organizações realiza muitas reuniões. Um levantamento do Evermonte Institute mostra que 46,2% dos conselhos se reúnem de 9 a 12 vezes por ano e 31,8% mais de 12 vezes. Mas a frequência não resolve se a reunião se resume ao último capítulo de uma história que já foi escrita.
O que realmente importa é o “entre” as reuniões. Sem esse espaço de construção prévia, decisões se concentram e se cristalizam antes que possam ser debatidas.
Avaliar o processo, não só o resultado
Um dado que reforça o problema: 39,8% dos conselhos não usam nenhum mecanismo formal de avaliação de sua atuação. E quando a organização não olha para seu próprio processo decisório, acaba repetindo padrões sem perceber.
Quer um teste simples? Após uma decisão importante, pergunte a si mesmo: “havia uma alternativa real que poderia ter vencido?”
Se a resposta for “não”, então a decisão não foi tomada ali – e tudo bem, desde que se reconheça isso e se estruture melhor o que acontece antes.
Para fechar: quem já estava na conversa?
Volto à pergunta que ficou ecoando na minha cabeça desde aquela entrevista: quantas decisões oficiais são só formalidade… e o debate real aconteceu em outro lugar?
Se quiser fazer um exercício útil nesta semana, reflita sobre a última grande decisão que passou pelo seu fórum mais importante. Quem já estava na conversa antes? Quem chegou quando já estava decidido? As respostas, quase sempre, dizem muito.