Os primeiros dias no Kruger National Park foram de encantamento. Impalas atravessando a estrada, elefantes impondo respeito sem esforço, girafas desenhando o horizonte com seus pescoços longos.
A poucos metros de distância, uma leoa descansava apoiada em um tronco, alheia aos cliques das câmeras e à excitação dos turistas. Diante daquela cena, era impossível não sentir o tamanho real das coisas. Ou melhor, o nosso verdadeiro tamanho.
A experiência de ver a vida selvagem tão de perto tem algo de desconcertante. Ela desmonta a fantasia de controle que carregamos na cidade.
Dentro do carro sentimos que estamos seguros. Mas um animal se aproximar para perceber o quão vulneráveis somos. Na selva, não há cargo, não há título, não há reputação. Há apenas ecossistema.
E ecossistema não funciona com heróis.
Numa das manhãs, encontramos um leão repousando entre arbustos. Sereno. Econômico. Observamos por alguns minutos até que ele se levantou e seguiu seu caminho. Mais adiante, girafas, zebras, impalas e gnus compunham uma paisagem aparentemente tranquila.
Para nós, turistas, era apenas mais um cenário africano. Para o guia, era uma leitura estratégica e detalhista. As girafas estavam atentas. Elas enxergam longe. Percebem o movimento antes dos outros.
E estavam de olho nos movimentos do leão. Aos poucos, alguns animais começaram a sair devagar. Outros hesitaram. Até que, em segundos, todos correram. Logo depois, o leão surgiu em disparada.
Ali não havia caos. Havia sistema.
As girafas não são mais importantes que as zebras. As zebras não são mais relevantes que os gnus. Cada espécie cumpre um papel específico dentro daquele ambiente.
Algumas oferecem visão privilegiada. Outras reagem com velocidade. Outras garantem volume, confundem o predador, diluem o risco. Sobrevivência, na selva, é inteligência coletiva.
No mundo corporativo, insistimos na narrativa do herói. O CEO visionário. O empreendedor obstinado. O executivo que salvou a empresa. Criamos mitos individuais em ambientes que, na prática, só funcionam como ecossistemas.
Nenhuma organização prospera por força isolada. Ela prospera porque alguém enxerga longe, alguém executa rápido, alguém sustenta o operacional, alguém conecta pontas invisíveis.
Mas a cultura do herói é sedutora. Ela simplifica histórias. É mais fácil contar a trajetória de um protagonista do que explicar a complexidade de um sistema. O problema é que, quando alguém acredita demais no próprio protagonismo, começa a ignorar o ambiente. E ignorar o ambiente, na selva, custa a vida.
Existe ainda outro mito corporativo que a natureza desmonta com elegância: o da velocidade constante. O guepardo é o animal mais rápido do mundo. Pode atingir cerca de 120 km por hora, com uma aceleração impressionante.
Mas ele só consegue sustentar essa velocidade por poucos segundos. Depois disso, precisa parar. Se insistir além do limite, literalmente morre. Sua potência depende da alternância entre explosão e recuperação.
Quantas empresas estão tentando operar como guepardos o tempo todo? Crescer a qualquer custo, escalar a qualquer preço, acelerar trimestre após trimestre sem espaço para respirar.
Quantos executivos vivem em estado permanente de sprint, confundindo intensidade com consistência? O mercado celebra quem corre mais rápido, mas ignora quem sabe dosar energia.
Na selva, até o predador entende que estratégia é equilíbrio entre força e contexto. No mundo corporativo, ainda premiamos quem parece incansável, mesmo que esteja exaurido. Idolatramos agendas lotadas, decisões impulsivas e expansão desenfreada, como se velocidade fosse sinônimo automático de inteligência.
A verdade é desconfortável. Empresas não quebram apenas por falta de talento. Quebram por falta de leitura de ambiente. Por ignorar interdependências. Por acreditar demais na própria força. Por agir como heróis isolados em um sistema que exige cooperação.
Talvez devêssemos formar menos heróis e mais construtores de ecossistemas. Líderes capazes de enxergar além do próprio departamento, de reconhecer que nenhuma área vence sozinha, de aceitar que força sem contexto vira arrogância e velocidade sem estratégia vira exaustão.
Na selva, o título de rei não garante sobrevivência.
No mercado, o cargo também não.
Quem insiste em ser herói pode até brilhar por um tempo.
Mas quem entende o ecossistema permanece.