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Sustentabilidade no papel certo, na hora certa

Foto: divulgação

Imagine duas empresas do mesmo setor, com faturamentos semelhantes e operações na mesma região. Uma delas publica anualmente seu relatório de sustentabilidade, com indicadores ambientais, sociais e de governança claros, auditáveis e acessíveis. A outra não. Qual delas consegue crédito com juros menores, fecha contratos com multinacionais e atrai os melhores profissionais do mercado? A resposta é cada vez mais óbvia. E os números confirmam.

Segundo a MSCI, empresas no grupo das 20% melhores avaliadas em critérios ESG superaram financeiramente as 20% piores de forma consistente ao longo da última década. Não estamos falando de reputação ou marketing. Estamos falando de resultado financeiro. O relatório de 2025 do Morgan Stanley, aponta que cerca de 80% dos investidores institucionais já consideram os fatores ESG como elemento central na decisão de investimento. E a KPMG, no relatório Survey of Sustainability Reporting de 2024, mostra que 96% das maiores empresas do mundo já publicam seus relatórios de sustentabilidade. O relatório deixou de ser um diferencial. Virou pré-requisito.

Mas como exatamente esse documento se transforma em dinheiro na mesa? De várias formas. A primeira é a maior facilidade no acesso a crédito com condições diferenciadas. No Brasil, o BNDES já opera linhas que oferecem redução de até 0,4% na taxa de juros para empresas que cumprem metas ambientais, sociais e de governança, sendo a publicação anual de um relatório de sustentabilidade uma das contrapartidas obrigatórias. O Fundo Clima, também operado pelo BNDES, projeta desembolsos de mais de R$ 30 bilhões em 2026 para financiamentos sustentáveis, com taxas a partir de 1% ao ano, e o relatório figurará como diferencial competitivo relevante entre os critérios de elegibilidade. Segundo a Febraban, 21,2% de todo o crédito corporativo do setor bancário brasileiro já é direcionado para setores classificados como economia verde. Bancos estão ampliando o financiamento com juros diferenciados para projetos que apresentam métricas ambientais mensuráveis. Sem relatório, sem métricas. Sem métricas, sem acesso a esse capital.

A segunda forma é a entrada e permanência em cadeias globais de fornecimento. A União Europeia vem estabelecendo padrões cada vez mais rígidos para importação, incluindo os European Sustainability Reporting Standards e o Regulamento para Produtos Livres de Desmatamento. Empresas brasileiras que exportam para a Europa já precisam demonstrar rastreabilidade e conformidade ambiental. Um relatório de sustentabilidade bem estruturado é o documento que comprova tudo isso. A WEG, catarinense com mais de 52% do faturamento vindo do exterior, é um exemplo concreto. Com relatório integrado alinhado a GRI, TCFD e SASB, medalha de ouro da EcoVadis e nota A- no CDP Clima, a empresa mantém presença comercial em mais de 135 países. Não é coincidência.

E tem um terceiro caminho que muitos gestores ainda subestimam. Durante os projetos de consultoria que conduzo à frente da Eco.InPact, já construí diversos relatórios de sustentabilidade para empresas de diferentes portes e setores. E a reação do CEO, quando recebe o documento finalizado, é sempre a mesma. Existe um deslumbramento surpreendente ao ver todas as informações da empresa reunidas no formato do relatório de sustentabilidade, de forma clara, compreensiva e visualmente atrativa para diferentes públicos. O que mais surpreende os gestores, porém, é a facilidade com que se consegue mensurar o valor gerado a partir das páginas do relatório. Programas sociais que pareciam apenas “custo” revelam retorno em engajamento e retenção de talentos. Reduções de emissões em linhas produtivas aparecem como ganhos reais de eficiência energética. Ações de governança que antes ficavam invisíveis passam a funcionar como argumento concreto em negociações com bancos, investidores e compradores. O relatório transforma o intangível em ativo estratégico.

Um estudo da FIESC (2025) confirma esse padrão em Santa Catarina. As indústrias catarinenses que divulgam informações sobre práticas ambientais, sociais e de governança apresentam melhores indicadores de transparência, acesso ao mercado e engajamento com stakeholders. Empresas que adotam essa prática têm maior engajamento dos colaboradores, menor rotatividade e melhor reputação corporativa. Isso se traduz diretamente em produtividade e em resultados financeiros mais consistentes no médio e longo prazo.

Há também uma lógica de timing que merece atenção. O primeiro quadrimestre do ano é o período em que investidores, analistas e parceiros comerciais revisam portfólios, definem alocações de capital e selecionam fornecedores para o novo ciclo. Publicar o relatório nesse período significa estar visível exatamente quando as decisões estratégicas estão sendo tomadas. Quem posterga para o segundo semestre perde essa janela.

E para quem ainda acha que tudo isso é voluntário, vale o alerta. A Resolução CVM nº 193/2023 tornou obrigatória a divulgação de relatórios de sustentabilidade com base nas normas IFRS S1 e IFRS S2 do ISSB para todas as companhias abertas listadas na B3. As informações referentes ao exercício de 2026 deverão ser reportadas obrigatoriamente no início de 2027. Isso significa que tudo o que as empresas fizerem ou deixarem de fazer ao longo deste ano, em termos de coleta de dados, materialidade, emissões e governança ESG, será reportado de forma compulsória. Uma empresa listada que ainda não possui inventário de emissões, que não conduziu sua análise de materialidade ou que não estruturou sua governança para temas ESG precisa começar agora. Não no segundo semestre. Agora.

A transparência em sustentabilidade gera valor mensurável. Para as empresas que competem em mercados globais cada vez mais exigentes, investir em relatórios robustos, tempestivos e alinhados aos padrões internacionais não é custo. É a estratégia que coloca dinheiro na mesa. E o momento de agir é agora.

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CEO e fundadora da Eco.InPact, especialista em governança e ESG, com ampla experiência em consultoria voltada para planejamento estratégico, gestão de riscos e ESG em organizações públicas e privadas.

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