Recentemente fui almoçar com um amigo de infância que soltou: precisamos “aguentar” só mais 20 anos. Daqui 20 anos a tecnologia nos tornará imortais.
Bom, é fato que já vivemos mais do que qualquer geração anterior. A medicina avança, a tecnologia evolui e a expectativa de vida aumenta de forma consistente.
Mas a pergunta que começa a ganhar espaço não é apenas quanto vamos viver. É como. Quanto mais adiamos o fim, mais urgente se torna enfrentá-lo com maturidade.
Sai do almoço e retomei a leitura do livro A Escola dos Deuses, de Stefano Elio D’Anna. Parecia uma coincidência conspiracional porque na leitura encontrei reflexões provocativas sobre a morte.
O autor propõe a ideia de “morrer antes de morrer”. Não se trata do fim biológico, mas da disposição de abandonar identidades, crenças e papéis que já não fazem sentido. Essa morte simbólica exige coragem, especialmente para quem construiu carreira, patrimônio e reputação ao longo de décadas.
No ambiente empresarial, resistimos à morte simbólica. Mantemos cargos, modelos de negócio e convicções por apego ou medo. Mas o mercado não perdoa estagnação. Empresas que não “morrem” a tempo (que não se reinventam) acabam desaparecendo. A reflexão de D’Anna é direta: a verdadeira evolução exige desapego. Exige aceitar o fim de ciclos como parte do processo de crescimento.
Outro ponto que me chamou atenção no livro é a responsabilidade radical pela própria vida. Não somos apenas vítimas do tempo ou da biologia. Não somos passageiros, somos pilotos. Podemos não controlar o clima, mas decidimos rota, altitude e potência do motor.
Somos, em grande medida, autores das escolhas que moldam nossa trajetória. Essa visão desloca o debate sobre longevidade. Não basta viver mais. É preciso decidir conscientemente como viver e que tipo de existência estamos sustentando.
A tecnologia pode prolongar o biológico por anos. Mas ela não resolve a dimensão existencial. O risco da nossa era é transformar a morte em falha técnica e a velhice em projeto de manutenção. Como já discutiram filósofos e escritores, a finitude não é o oposto da vida. É sua moldura. Sem limite, não há urgência. Sem urgência, não há intensidade.
Talvez o verdadeiro desafio não seja estender a vida indefinidamente. Seja aprender a morrer em pequenas doses ao longo dela, encerrando ciclos, revendo prioridades, desapegando do que já cumpriu sua função.
É preciso assumir responsabilidade plena pela própria trajetória. No fim, a pergunta permanece simples e desconfortável: estamos apenas adiando a morte ou estamos construindo uma vida que, quando chegar a hora, terá valido a pena?