Pense na última garrafa de água que você consumiu no escritório. Provavelmente, a tampinha foi para o lixo comum junto com o copo descartável, o papel de bala e o guardanapo. Parece irrelevante. Mas quando multiplicamos esse gesto por dezenas de funcionários, por centenas de dias úteis, por milhares de empresas em todo o estado, o “pequeno resíduo” se torna um problema grande. Grande para o meio ambiente, grande para o orçamento da empresa e, sobretudo, grande para as pessoas que poderiam transformar esse material em renda.
O Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, segundo a Abrelpe. Desse total, apenas 4% é efetivamente reciclado. O restante vai para aterros sanitários ou, em muitos casos, para lixões a céu aberto. O custo de enviar uma tonelada de resíduo para aterro sanitário no Brasil varia entre R$ 100 e R$ 300, dependendo da região, somando transporte, operação e disposição final. Um estudo da S2F Partners com base em dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima o impacto da má gestão de resíduos no Brasil em R$ 97 bilhões por ano, considerando danos ambientais, climáticos e à saúde humana. Se nada mudar, esse custo pode chegar a R$ 168 bilhões até 2050.
Agora traga esse cenário para dentro da sua empresa. Aquela tampinha de garrafa PET que foi para o lixo comum é feita de polipropileno, um plástico com alto valor de reciclagem. Quando separada corretamente, ela pode ser triturada, derretida e transformada em mobiliário urbano. Bancos de praça, mesas escolares, vasos, brinquedos. O PET da garrafa, por sua vez, vira fibra têxtil, nova embalagem, carpete automotivo. A ABIPET registra que a indústria recicladora do PET movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano no Brasil, e o índice de reciclagem do material já supera 56%. Cada peça que vai para o aterro em vez de voltar para a cadeia produtiva é dinheiro enterrado. Literalmente.
E aqui entra uma dimensão que muitos gestores ainda não enxergam com clareza. Quando a empresa separa seus resíduos corretamente e os destina para cooperativas de catadores, ela não está apenas cumprindo uma obrigação ambiental. Ela está injetando renda diretamente em comunidades vulneráveis. No Brasil, segundo o Anuário da Reciclagem de 2024, mais de 3 mil cooperativas de catadores reúnem cerca de 70 mil trabalhadores formais, e o Movimento Nacional dos Catadores estima que existam mais de 800 mil pessoas atuando na catação, das quais 70% são mulheres. A maioria vive em situação de vulnerabilidade social. Quando uma cooperativa bem estruturada recebe material limpo e separado, a renda do catador pode saltar de R$ 500 para até R$ 3 mil por mês, como demonstram experiências em Foz do Iguaçu, onde cooperativas organizadas com apoio do poder público já transformaram a realidade de mais de 140 famílias.
O ponto é que não estamos falando apenas de boa vontade. Estamos falando de estratégia empresarial. Uma empresa que implementa um programa de gestão de resíduos bem estruturado reduz seus custos com coleta e disposição em aterro, gera créditos de logística reversa que podem ser comercializados, melhora seus indicadores ESG para investidores e compradores, e fortalece sua relação com a comunidade onde opera. O Decreto 11.413/2023 criou o Certificado de Crédito de Reciclagem, que permite que cooperativas e empresas comprovem a destinação correta dos resíduos e gerem receitas adicionais com a venda desses créditos. O BNDES, junto com a Fundação Banco do Brasil, destinou R$ 50 milhões em recursos não reembolsáveis através do programa Novo Cataforte para fortalecer redes de cooperativas. Há dinheiro circulando nessa cadeia, e quem participa dela colhe os frutos.
E para quem busca um caminho ainda mais concreto, vale conhecer a Lei de Incentivo à Reciclagem (Lei nº 14.260/2021), regulamentada pelo Decreto nº 12.106/2024. A lógica é semelhante à da Lei Rouanet, mas voltada para a cadeia da reciclagem. Pessoas físicas podem destinar até 6% do imposto de renda devido, e empresas tributadas pelo Lucro Real podem destinar até 1%, para projetos de reciclagem previamente aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Os recursos financiam capacitação de catadores, assessoria técnica, compra de equipamentos e infraestrutura para cooperativas. Ou seja, o imposto que a empresa já paga pode ser redirecionado para fortalecer justamente a cadeia que vai receber e valorizar os resíduos que ela gera.
Na prática, o que falta para a maioria das empresas não é dinheiro nem tecnologia. É olhar estratégico. Olhar para os resíduos como recurso e não como descarte. Entender que separar corretamente papel, plástico, metal e vidro dentro da operação não é custo operacional, é investimento que retorna de múltiplas formas.
Uma indústria alimentícia catarinense que separa suas embalagens plásticas e as destina para cooperativas locais está, ao mesmo tempo, reduzindo seu custo de descarte em aterro, alimentando a cadeia de reciclagem do PET, fortalecendo os indicadores do seu relatório de sustentabilidade e contribuindo para a inclusão social na sua região. É um ciclo em que todos ganham.
Os pequenos resíduos não são pequenos. Uma tampinha pesa menos de dois gramas, mas uma empresa com cem funcionários descarta milhares delas por ano. O pouco de cada dia vira toneladas no final do ano. E essas toneladas, quando mal destinadas, viram custo financeiro, passivo ambiental e oportunidade perdida. Quando bem geridas, viram economia, matéria-prima e renda para quem precisa. A mudança começa dentro da empresa e se espalha pela cadeia de valor inteira. A pergunta não é se vale a pena fazer diferente. A pergunta é por que ainda não estamos fazendo. Pequenas ações fazem grande diferença.