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Comércio conversacional vs comércio agentic: a próxima fronteira das vendas já começou

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Foto: divulgação

A maior parte do mercado ainda fala de inteligência artificial em vendas como se o tema fosse atendimento. O raciocínio é sedutor porque é fácil de medir: reduzir tempo de resposta, aumentar volume de conversas, diminuir custo por contato. Só que, na prática, esse foco virou uma espécie de miopia coletiva, porque a mudança mais importante não é sobre velocidade de resposta. É sobre quem está, de fato, decidindo.

Nos últimos anos, o Comércio Conversacional virou o novo “default” do comércio digital. Ele ganhou força porque conversa diminui fricção e transforma dúvida em ação dentro do mesmo fluxo em que a vida acontece, no bolso, no chat, na rotina. A própria Meta ajudou a cristalizar esse ponto quando afirmou que um bilhão de pessoas trocam mensagens com empresas, toda semana, nas suas plataformas de mensageria.

Só que existe um passo além da conversa, e ele é mais disruptivo do que parece. Quando o consumidor começa a delegar comparação, filtragem e escolha para sistemas, a empresa deixa de competir só por preferência humana e passa a competir por legibilidade e confiança algorítmica. O nome que melhor organiza essa virada é Comércio Agentic, e ele muda a estratégia porque troca o objetivo central: em vez de escalar diálogo, o jogo passa a escalar decisão.

O comércio conversacional virou infraestrutura, e os números explicam por quê

A conversa virou infraestrutura por um motivo simples: ela se encaixa no comportamento real do consumidor, não no fluxo idealizado do funil. A jornada não começa mais em uma vitrine organizada, ela começa no impulso, na dúvida e na necessidade de resolver rápido. Quando a Meta diz que um bilhão de pessoas conversam com empresas semanalmente, não está só descrevendo um canal, está descrevendo uma mudança cultural sobre como confiança é construída no digital.

Esse movimento também é empurrado por uma expectativa mais ampla de continuidade entre o mundo físico e o digital. A Salesforce, no material que resume tendências de conexão com clientes, aponta que 74% dos clientes esperam conseguir fazer online tudo o que fariam presencialmente ou por telefone. Isso é um recado direto para empreendedores: o cliente não separa mais “canal” de “marca”, ele só percebe se resolveu ou não resolveu.

Quando essa expectativa sobe, a personalização deixa de ser um enfeite e vira economia. A McKinsey, ao analisar impacto de personalização, observa que ela normalmente gera aumento de receita de 10% a 15%, com variações que podem ir de 5% a 25% dependendo do setor e da capacidade de execução. Isso ajuda a entender por que o comércio conversacional não é apenas uma camada de atendimento, ele é um coletor de contexto em tempo real que alimenta personalização, recomendação e oferta.

O ponto é que o mercado já aceitou, há tempo, que algoritmos influenciam decisão, mesmo antes de chamar isso de “agentic”. A McKinsey registrou uma estimativa repetida à exaustão no varejo digital: 35% do que consumidores compram na Amazon e 75% do que assistem na Netflix vêm de recomendações baseadas em algoritmos. Essa estatística é importante menos pelo número exato e mais pelo que ela revela: boa parte do consumo já ocorre sob curadoria computacional.

Quando você olha por esse ângulo, chatbots e assistentes deixam de ser o fim do processo e viram apenas a interface de um fenômeno maior. O comércio conversacional acelerou conversas, mas também treinou consumidores a confiar em sistemas para reduzir esforço de escolha. A consequência disso foi o deslocamento do gargalo: se antes a batalha era por atenção e clique, agora a batalha começa a virar por recomendação e seleção.

Um case que ilustra bem essa transição, com números que chamam atenção, é o da Klarna. Em comunicado divulgado via PRNewswire, a empresa afirmou que seu assistente de IA teve 2,3 milhões de conversas em um mês, representando dois terços dos chats de atendimento, com promessa de reduzir reincidência de contato e encurtar tempo de resolução. É um retrato poderoso do ganho operacional que a IA traz quando aplicada ao diálogo, e também um aviso: mesmo com esses números, isso ainda é mais “conversa em escala” do que “decisão delegada”. 

Quando a IA vira personal shopper, a decisão muda de lugar

O Comércio Agentic começa quando o consumidor para de usar IA para perguntar e passa a usar IA para escolher e executar. Em vez de navegar por cem opções, ele descreve um objetivo e espera que o sistema traga poucas alternativas, já filtradas por preço, restrições, prazo, preferência e contexto. A diferença é estrutural, porque a empresa deixa de competir apenas por narrativa e passa a competir por sinais que o sistema consegue interpretar, comparar e ranquear.

Essa virada está sendo empurrada por um fenômeno técnico que está entrando nas empresas com velocidade. A Gartner projetou que até 40% das aplicações corporativas terão agentes específicos por tarefa integrados até 2026, saindo de menos de 5% em 2025. Isso significa que a IA não será apenas uma camada de interface, ela vira um componente do software que executa trabalho, toma microdecisões e orquestra passos.

É aqui que muda a perspectiva estratégica do marketplace, e essa é uma mudança que poucos lojistas ainda estão precificando. O marketplace clássico foi construído para ser vitrine, uma infraestrutura de exposição para o vendedor, baseada em sortimento, busca e posição na prateleira. O modelo de personal shopper, por outro lado, é construído para ser curadoria e tomada de decisão para o comprador, reduzindo abundância e aumentando precisão, porque o valor passa a ser “escolher bem” e não “mostrar muito”.

Essa inversão coloca confiança no centro do modelo econômico. A Gartner, ao falar de agentic AI em marketing, projeta que 60% das marcas usarão agentes para interações um a um até 2028, mas também traz um dado que explica o freio cultural: em pesquisa com consumidores dos EUA, 78% disseram que rotulagem explícita de conteúdo gerado por IA é muito importante, ou o fator mais importante, para manter confiança. Personal shopper sem confiança vira apenas mais uma máquina empurrando ofertas, e o consumidor percebe. 

Um exemplo prático de como o “declarativo” começa a substituir o “operacional” aparece na evolução do Sidekick, da Shopify. A Digital Commerce 360 descreveu a atualização com raciocínio em múltiplas etapas e capacidade de analisar múltiplas fontes de dados da loja para sugerir ações, algo bem diferente de um bot que apenas responde perguntas. O mesmo texto lembra que, na América do Norte, 117 dos Top 2000 varejistas online usam Shopify e que, em 2024, esses varejistas somaram mais de US$ 9,78 bilhões em vendas web, o que dá escala real para a tese. 

Ao mesmo tempo, existe um risco estratégico em tratar agentic como moda inevitável sem disciplina de execução. A Gartner prevê que mais de 40% dos projetos de agentic AI podem ser cancelados até o fim de 2027 por custo, falta de valor claro ou controles insuficientes, e ainda alerta para o fenômeno do “agent washing”, quando soluções reembalam assistentes e chatbots como se fossem agentes de fato. Ou seja, a mudança é real, mas o hype também é real, e é justamente aí que empresas maduras vão se separar das ansiosas.

A consequência estratégica para vendas é que “aparecer” perde parte do protagonismo e “ser selecionável” vira vantagem competitiva. Isso significa dados estruturados, reputação verificável, consistência logística, clareza de atributos e capacidade de integração, porque agentes escolhem por critérios e não por encanto. É como se a internet estivesse migrando da era do “me convença” para a era do “me prove”, e o prove aqui precisa ser legível para pessoas e para sistemas.

O que muda para o pequeno empreendedor em Santa Catarina

Santa Catarina é um laboratório vivo de empreendedorismo, e os números ajudam a explicar por que a pressão por eficiência virou sobrevivência. Só no primeiro semestre de 2025, o estado registrou a abertura de 151.760 pequenos negócios, equivalentes a 97% de todas as empresas abertas no período, com crescimento de 21,3% em relação ao ano anterior. Esse fluxo constante de novos CNPJs cria um mercado ao mesmo tempo vibrante e desafiador: tem cliente circulando, mas também tem concorrência brotando todos os dias, e quem opera no limite de tempo sente o impacto primeiro.

É por isso que, para o pequeno empreendedor, IA não entra como “tendência”, entra como alavanca de capacidade instalada. Quando micro e pequenas empresas respondem por 73,8% do saldo de empregos formais gerados em Santa Catarina em 2025, o estado está dizendo que a economia é sustentada por operações compactas, com gente fazendo mais do que deveria caber em um dia. Nesse contexto, automação de atendimento, triagem e follow-up não é luxo de empresa grande: é a maneira mais direta de reduzir perda invisível, aquela que não aparece no DRE, mas aparece na agenda vazia por falta de confirmação, na oportunidade que sumiu porque ninguém respondeu rápido, no cliente que não volta porque o pós-venda nunca aconteceu.

Empresas como a Primeiro Robo tem se encaixado como solução prática para pequenos negócios catarinenses, principalmente porque trata IA como operação, não como “chat bonitinho”. A empresa se posiciona como frente de IA e automação da DRIN Inovação, com agentes integrados envolvendo canais como WhatsApp, Alexa, Instagram e tantos outros projetos que se integram com CRMs e ERPs que empreendedores já usam, E isso conversa com o problema central do pequeno que não é falta de vontade, é falta de estrutura para manter consistência quando a demanda cresce, e qualquer mecanismo que transforme rotina em processo tende a liberar tempo onde ele é mais valioso, que é no atendimento humano que realmente importa.

O novo papel do vendedor na era do Comércio Agentic

O vendedor deixa de ser, principalmente, um “operador de persuasão” e passa a ser um “arquiteto de decisão”. Quando uma parte crescente da jornada é mediada por agentes que comparam, filtram e recomendam com base em critérios objetivos, o discurso por si só perde força relativa e a missão do vendedor muda: ele precisa desenhar uma proposta que seja inequívoca, mensurável e fácil de ser escolhida, tanto por humanos quanto por sistemas. Isso empurra o comercial para mais perto de produto, dados e estratégia, porque vender passa a depender menos de improviso e mais de estrutura.

A IA tende a absorver o trabalho repetitivo e previsível do pipeline, como qualificação inicial, follow-ups, respostas a objeções padrão, comparação de atributos e até recomendações de pacote. O vendedor humano sobe de nível e passa a concentrar energia onde a máquina ainda tropeça, justamente na negociação complexa, construção de confiança em alto valor, entendimento de contexto político dentro de empresas, trade-offs reais de implementação e desenho de soluções sob medida. Em vez de ser o “melhor falante”, o vendedor passa a ser o “melhor arquiteto de decisão”, resolvendo o que não cabe em um “check list”..

O efeito colateral mais importante é que performance comercial tratará menos sobre volume de contatos e mais sobre qualidade de entendimento e autoridade, pois o vendedor que prospera nesse novo cenário é aquele que sabe transformar valor em sinais claros: casos, métricas, garantias, provas, previsibilidade e linguagem de risco, porque é isso que agentes e comitês de compra conseguem comparar. Em um mundo em que o comprador delega parte do julgamento a sistemas, o vendedor não vence por convencer melhor; ele vence por tornar a escolha mais óbvia, mais segura e mais defendível.

No fim, o profissional comercial não desaparece, mas muda de função dentro do próprio trabalho. A IA tende a absorver a parte repetitiva, comparativa e previsível, que é onde o custo marginal perto de zero vira arma. O humano tende a ganhar espaço onde há ambiguidade, negociação complexa, desenho de oferta e construção de autoridade, justamente porque essas dimensões ainda exigem julgamento e contexto, e não apenas cálculo.

Existe uma frase que ajuda a entender por que essa transição é inevitável: “atenção é a moeda do século XXI”. Só que, no Comércio Agentic, a moeda começa a mudar de forma, porque a atenção vira escassa demais para ser gerida manualmente e a confiança vira o critério que governa curadoria. A empresa que entender essa troca de moeda vai tratar o agente não como canal, mas como novo árbitro do mercado.

O futuro próximo não vai premiar quem apenas colocou um chatbot no WhatsApp, nem quem apenas automatizou o atendimento e chamou isso de estratégia. Vai premiar quem redesenhou a arquitetura de decisão, quem transformou valor em sinais comparáveis e quem construiu confiança verificável para máquinas e humanos. E isso exige menos ansiedade tecnológica e mais pensamento de modelo de negócio.

Se eu tivesse que resumir a tese em uma frase, provavelmente seria simples e incômoda. Nos próximos cinco anos, vender será menos sobre convencer pessoas e mais sobre ser selecionado por sistemas que pensam por elas. Quem tratar isso como uma mudança de era vai sair do jogo da vitrine infinita e entrar no jogo da curadoria vencedora.

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CEO da Drin Inovação, TEDx speaker, mentor, conselheiro e Linkedin TOP Voice.

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