Pesquisar

Inovação e sustentabilidade lado a lado no setor da saúde

Foto: divulgação

Um hospital de grande porte pode consumir até 2,5 vezes mais energia do que um edifício comercial de tamanho semelhante. Gera entre 1,5 e 3 quilos de resíduos por leito por dia. Usa milhões de litros de água por mês. E opera 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem possibilidade de parar. Quando se fala em inovação no setor da saúde, o imaginário vai direto para robótica cirúrgica, inteligência artificial no diagnóstico ou prontuário eletrônico. Mas existe uma inovação menos visível e igualmente transformadora acontecendo nos bastidores dos hospitais brasileiros, e ela tem tudo a ver com sustentabilidade.

Segundo o estudo Health Care’s Climate Footprint, da Health Care Without Harm, o setor de saúde é responsável por 4,4% das emissões globais de gases de efeito estufa. No Brasil, esse percentual gira em torno de 5% das emissões nacionais, conforme dados do SEEG. O país já ultrapassou 53 milhões de beneficiários de planos de saúde, com o segmento corporativo respondendo por 73% da cobertura privada. Empresas não são apenas clientes desse sistema. São agentes indutores de boas práticas em saúde, gestão e impacto socioambiental. E boa parte das emissões do setor vem de decisões operacionais que podem ser repensadas sem comprometer a qualidade assistencial.

O Hcor, em São Paulo, oferece um exemplo concreto. O hospital eliminou o uso do óxido nitroso, um gás anestésico cujo potencial de aquecimento global é quase 300 vezes maior que o do CO₂ e que permanece na atmosfera por mais de um século. A substituição por alternativas como o sevoflurano manteve os protocolos de segurança do paciente e permitiu ao hospital projetar uma redução de 50% nas emissões diretas de gases de efeito estufa em um único ano. Em paralelo, o Hcor reduziu o consumo hídrico em 6,6%, o consumo de energia por paciente-dia em 12% e ampliou o volume de materiais reciclados. Em 2024, a comercialização de recicláveis gerou R$ 237 mil, revertidos para projetos gratuitos de saúde. A iniciativa foi reconhecida pelo Pacto Global da ONU na categoria Gestão de Resíduos.

Não é um caso isolado. A Rede D’Or estruturou um Programa de Eficiência Energética que migrou dezenas de unidades para o mercado livre de energia e obteve a melhor classificação ESG da América Latina no setor saúde pela S&P Global. O Hospital Israelita Albert Einstein, pioneiro na instalação de painéis solares e modernização de sistemas de climatização, investe continuamente em reciclagem e gestão inteligente de resíduos. O Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, estruturou programa ESG com foco em transparência, rastreabilidade de resíduos e inovação com impacto social. Nenhum deles tratou a sustentabilidade como um projeto à parte. Ela foi integrada à gestão, à operação e à estratégia de inovação.

É exatamente aí que hospitais de médio e pequeno porte precisam avançar. Na minha experiência à frente da Eco.InPact, conduzindo projetos ESG para instituições de saúde, percebo que o maior obstáculo não é a falta de recursos. É a falta de visão integrada. Na Eco.InPact, desenvolvemos uma linha especializada para o setor da saúde que une diagnóstico, plano de ação, inventário de emissões, relatório de sustentabilidade e gestão de fornecedores a uma plataforma tecnológica de acompanhamento contínuo de indicadores ESG. Inovar na gestão é a primeira etapa da transformação. Quando apresentamos ao gestor hospitalar um diagnóstico ESG que conecta o consumo energético ao custo operacional, a gestão de resíduos à conformidade regulatória e os indicadores sociais à reputação institucional, a reação é sempre de surpresa. Não porque os dados sejam novos, mas porque nunca haviam sido reunidos dessa forma, e a conversão em resultados financeiros fica visível, ou melhor, nítida.

O cenário regulatório reforça essa urgência. Desde 2024, a Joint Commission International incorporou exigências de gestão ambiental em seus critérios de acreditação hospitalar. Isso significa que, além de segurança do paciente, hospitais que buscam acreditação JCI precisam demonstrar práticas de eficiência energética, gestão hídrica e redução da pegada de carbono. O Plano de Ação em Saúde de Belém, lançado na COP30, articula 60 ações para fortalecer a adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas, incluindo vigilância, inovação tecnológica e políticas baseadas em evidências. A sustentabilidade deixou de ser opcional na saúde.

O setor gera aproximadamente 250 mil toneladas de resíduos hospitalares por ano no Brasil. Hospitais que investem em segregação adequada, reciclagem e compostagem não apenas reduzem o volume enviado para tratamento como geram receita e economia direta. Trocar lâmpadas por LED reduz o consumo em até 80%. Sensores de presença e climatização inteligente eliminam desperdícios. Captação de água de chuva reduz a conta hídrica. São medidas que se pagam rapidamente e que, somadas, transformam a operação hospitalar. Tecnologias como telemedicina, inteligência artificial e análise de dados, quando conectadas a uma estratégia ESG consistente, geram valor não apenas econômico, mas também social e ambiental.

Inovação e sustentabilidade não competem entre si no setor da saúde. Elas se alimentam mutuamente. O hospital que inova na gestão ESG reduz custos. O que reduz custos libera recursos para investir em tecnologia assistencial. O que investe em tecnologia melhora o atendimento ao paciente. E o que melhora o atendimento fortalece sua reputação, atrai profissionais qualificados e se posiciona melhor diante de investidores, acreditadoras e da própria comunidade. É esse ciclo que buscamos ativar na Eco.InPact quando levamos o ESG para dentro da gestão hospitalar, com diagnóstico, tecnologia e acompanhamento contínuo. Porque sustentabilidade que não se mede, não se sustenta.

Compartilhe

CEO e fundadora da Eco.InPact, especialista em governança e ESG, com ampla experiência em consultoria voltada para planejamento estratégico, gestão de riscos e ESG em organizações públicas e privadas.

Leia também