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Sistema inédito no Brasil amplia acessibilidade e inclusão em edifícios residenciais

Foto: divulgação

A acessibilidade ainda é um dos principais gargalos da construção residencial no Brasil. Embora o país tenha uma legislação considerada avançada, em grande parte dos empreendimentos, o tema ainda é tratado como exceção e não é considerado na base dos projetos. Um sistema construtivo inédito, desenvolvido por uma construtora de Santa Catarina, surge agora como um exemplo concreto de como uma inovação arquitetônica pode contribuir para mudar esse cenário.

Registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a patente Park Haus cria um conceito exclusivo de ruas internas e garagens individuais integradas aos apartamentos, permitindo que o morador acesse sua unidade com o carro, por meio de rampas independentes, sem depender de elevadores veiculares ou deslocamentos longos e complexos. Mais do que conforto e segurança, o sistema foi concebido para ampliar a autonomia das pessoas e responder a demandas reais de acessibilidade.

“Hoje, o maior desafio da acessibilidade não é técnico — é cultural. A construção civil ainda enxerga a acessibilidade como algo caro ou complicado. Quando ela não é pensada desde o início do projeto, vira um remendo. Isso gera perda estética, aumento de custos e até atrasos na aprovação. Mas quando a acessibilidade é integrada à concepção arquitetônica, ela qualifica o espaço e agrega valor real ao imóvel”, afirma a arquiteta e urbanista Mariana Bunn, especialista em acessibilidade.

Um país diverso, um único modelo insuficiente

Segundo a arquiteta, falar em acessibilidade é reconhecer a diversidade humana. O Brasil tem cerca de 18 milhões de pessoas com deficiência, mais de 32 milhões de idosos e milhões de pessoas com limitações temporárias — um contingente que ultrapassa facilmente 45 milhões de brasileiros (mais de 20% da população) que, em algum momento da vida, dependem de ambientes acessíveis.

“Não existe um perfil único de usuário, e a legislação brasileira entende isso. Por isso, o Decreto nº 9.451/2018 exige que empreendimentos multifamiliares sejam entregues com unidades adaptáveis. E adaptar previamente é sempre mais barato, menos invasivo e mais inteligente do que reformar depois. A lei não engessa: ela cria condições para atender diferentes necessidades ao longo do tempo”.

Nesse contexto, soluções que ampliam a independência no uso cotidiano dos espaços ganham relevância.

“Muitas pessoas deixam de sair de casa não por falta de vontade, mas por saberem que vão encontrar barreiras físicas, sem contar o comportamento das outras pessoas. É comum ouvir que ‘não aparecem pessoas com deficiência’. Elas não aparecem porque o ambiente não as acolhe”, observa a arquiteta.

Acessibilidade como experiência integrada — não como exceção

Desenvolvido pela construtora e incorporadora Beco Castelo, o sistema Park Haus foi projetado com rampas internas de fluxos independentes, ventilação natural, piso de alta resistência, atenuação acústica e pé-direito ampliado, permitindo o acesso de ambulâncias, veículos de resgate e de mudanças diretamente até os pavimentos residenciais. Os acessos funcionam como ruas internas, com elementos visuais inspirados no espaço urbano, priorizando segurança e orientação.

“Nós partimos da ideia de que acessibilidade é autonomia. O objetivo não é colocar o carro como protagonista, mas como um meio de garantir conforto, segurança e controle do próprio tempo. Isso é especialmente importante para pessoas com mobilidade reduzida, idosos ou famílias em diferentes fases da vida”, acrescenta José Castelo Deschamps, sócio-fundador da Beco Castelo e idealizador do projeto.

Para Mariana, o diferencial está na integração entre acessibilidade, estética e funcionalidade:

“A acessibilidade contemporânea se apoia em três pilares: autonomia, conforto e segurança. Hoje, falamos também de estética, porque a acessibilidade bem feita não é improvisada — ela faz parte do desenho. Isso está alinhado ao Desenho Universal, que propõe soluções que funcionam para todas as pessoas, sem adaptações posteriores”.

Impacto que vai além de um único empreendimento

O conceito Park Haus estreia em um novo empreendimento da Beco Castelo, que será lançado ainda neste semestre, no bairro Cacupé, em Florianópolis. Também estão em fase de projeto outros dois edifícios na capital catarinense que irão utilizar o sistema.

“Ao propor um novo olhar sobre circulação, acesso e uso dos espaços residenciais, o Park Haus aponta um caminho possível para a construção civil brasileira: tratar a acessibilidade não como obrigação legal, mas como valor central de projeto — e como resposta concreta a uma sociedade cada vez mais diversa, longeva e consciente de seus direitos”, conclui José Castelo.

A patente garante exclusividade e possibilidade de licenciamento por até 20 anos, abrindo espaço para que o modelo seja replicado em outras regiões do país.

“Um empreendimento sozinho não resolve todos os desafios urbanos, mas ele cria referência, mostra que é possível projetar de forma mais humana, mais alinhada à diversidade real da população. O impacto aparece no cotidiano: mais independência, mais convivência social, mais pertencimento. Acessibilidade é qualidade de vida”, reflete a arquiteta.

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