Há algo de profundamente simbólico quando uma startup nascida no interior de Santa Catarina atravessa o mundo e volta com o maior reconhecimento possível.
Não apenas pelo troféu em si, mas pelo que ele representa. Maturidade de ecossistema, consistência de propósito e, principalmente, clareza sobre o que realmente importa.
Pra minha felicidade, e orgulho ainda maior, essa história vem da Serra Catarinense, de Lages, minha terra natal.
A Scienco Biotech fez exatamente isso ao conquistar o título de Global Winner no South Summit Brazil 2026, um dos maiores encontros de inovação do planeta, com mais de 3 mil startups participantes. Um feito que, nas palavras da própria CEO, carrega tanto surpresa quanto convicção.
“Foi uma surpresa enorme, mas também uma felicidade e um reconhecimento muito significativo. Ser escolhida como Global Winner nos deixou extremamente lisonjeados e reforçou que estamos no caminho certo”, afirma Maria de Lourdes Borba Magalhães.
Mas o que parece um salto internacional começa, na verdade, com raízes muito bem fincadas.
A história da empresa remonta a 2016, dentro do Centro de Ciências Agroveterinárias da UDESC, num momento em que o ecossistema de inovação catarinense ainda estruturava suas primeiras engrenagens. Não havia glamour. Havia edital, tentativa e, principalmente, construção.
“O primeiro edital que conhecemos foi o Sinapse da Inovação, que foi fundamental nesse processo. Foi através dele, com a iniciativa da FAPESC, que a empresa de fato surgiu”, relembra Maria.
Sem laboratório próprio, a Scienco nasceu na intersecção entre universidade, parque tecnológico e vontade de fazer acontecer. A parceria com o Orion Parque Tecnológico foi decisiva para transformar ideia em experimento e experimento em produto.
Ao longo dos anos, novos fomentos permitiram algo essencial. Autonomia. A criação do próprio laboratório dentro do parque tecnológico não foi apenas um avanço estrutural, foi um marco de independência científica.
E há um detalhe que diz muito sobre o DNA da empresa.
“Hoje, a empresa é composta por cinco colaboradoras, todas mulheres, além dos sócios. Isso reforça o protagonismo feminino dentro da ciência e do empreendedorismo.”
Programas como o Mulheres Mais Tech, da FAPESC, e reconhecimentos como o prêmio da FINEP ajudaram a viabilizar não só a estrutura, mas uma cultura onde ciência, diversidade e execução caminham juntas.
Em 2021, a criação da spin-off DairyTech, ao lado do professor Gustavo Felippe da Silva, marca uma inflexão clara. Sair da pesquisa e entrar definitivamente no jogo de mercado.
O resultado veio rápido.
Em 2022, nasce o MilkTest A2, uma tecnologia que resolve um problema complexo com uma simplicidade quase desconcertante.
Enquanto a identificação do leite A2 tradicionalmente depende de genotipagem, cara, demorada e inacessível para muitos produtores, o teste desenvolvido pela Scienco entrega o resultado em minutos, a partir de poucas gotas.
“Muitas vezes, a inovação está na simplicidade. Resolver uma dor real de mercado, de forma prática e acessível, pode gerar um impacto enorme tanto na saúde quanto na economia.”
Essa frase não é só reflexão. É estratégia.
A tecnologia não demorou a cruzar fronteiras. Hoje, a Scienco exporta para países como Nova Zelândia, Portugal, Coreia do Sul e Colômbia. Mercados exigentes, maduros e altamente competitivos.
Na Nova Zelândia, há um símbolo ainda mais forte. A parceria com a The A2 Milk Company, referência global no segmento.
Estar dentro da cadeia de um player que praticamente criou a categoria A2 não é apenas validação técnica. É chancela de mercado.
Apesar da expansão internacional, o olhar da empresa continua voltado para casa.
“Nosso grande sonho é tornar Santa Catarina o primeiro estado 100% A2 do Brasil, utilizando uma tecnologia desenvolvida dentro do próprio ecossistema de inovação catarinense.”
É aqui que a história ganha profundidade. Porque não se trata apenas de vender um produto, mas de transformar uma cadeia produtiva inteira. Do produtor à indústria. Da saúde ao consumo.
Ganhar o South Summit não é o ponto final. É um espelho.
Um reflexo de um ecossistema que funciona, de instituições como a UDESC que formam e conectam, e de uma região que começa a se consolidar como polo de geração de tecnologia aplicada.
E, talvez mais importante, um lembrete incômodo para muita gente no mercado.
Inovação não é, necessariamente, sobre complexidade.
Às vezes, é sobre enxergar o óbvio que ninguém resolveu ainda e ter coragem de fazer simples, bem feito e escalável.
A Scienco Biotech entendeu isso.
E o mundo, agora, também.