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Franquias: executar bem é o que separa quem escala de quem fica pelo caminho

Foto: divulgação.

Por Nelson Lins, fundador da Selfit Academias e da Face Doctor Franchising.

O franchising brasileiro vive um momento que, à primeira vista, parece apenas mais um ciclo de crescimento.

Os números impressionam: o setor ultrapassou R$ 300 bilhões em faturamento em 2025, com mais de 200 mil unidades em operação e expansão acima das projeções. Há capital disponível, novos players entrando e uma sensação generalizada de oportunidade.

Mas, olhando com mais profundidade, fica claro que não se trata apenas de crescimento, é uma mudança estrutural. O setor entrou, definitivamente, em uma nova fase: a era da maturidade. E essa transição não perdoa amadores.

Se antes o desafio era expandir, hoje o verdadeiro diferencial está na capacidade de sustentar esse crescimento com consistência. O ponto de inflexão já foi cruzado e crescer, por si só, deixou de ser vantagem competitiva.

Interiorização e a ilusão da expansão fácil

Grande parte desse novo momento é impulsionada por um movimento silencioso, mas transformador: a interiorização do crescimento. Cidades fora dos grandes centros passaram a liderar a expansão, atraindo redes com demanda reprimida, menor saturação e custos operacionais mais equilibrados.

Na teoria, é o cenário ideal. Na prática, é onde mora uma das maiores armadilhas do setor: a falsa ideia de que é possível replicar modelos sem adaptação.

O comportamento de consumo muda, o ticket médio oscila e a maturidade do mercado local impõe um ritmo próprio. O que funciona na Faria Lima pode simplesmente não fazer sentido no interior do Nordeste ou do Centro-Oeste.

A falsa ideia de que é possível crescer com um “control C + control V” tem custado caro. Redes que ignoram essas nuances até conseguem expandir em número de unidades, mas perdem consistência operacional e, no médio prazo, valor de marca. Crescer sem adaptação é crescer com prazo de validade.

O novo perfil do franqueado elevou o nível do jogo

Ao mesmo tempo, uma transformação talvez ainda mais relevante está acontecendo do lado de quem investe. O perfil do franqueado mudou, e mudou profundamente.

Sai de cena o empreendedor que buscava uma única unidade como alternativa de renda. Entra o operador profissional, que pensa em escala, retorno sobre capital (ROIC) e eficiência operacional.

São investidores que analisam indicadores, comparam redes e tomam decisões com uma lógica muito mais próxima de portfólio do que de operação individual.

Esse movimento muda a lógica do setor: o franqueado deixa de ser executor e passa a atuar como parceiro estratégico, elevando o nível de exigência sobre suporte, previsibilidade e performance.

O maior risco do setor não é crescer pouco, é crescer mal

O ambiente atual favorece a expansão. Há mais acesso a capital, mais informação e segmentos inteiros, especialmente ligados à saúde, bem-estar e serviços recorrentes, com demanda crescente.

Isso cria a percepção de que crescer ficou mais fácil. E, de fato, ficou. O problema é que crescer rápido não significa crescer bem. E é exatamente nesse ponto que surgem os maiores erros.

O crescimento sem estrutura não quebra uma rede da noite para o dia. Ele se manifesta de forma silenciosa: uma perda de padrão aqui, um desalinhamento com franqueados ali, uma queda gradual na qualidade do atendimento. Quando os sinais ficam evidentes, o dano já está instalado, e o custo de correção é sempre mais alto.

A entrada de capital mais sofisticado intensifica esse cenário. Fundos e investidores passaram a enxergar franquias como plataformas escaláveis, o que acelera a expansão, mas também aumenta a pressão por performance. Crescer deixou de ser apenas abrir unidades e passou a ser uma decisão estratégica sobre onde, como e em que ritmo avançar.

Franquia não é sobre expansão. É sobre gestão em escala

Existe um equívoco recorrente no mercado: tratar a franquia como uma ferramenta de crescimento rápido. Na prática, trata-se de um modelo de gestão de padrões.

Franquear é construir um sistema que funcione com consistência em diferentes regiões, com diferentes perfis de público e sob diferentes condições operacionais. É garantir que a experiência do cliente seja a mesma, independentemente da unidade. E, principalmente, é alinhar interesses para que franqueador e franqueado cresçam na mesma direção.

O Brasil ainda oferece um enorme espaço para expansão, especialmente fora dos grandes centros. Mas o próximo ciclo será mais rigoroso. Mais exigente. Mais profissional.

A tolerância ao erro operacional será cada vez menor.

Porque, neste estágio do mercado, crescer já não é o diferencial competitivo. O que separa as redes sólidas dos castelos de areia é a capacidade de fazer o básico bem feito, todos os dias, em todas as unidades, sem exceção.

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