Por Moisés Cona, managing director do GRI Institute Infrastructure.
O Sul do Brasil entra em 2026 diante de uma janela de oportunidade, que estará mais ou menos aberta conforme a estabilidade e a previsibilidade locais.
Ao mesmo tempo em que se recupera de eventos climáticos extremos recentes, a região precisa decidir qual modelo de desenvolvimento quer sustentar nas próximas décadas.
Conforme apontam dados mais recentes do próprio GRI Institute, o setor de infraestrutura deixa claro que não falta capital interessado. O que ainda está em questão é a qualidade do ambiente onde esse capital será aplicado.
Um dado chama atenção: mais de 70% dos agentes do setor pretendem ampliar seus investimentos na região. À primeira vista, isso pode parecer um sinal inequívoco de confiança. Mas o movimento é menos eufórico e mais pragmático. A maioria fala em expansão moderada e seletiva.
Em outras palavras, o dinheiro existe, mas não é ingênuo.
Esse comportamento reflete um perfil de investimento em infraestrutura no Brasil pautado fortemente pela avaliação de riscos estruturais. Mais do que identificar oportunidades evidentes, envolve a consideração consistente de fatores como segurança jurídica, previsibilidade regulatória e, cada vez mais, resiliência climática.
As enchentes que atingiram o Sul recentemente, com forte impacto no Rio Grande do Sul, reforçaram a centralidade da adaptação climática na agenda de infraestrutura. Projetos que não incorporarem esses critérios tendem a se tornar obsoletos antes mesmo de maturados.
Ao mesmo tempo, parte relevante da infraestrutura existente foi concebida em um contexto em que a intensificação dos riscos climáticos ainda não era plenamente conhecida e considerada, o que amplia o desafio de adaptação.
Nesse cenário, investir sem considerar eventos extremos deixa de ser apenas um erro técnico e passa a representar também um risco econômico.
Outro ponto relevante é a prioridade dada ao saneamento básico e à infraestrutura hídrica.
O setor aparece como o principal destino de novos aportes em infraestrutura no Sul, impulsionado tanto pelas metas de universalização quanto por um atraso histórico (brasileiro) que ainda cobra seu preço. Poucos segmentos conseguem combinar de forma tão clara necessidade social e oportunidade econômica.
Na sequência aparecem rodovias, logística, infraestrutura social e infraestrutura digital, áreas que ajudam a definir a competitividade contemporânea.
O Sul, com sua forte vocação exportadora e posição estratégica no Mercosul, depende diretamente da eficiência desses sistemas.
Talvez o dado mais incômodo seja outro: muitos investidores (cerca de 27%) ainda estão em compasso de espera. Não por falta de recursos, mas por incerteza. O ciclo eleitoral pesa e decisões acabam sendo adiadas enquanto se aguarda maior clareza sobre prioridades e regras dos próximos governos estaduais.
Esse capital em suspenso deveria servir de alerta. Ele mostra que o desafio central não está na falta de interesse privado, mas em se manter um ambiente público dotado de visão de Estado, independente de variações de governo.
Quando investidores aguardam definições políticas para destravar aportes, o recado é direto: faltam mais coordenação e visão de longo prazo.
Mais do que anunciar novos projetos, os próximos governos do Sul precisarão garantir continuidade de projetos e contratos, Isso passa por perenizar políticas, respeitar contratos, aprimorar regulações e tratar infraestrutura como política de Estado.
É esse tipo de ambiente que pode transformar apetite em real expansão de investimentos.
O Sul do Brasil tem vantagens importantes: base econômica sólida, capital humano qualificado e histórico institucional relativamente estável.
Ainda assim, enfrenta vulnerabilidades crescentes diante das mudanças climáticas e de pressões, inclusive sobre os serviços públicos.
O momento, mais do que discurso, exige execução. O capital está pronto. A pergunta é se o ambiente estará plenamente à altura.