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Ano eleitoral reorganiza o mercado de M&A no Brasil

Foto: divulgação

Por Rafael Assunção, especialista em M&A e fundador da Questum.

A aproximação de eleições no Brasil costuma provocar um reflexo quase automático no mercado corporativo. Fundadores e investidores passam a questionar se vale a pena avançar com processos de fusões e aquisições ou aguardar o fim do ciclo político. A leitura parte de uma percepção intuitiva de risco eleitoral. Na prática, porém, os dados mostram uma dinâmica diferente. O mercado de M&A no país não paralisa em anos de eleição. O que ocorre é uma mudança de ritmo, com redistribuição das operações ao longo do calendário e a formação de janelas específicas para quem compreende a lógica desse ciclo.

A série histórica da KPMG ajuda a ilustrar esse comportamento. Em 2014 foram registradas 818 transações, número superior às 796 observadas em 2013. Em 2018, o volume chegou a 967 operações, crescimento de 16,5% em relação ao ano anterior. Já em 2022, mesmo com eleição presidencial e juros elevados, o país atingiu 1.728 transações, um dos maiores volumes já registrados.

O histórico indica que o calendário eleitoral não interrompe o fluxo de investimentos. O que se observa, na maioria das vezes, é uma redistribuição do apetite ao risco ao longo do ciclo político. Investidores ajustam o timing das decisões e concentram movimentos em períodos de maior previsibilidade regulatória e econômica.

Essa reorganização cria um fenômeno pouco explorado nas análises tradicionais. Compradores estratégicos e fundos institucionais tendem a antecipar decisões antes do momento de maior ruído político. Por essa razão, processos de M&A frequentemente se concentram no primeiro semestre do ano eleitoral, quando há maior previsibilidade institucional e menor desgaste decisório nos conselhos de administração. Trata-se de um cálculo racional de risco e oportunidade: concluir transações antes que o ambiente político amplifique a percepção de incerteza.

Outro elemento relevante é o comportamento setorial. Alguns segmentos demonstram resiliência independentemente do calendário eleitoral. Dados recentes indicam que o setor de energia registrou crescimento de cerca de 30% em operações de fusões e aquisições em períodos eleitorais. O segmento hospitalar, por sua vez, apresentou aumento de 45% no volume de transações no primeiro semestre de 2025. No agronegócio, 2022 registrou 117 operações de M&A, alta de 105% em relação ao ano anterior.

Esses movimentos mostram que setores com demanda estrutural, ativos estratégicos ou receitas recorrentes mantêm atratividade mesmo em cenários de maior incerteza política. Apesar disso, ainda é comum ouvir que anos eleitorais seriam momentos inadequados para vender empresas ou iniciar processos de aquisição. Esse argumento ignora um fator central. Investidores institucionais trabalham com modelos que precificam risco político e incorporam essa variável nas avaliações de ativos. O que realmente tende a frear decisões de investimento não é o resultado eleitoral em si, mas a ausência de clareza regulatória ou fiscal no período posterior.

Quando essa direção começa a se tornar visível, o mercado costuma reagir rapidamente, concentrando o fechamento de transações nos meses seguintes à eleição. A leitura estratégica do ciclo eleitoral exige, portanto, abandonar a ideia de que existe um ano bom ou ruim para fusões e aquisições. O que existe são janelas dentro de cada ciclo econômico e político. Empresas com governança sólida, métricas consistentes e uma narrativa clara de crescimento tendem a encontrar compradores mesmo em ambientes mais turbulentos.

O mercado brasileiro de M&A não desaparece em anos eleitorais. Ele apenas muda de forma. Quem compreende essa dinâmica com antecedência não apenas atravessa o período de incerteza, como também encontra oportunidades que permanecem invisíveis para quem decidiu esperar.

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