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Logística e IA: o novo diferencial competitivo invisível 

Foto: divulgação

Durante muito tempo, a indústria tratou a logística como uma consequência natural da operação. Produzia-se bem, com qualidade e custo eficiente, e a entrega era vista como uma etapa posterior, quase automática dentro da cadeia. Essa lógica fez sentido por décadas, mas hoje ela já não se sustenta. Na prática, o que tenho observado é que a logística passou a exercer um papel determinante na competitividade industrial e, em muitos casos, é justamente ela que define quem mantém ou perde espaço no mercado. 

No Grupo Ponteiras Rodrigues, com sede em Joinville, operamos uma cadeia complexa, com milhares de SKUs de autopeças, muitas delas com geometria irregular, volumosas e sensíveis ao transporte. Atender o Brasil com esse tipo de produto exige um nível de execução logística que vai muito além de simplesmente movimentar carga. Foi nesse contexto que estruturamos a Zelog Cargo como um braço estratégico do negócio. Não como uma operação de transporte tradicional, mas como uma plataforma de execução orientada por dados e, cada vez mais, apoiada por inteligência artificial. 

Ao longo desse processo, ficou claro que os desafios logísticos mais relevantes, como roteirização ineficiente, baixa visibilidade da operação, dificuldade de controle na ponta e retrabalho no pós-venda, não seriam resolvidos apenas com aumento de estrutura. São, essencialmente, problemas de decisão. E é justamente nesse ponto que a inteligência artificial começa a gerar impacto concreto. 

Na nossa operação, a roteirização deixou de ser uma atividade baseada apenas em regras fixas ou experiência acumulada e passou a incorporar múltiplas variáveis da realidade operacional, como características das cargas, densidade de entrega e comportamento das rotas. A inteligência artificial entra como uma camada que permite analisar essas variáveis de forma mais rápida e consistente, elevando o nível das decisões. O efeito prático é mais eficiência, menos desperdício e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis. 

Ao mesmo tempo, avançamos na visibilidade da operação. A combinação de dados em tempo real com modelos analíticos permite antecipar desvios, ajustar rotas e dar mais previsibilidade ao cliente. E previsibilidade, hoje, é um ativo competitivo relevante, muitas vezes tão importante quanto o próprio preço. Em um mercado em que o cliente precisa confiar na disponibilidade da peça, saber quando ela chega passou a ser parte central da proposta de valor. 

Outro aspecto que ganha relevância com o uso de inteligência artificial é o pós-venda logístico. Estruturar rastreabilidade, registrar evidências de entrega e responder com rapidez a ocorrências deixa de ser apenas um processo reativo e passa a ser uma fonte de aprendizado. Cada ocorrência registrada alimenta o sistema, melhora a tomada de decisão e reduz a repetição de erros. Isso diminui retrabalho, reduz custo e melhora a relação com o cliente. 

Mas talvez o principal aprendizado seja que a logística, isoladamente, não resolve o problema da competitividade. Os ganhos mais relevantes aparecem quando há integração entre logística, produção e comercial. No nosso caso, isso significou evoluir também a conferência de pedidos, reduzindo desafios na expedição, e avançar no sequenciamento da produção, utilizando dados para melhorar o fluxo e reduzir gargalos. A inteligência artificial, nesse contexto, atua como um acelerador dessa integração, conectando informações e apoiando decisões ao longo de toda a cadeia. 

O que observo é que ainda existe, em muitas empresas, uma visão da logística como centro de custo. Mas, na prática, ela já se tornou um dos principais vetores de vantagem competitiva, especialmente em mercados onde produto e preço estão cada vez mais próximos entre concorrentes. Com o avanço da inteligência artificial, essa diferença tende a se ampliar. O que antes era difícil de prever, otimizar e controlar passa a ser cada vez mais modelável, e decisões deixam de ser baseadas exclusivamente em experiência para incorporar dados, histórico e capacidade analítica. 

Isso não reduz a importância das pessoas. Pelo contrário. Amplia a capacidade de execução de quem conhece o negócio e sabe onde atuar. O que muda é o nível de exigência. Empresas que conseguirem integrar melhor suas operações e utilizar inteligência artificial para qualificar suas decisões tendem a operar com mais eficiência, menos desperdício e maior consistência. As demais correm o risco de continuar competitivas na fábrica, mas perder relevância na entrega. 

No fim do dia, o cliente pode não enxergar a tecnologia, não conhecer os sistemas ou entender a complexidade da operação. Mas ele percebe o resultado. E, cada vez mais, é esse resultado que define quem continua competitivo. 

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CEO da Ponteiras Rodrigues, doutorando e mestre em Administração de Empresas pela FGV, pesquisa competitividade industrial, negociação internacional e parcerias estratégicas.

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