A fala de Gabriel Galípolo na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado deveria acender um alerta que vai muito além do debate sobre juros e inflação. O presidente do Banco Central não fez apenas uma defesa institucional. Fez, na prática, um pedido de socorro. O recado foi claro. O sistema financeiro brasileiro ficou mais digital, mais rápido e mais complexo, mas a estrutura do regulador não acompanhou essa transformação.
O Banco Central é responsável por proteger pilares essenciais da economia como a estabilidade da moeda, a solidez do sistema financeiro e o funcionamento de infraestruturas críticas como o Pix. Quando Galípolo afirma que parte dessa operação depende da “devoção” de servidores que trabalham madrugadas, fins de semana e feriados, com a mesma remuneração de quem atua em horário comercial, ele revela uma fragilidade perigosa. Nenhuma infraestrutura crítica de um país pode depender de heroísmo permanente.
O problema fica ainda mais grave quando se olha para a supervisão. Segundo os pontos relatados na audiência, o BACEN perdeu mais de 1.300 servidores nos últimos dez anos, tem déficit relevante na área de fiscalização e enfrenta limitações para investir em tecnologia e inteligência artificial. Em um mercado em que bancos, fintechs e instituições de pagamento operam com dados, automação e alta escala, o regulador não pode fiscalizar o futuro com ferramentas do passado.
Essa assimetria cria um grave risco sistêmico. Um Banco Central com pouca gente, pouca tecnologia e orçamento engessado será obrigado a fazer escolhas sobre o que consegue ou não fiscalizar. E quando o regulador escolhe por escassez, áreas inteiras podem ficar menos acompanhadas. Crises financeiras normalmente não nascem grandes. Elas começam em falhas pequenas, controles frágeis, modelos de negócio mal compreendidos e riscos que crescem silenciosamente até ficarem caros demais para serem contidos.
Também preocupa a defasagem legal. Ainda segundo os pontos destacados, a legislação brasileira de resolução e liquidação bancária carrega bases de 1975, enquanto o sistema financeiro atual funciona em tempo real, 24 horas por dia, sete dias por semana. Regular um ambiente de Pix, fintechs, bancos digitais e operações instantâneas com instrumentos pensados para outro século é uma aposta arriscada demais para um país do tamanho do Brasil.
Por isso, a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central não deve ser tratada como uma pauta corporativa, mas como uma pauta de Estado. Um BACEN forte não serve a um governo específico. Serve à população, às empresas, aos investidores e à confiança na economia. A pergunta que fica não é quanto custa fortalecer o Banco Central. A pergunta correta é quanto poderá custar ao país continuar ignorando esse pedido de socorro.