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A vida não cabe na agenda

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Foto: divulgação

Existe uma habilidade que o mundo corporativo nos ensinou muito bem: planejar. Planejamento estratégico, plano de carreira, plano financeiro, plano de marketing, plano de treinamento, planejamento de agenda.

Aprendemos que boas decisões reduzem riscos, que processos aumentam eficiência e que uma agenda organizada é sinônimo de produtividade.

Não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Planejar continua sendo uma das competências mais importantes para qualquer líder.

O problema começa quando deixamos de organizar o trabalho e passamos a organizar a vida inteira como se ela fosse um grande projeto.

Aos poucos, cada espaço vazio da agenda se transforma em uma oportunidade para encaixar mais uma tarefa produtiva, performática. Tempo livre deixa de ser um intervalo e passa a ser visto como desperdício.

Mas existe uma pergunta que me intriga: se ocupamos todos os espaços da agenda, onde o inesperado encontra espaço para acontecer?

Quando olho para minha própria trajetória, percebo que quase nada do que realmente mudou minha vida estava no planejamento.

Abrir uma empresa aos 23 anos não fazia parte de um roteiro tradicional. O caminho esperado era concluir a faculdade, mudar de cidade, ingressar em uma grande empresa e seguir um plano de carreira.

Mas as oportunidades que eu buscava simplesmente não existiam na minha cidade. Foi justamente quando deixei de procurar um caminho pronto que surgiu uma pergunta que mudou tudo: por que não criar minha própria oportunidade?

O mesmo aconteceu em outros momentos. Grandes projetos nasceram de conversas casuais. Pessoas importantes apareceram em encontros completamente improváveis.

Viagens inesquecíveis começaram sem muito planejamento. Até o esporte que mais marcou minha vida surgiu dessa forma.

Conheci o kitesurf porque um colega comentou sobre uma modalidade praticamente desconhecida no Brasil naquela época. Minha reação foi simples: “Por que não? Estou com tempo!”.

Aquela decisão, tomada sem grandes cálculos ou objetivos estratégicos, se transformou em uma paixão que me acompanha até hoje.

Talvez exista uma lição importante escondida nessas experiências. As coisas mais valiosas da vida raramente pedem agendamento.

Elas surgem nas conversas que se estendem além do previsto, no café que durou mais do que deveria, na viagem improvisada, na ideia que apareceu durante uma caminhada sem destino.

A criatividade, os relacionamentos, as oportunidades e até algumas das decisões mais importantes da nossa trajetória costumam nascer justamente nos espaços onde não havia nada programado.

Isso não significa viver sem disciplina. Muito pelo contrário. A disciplina constrói consistência, e a consistência continua sendo indispensável para qualquer projeto relevante.

Mas existe uma diferença enorme entre ter uma rotina saudável e acreditar que cada minuto do dia precisa estar previamente ocupado. Uma agenda eficiente deveria organizar prioridades, não eliminar completamente a espontaneidade.

Talvez por isso eu observe um comportamento cada vez mais comum entre executivos e empresários. Parece que tudo virou projeto. O esporte virou projeto. As férias viraram projeto. Os relacionamentos viraram projeto. Até o descanso ganhou metas, aplicativos e indicadores.

Não basta correr, é preciso bater um pace. Não basta viajar, é preciso montar o roteiro perfeito. Não basta ler, é preciso cumprir uma meta anual de livros (e livros que te façam desenvolver, nada de romances, dramas, etc). Aos poucos, deixamos de viver experiências para gerenciar experiências.

Essa lógica se alimenta de outro fenômeno curioso. Nunca foi tão fácil copiar a rotina de pessoas bem-sucedidas. Basta abrir uma rede social para encontrar a “manhã perfeita do CEO”, a agenda ideal do empreendedor bilionário ou o protocolo definitivo de produtividade. E milhares de pessoas passam a reproduzir esses hábitos acreditando que encontraram o caminho do sucesso.

Mas existe um detalhe que quase ninguém percebe. Aquela é a rotina da pessoa depois de chegar onde chegou. Não necessariamente foi a rotina que a levou até lá.

Confundimos consequência com causa. Copiamos calendários quando deveríamos compreender decisões. Seguimos métodos quando talvez devêssemos construir os nossos próprios.

Existe ainda uma contradição que me chama atenção. Admiramos crianças quando elas se comportam como adultos. Dizemos que são maduras, inteligentes, responsáveis.

Como se crescer significasse abandonar rapidamente aquilo que torna a infância tão rica: a curiosidade, a imaginação, a espontaneidade, a capacidade de brincar sem esperar nenhum resultado em troca.

Depois passamos a vida adulta tentando reaprender exatamente essas características, matriculando-nos em cursos sobre criatividade, inovação e pensamento fora da caixa.

Talvez tenhamos esquecido que a vida não acontece apenas dentro dos planos que fazemos. Ela também acontece entre eles.

A próxima grande oportunidade da sua carreira talvez não esteja na reunião marcada para quarta-feira às nove horas. Pode estar na conversa que se estendeu cinco minutos além do previsto.

O próximo grande projeto talvez não nasça dentro do planejamento estratégico, mas de uma ideia que surgiu durante uma caminhada, um almoço sem pressa ou uma viagem feita sem grandes expectativas.

Vivemos tentando controlar cada vez mais variáveis, reduzir incertezas e otimizar cada minuto. Mas, nesse processo, corremos o risco de eliminar exatamente o ambiente onde as melhores surpresas costumam aparecer.

Talvez a vida nunca tenha pedido uma agenda completamente preenchida. Talvez ela só esteja esperando que deixemos algum espaço para acontecer.

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Empreendedor, advisor, investidor, palestrante, entusiasta de atividades outdoor e apaixonado pelo mar desde sempre.

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