A participação de lideranças e empresários na Climate Week NYC 2026 e no fórum “What’s Next for U.S.-Brazil Relations?”, organizado pelo LIDE em Nova York, ocorre em um momento de profunda inflexão para a economia do Sul do Brasil.
O que está em jogo na maior vitrine de sustentabilidade do planeta não é apenas o debate sobre meio ambiente, mas o redesenho urgente das nossas relações comerciais com os Estados Unidos, historicamente um dos maiores parceiros econômicos da nossa região.
Os dados recentes de comércio exterior acendem um alerta crítico. Embora Santa Catarina registre uma sólida corrente de exportações globais — alcançando US$ 8,41 bilhões até agosto de 2026 —, as recentes tarifas impostas pelo governo americano geram um impacto severo, atingindo até 72% das vendas catarinenses para o país norte-americano. Setores vitais como madeira, móveis, motores elétricos, máquinas e veículos enfrentam hoje um cenário protecionista complexo.
A situação é ainda mais delicada para o Rio Grande do Sul, o estado mais afetado pelo “tarifaço” no país. Cerca de 79% de suas exportações totais para os EUA ficaram expostas a sobretaxas, gerando uma retração drástica de 21,3% nas vendas acumuladas até agosto de 2026 e castigando cadeias produtivas tradicionais como fumo, madeira de coníferas, couros e calçados.
Diante desse cenário, a pergunta que as lideranças do Sul devem responder em Nova York é clara: como transformar os desafios de adaptação para uma “economia verde” em uma alavanca para contornar o protecionismo e reabrir mercados?
A resposta está na diplomacia comercial aliada à descarbonização. O mercado global — e o investidor americano — não busca apenas preço; exige rastreabilidade, eficiência energética e compromisso real com as metas de transição climática. Os desafios impostos pelas novas tarifas, embora dolorosos no curto prazo, aceleram a necessidade de as empresas catarinenses e gaúchas modernizarem seus portfólios.
Santa Catarina já possui um ecossistema industrial altamente tecnológico e diversificado, referência na fabricação de motores elétricos de alta eficiência e maquinários de ponta. O Rio Grande do Sul, por sua vez, carrega uma matriz energética limpa e uma agroindústria com forte potencial de economia circular. Ao reposicionar esses produtos sob o selo da sustentabilidade estrita, a indústria do Sul ganha novos argumentos na mesa de negociações para pleitear isenções e regimes tarifários diferenciados.
O fórum em Nova York serve como a plataforma ideal para que os estados do Sul demonstrem que não são apenas exportadores de commodities ou produtos manufaturados comuns, mas parceiros estratégicos na agenda de transição energética global.
A diplomacia comercial, conduzida de forma técnica e setorial, tem todas as condições de ser o caminho para reorganizar essas relações bilaterais.
A transição da nova economia não deve ser visto como uma barreira regulatória intransponível, mas como o passaporte do Sul para uma inserção internacional muito mais robusta, resiliente e imune às oscilações do protecionismo tradicional.