Por Rafael Appel, presidente da Appel Home.
O mercado brasileiro de cama, mesa e banho vive um momento de expansão. Segundo um estudo do IEMI – Inteligência de Mercado, o consumo aparente do setor cresceu 15,7% em volume entre 2019 e 2024, alcançando cerca de 1,2 bilhão de peças comercializadas só em 2024. Em valores nominais, o avanço foi de 55,2% no mesmo período. À primeira vista, os números parecem representar uma boa notícia para toda a cadeia produtiva e, de fato, há motivos para comemorar. A produção nacional desses produtos avançou e atingiu 1 bilhão de peças em 2024, um crescimento de 4,6% em relação ao ano anterior. No entanto, existe uma transformação importante acontecendo dentro desse mercado.
Enquanto a indústria brasileira cresce de forma gradual, os produtos importados ganham espaço em um ritmo muito mais acelerado. Entre 2019 e 2024, as importações de artigos de cama, mesa e banho aumentaram 88,2%. Apenas em 2024, o volume importado avançou 53,5% com relação ao ano anterior, ultrapassando 217 milhões de peças. Como consequência, a participação dos importados no consumo nacional desses artigos saltou de 11% para 17,9% em apenas cinco anos.
Os números mostram que a discussão sobre o futuro da indústria nacional deixou de ser uma preocupação restrita aos fabricantes e passou a fazer parte de uma transformação estrutural do mercado e das escolhas de consumo feitas diariamente pelos brasileiros. A presença de produtos importados não é um problema em si. Afinal, a concorrência é saudável, pois amplia a oferta e estimula ganhos de eficiência. O desafio surge quando o debate começa a ser conduzido exclusivamente pelo menor preço, sem considerar fatores como qualidade, durabilidade, geração de empregos, inovação e desenvolvimento econômico.
Por trás de uma toalha, um jogo de cama ou qualquer outro artigo para o lar existe uma cadeia produtiva extensa, que envolve fornecedores, trabalhadores especializados, logística, tecnologia e investimentos constantes. Quando a produção acontece no Brasil, o impacto ultrapassa o espaço da fábrica e alcança cidades inteiras, fortalecendo economias regionais e contribuindo para a manutenção de setores industriais que levaram décadas para construir sua expertise.
Essa realidade é especialmente visível em polos têxteis tradicionais, onde empresas, muitas delas familiares, atravessaram gerações investindo em conhecimento técnico, inovação e desenvolvimento de produtos. Em muitos casos, trata-se de negócios que sobreviveram a diferentes crises econômicas, transformações tecnológicas e mudanças de comportamento do consumidor, mantendo sua capacidade produtiva e sua relevância para a economia nacional.
A questão que se levanta não é apenas escolher entre produtos nacionais ou importados, mas compreender que toda decisão de compra carrega uma série de impactos para a sua própria comunidade. Quando o consumidor avalia apenas o menor preço, perde a oportunidade de considerar aspectos que também agregam valor, como a qualidade do produto, a facilidade de reposição, a proximidade com o fabricante, a geração de empregos e a contribuição para a competitividade da indústria brasileira.
No mundo e, consequentemente no mercado globalizado em que vivemos, o desafio do “feito no Brasil” não está apenas na disputa econômica com a concorrência internacional, mas em mostrar para a população que o valor de um produto não se resume ao seu custo imediato, mas também à história, ao conhecimento e ao desenvolvimento que ele ajuda a sustentar.