O início de 2026 impõe um paradoxo evidente à política externa e ao comércio internacional. De um lado, persiste uma inércia política resistente, alimentada por pressões domésticas e calendários eleitorais. De outro, a aceleração tecnológica, geopolítica e econômica exige decisões rápidas, coordenação internacional e coragem estratégica. Entre esses dois vetores, os países que hesitarem correm o risco de perder relevância em um sistema global em rápida reconfiguração.
O caso do acordo Mercosul–União Europeia é emblemático desse custo da inércia. Ao final de 2025, mais um adiamento foi anunciado, reforçando a sensação de esgotamento de um processo que já atravessa mais de duas décadas. Se, no passado, o discurso ambiental servia como principal justificativa para a hesitação europeia, hoje cresce a admissão de que o núcleo do impasse está na proteção do setor agrícola doméstico. Trata-se menos de sustentabilidade e mais de política interna. Tecnicamente, os números não sustentam o bloqueio: as cotas agrícolas concedidas ao Mercosul representam uma fração mínima do consumo europeu e seriam implementadas de forma gradual. Ainda assim, o ambiente político na União Europeia dificulta qualquer mudança substantiva no curto prazo.
Diante desse cenário, o Mercosul entra em 2026 confrontado com uma realidade desconfortável, porém necessária: o acordo com a União Europeia segue relevante, mas não pode continuar sendo o eixo quase exclusivo de sua estratégia comercial. Apostar todas as fichas em um processo paralisado significa desperdiçar tempo estratégico em um mundo que não espera.
Enquanto o eixo transatlântico patina, a aceleração ocorre em outra direção. A Ásia consolida-se como o centro mais dinâmico da economia global e já absorve cerca de metade das exportações brasileiras. Os dados são eloquentes: a China consome múltiplos da carne bovina exportada à União Europeia, revelando onde está, de fato, o mercado de escala. Índia, Indonésia e Vietnã despontam como parceiros estratégicos ainda subexplorados, ao passo que mega-acordos regionais asiáticos passam a definir padrões comerciais, tecnológicos e regulatórios.
Essa reorientação comercial ocorre em paralelo a uma aceleração tecnológica sem precedentes. Próximamente teremos fóruns internacionais de impacto iniciando 2026, a inteligência artificial aparece como eixo central das discussões sobre produtividade, crescimento e competitividade. Estima-se que a IA generativa possa adicionar trilhões de dólares à economia global, mas o entusiasmo vem acompanhado de alertas sobre riscos de concentração, bolhas de investimento e impactos sociais. O desafio não está apenas em adotar a tecnologia, mas em fazê-lo com governança, responsabilidade e capacidade de escala.
Nesse contexto, ganha relevância o chamado “espírito de diálogo”, tema para o Foróum de Davos, que permeia a agenda global deste início de ano. Não se trata de retórica diplomática, pelo manos não deveria, mas de um mecanismo de sobrevivência em um sistema internacional cada vez mais fragmentado. As normas que sustentaram o comércio e a cooperação nas últimas décadas estão sob pressão, a confiança entre blocos se deteriora e as cadeias globais se reorganizam. Dialogar, hoje, é condição para reconstruir pontes, alinhar expectativas e reduzir riscos sistêmicos.
Para o Mercosul, o recado de 2026 é claro: a estagnação em acordos tradicionais não impede que novos mercados, novas tecnologias e novos centros de poder redefinam as regras do jogo. Permanecer preso à inércia política de parceiros históricos pode significar aceitar um papel secundário no novo mapa do comércio global. A alternativa passa por diversificação estratégica, maior ambição internacional e capacidade de adaptação rápida.O ano começa, portanto, com um desafio duplo: superar a inércia que adia decisões estruturais e responder, com agilidade, à velocidade da transformação tecnológica e geopolítica. Aqueles que conseguirem equilibrar diálogo e ação não apenas acompanharão as mudanças, mas ajudarão a moldar o futuro. Os demais correm o risco de assistir, à distância, à consolidação de uma nova ordem econômica global.