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Davos entre dois tempos: o que 2025 ensinou e o que 2026 exigirá

Foto: divulgação

Quando Davos abriu as portas em 20 de janeiro de 2025, a sensação era de que o mundo havia entrado numa fase em que tecnologia, geopolítica e economia deixaram de ser trilhas paralelas. A 55ª Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, realizada até 24 de janeiro, adotou o lema “Collaboration for the Intelligent Age” como resposta a um ambiente de tensões crescentes e transformação acelerada. 

O “desfecho” de 2025 não foi uma declaração final nem um acordo histórico, e isso é, por si só, um sinal dos tempos. A reunião terminou com uma mensagem pouco pragmática: colaboração virou infraestrutura, tão essencial quanto energia, dados e cadeias de suprimentos. A colaboração apareceu mais como necessidade defensiva do que como entusiasmo. A agenda foi dominada por três forças que puxaram o Fórum para o chão duro da realidade: risco de escalada de conflitos, reprecificação do comércio global (tarifas e protecionismo) e a corrida tecnológica, especialmente em torno da IA.

Em 2025, a IA deixou de ser “tendência” e virou competição sistêmica. O debate em Davos oscilou entre o fascínio com produtividade e automação e o medo de consequências: concentração de mercado, usos militares e desinformação, além do impacto no emprego qualificado. O ponto-chave foi a percepção de que entramos numa corrida “contra o tempo” e “uns contra os outros”, como sintetizado em discussões sobre indústrias na era inteligente, cibersegurança e segurança nacional. Essa ambivalência, promessa econômica versus risco social e político, definiu o clima do encerramento.

A geopolítica também “engoliu” a narrativa de otimismo. Em vez de uma globalização reaberta, o Fórum de 2025 expôs um mundo com fragmentação de confiança: alianças testadas, regras contestadas e cooperação cada vez mais transacional. Mesmo quando surgiam pautas construtivas (transição energética, saúde, educação, finanças sustentáveis), elas eram atravessadas pela pergunta que ninguém consegue mais evitar: quem paga, quem regula e quem se protege? 

Esse é o pano de fundo que torna Davos 2026 especialmente relevante. De 19 a 23 de janeiro de 2026, a 56ª edição chega com o tema “A Spirit of Dialogue”, não como poesia diplomática, mas como tentativa de reerguer a ponte mais danificada do sistema internacional: a capacidade de conversar quando não há confiança e quando o incentivo imediato é competir.

As expectativas para 2026 são, portanto, mais exigentes do que as de 2025. Se no ano passado a palavra era “colaboração” para lidar com a chegada do “intelligent age”, agora a ambição é reconstruir condições mínimas de entendimento para que colaboração volte a ser possível. O programa se organiza em torno de cinco desafios interligados: cooperar em um mundo contestador ou hostil; destravar novas fontes de crescimento; investir nas pessoas; implementar inovação de forma responsável; e construir prosperidade dentro dos limites planetários. 

Na prática, Davos 2026 deve aprofundar três frentes. A primeira é a governança da IA e o risco de exuberância: o próprio presidente do WEF já alertou publicamente para potenciais bolhas, incluindo IA, o que tende a trazer uma conversa mais sóbria sobre produtividade, capital, regulação e emprego.A segunda é gente: requalificação e redesenho de proteção social não como política “boa de ter”, mas como pré-condição para estabilidade. A terceira é a natureza: a transição energética e os modelos regenerativos precisam sair do marketing e virar escala, com financiamento e mensuração.

Se 2025 terminou mostrando que o mundo não tem mais luxo para “cooperar depois”, 2026 começa com um recado ainda mais direto: o diálogo virou estratégia de sobrevivência. Para economias exportadoras e industriais, como as que sustentam Santa Catarina, a lição é clara: competitividade em 2026 não será apenas preço e eficiência, será também capacidade de operar em ambientes regulatórios diversos, adotar tecnologia com responsabilidade e manter acesso a mercados em um mundo mais fragmentado. Davos não decide o futuro, mas continua sendo um bom termômetro de quem entendeu que, na economia global, o primeiro ativo que está faltando é confiança, e que o caminho mais curto para recuperá-la ainda é conversar.

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Bacharel em Relações Internacionais pela UFSC, Mestre em Negócios Internacionais pela Université de Montpellier III, na França, e realizou estudos em Law & Economics pela Universidade de Lucerna, na Suíça. Foi bolsista da Fundação Lemann e atua com projetos de internacionalização de empresas e transformação digital, conectando o setor público e privado na América Latina e em mercados globais.

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