O Brasil está envelhecendo a sua indústria sem perceber. Enquanto as manchetes falam de unicórnios, fintechs e influenciadores digitais, silenciosamente o país vê fábricas fechando, máquinas ficando obsoletas e uma geração inteira de jovens que simplesmente não se imagina empreendendo em chão de fábrica. A sensação de que “indústria é coisa do passado” não nasce do nada, ela é alimentada por décadas de decisões econômicas, escolhas culturais e uma dose generosa de descaso com matemática, engenharia e design.
Os números ajudam a enxergar o tamanho do problema. Em 1995, a indústria como um todo respondia por 27% do PIB brasileiro, somando transformação, extrativa, construção e utilidades; em 2024, essa fatia caiu para 24,7%. Dentro dessa conta, a indústria de transformação, que é o coração da manufatura, recuou de 16,8% para 14,4% do valor adicionado em trinta anos, segundo o IBGE. Não é um colapso cinematográfico, é um esvaziamento lento, que tira complexidade da economia e empurra o país para um lugar desconfortável: exportador de commodities e importador de tecnologia.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta diversidade geracional dividindo o mesmo mercado de trabalho. Baby boomers, geração X, millennials, geração Z e até os primeiros representantes da geração Alpha convivem dentro das empresas, com visões de mundo, ambições e repertórios tecnológicos completamente distintos. Nesse cenário, a falta de uma cultura forte voltada para exatas, engenharia e design não é apenas um detalhe educacional, é uma peça central da engrenagem que explica por que o Brasil se desindustrializou e por que falta uma nova geração disposta a empreender na indústria.
As raízes da desindustrialização brasileira
Quando falamos em desindustrialização, não estamos falando só de menos fábricas, mas de um rebaixamento do lugar da indústria na estratégia de país. Estudos sobre o tema mostram que o processo brasileiro tem características próprias: ele acontece antes de o país ficar rico e atinge com força justamente os setores de média e alta intensidade tecnológica. Em linguagem simples, deixamos de produzir uma parte relevante do que é complexo para consumir a tecnologia dos outros. Parte disso tem a ver com mudanças globais, mas uma parcela importante foi produzida pelas nossas próprias escolhas.
Economistas que estudam o tema apontam uma combinação conhecida como combustível desse processo: juros altos de forma crônica, câmbio frequentemente sobrevalorizado, abertura comercial feita sem proteção inteligente à indústria nascente e o velho “Custo Brasil”, que mistura impostos complexos, logística cara e insegurança regulatória. Essa combinação encarece investir em máquinas, alonga o retorno de qualquer projeto industrial e torna mais tentador importar produto pronto do que fabricar aqui. Durante décadas, a forma de controlar inflação e equilibrar contas externas acabou punindo exatamente quem queria imobilizar capital em fábrica, laboratório e engenharia.
O resultado aparece de maneira física quando olhamos para dentro das plantas produtivas. Levantamento da CNI mostra que as máquinas e equipamentos da indústria brasileira têm, em média, 14 anos de idade e que 38% já estão próximos ou acima do fim do ciclo de vida recomendado pelos fabricantes. Em setores como biocombustíveis, há casos em que a idade média do maquinário chega a 20 anos. Para um jovem que cresceu vendo vídeos de linhas de produção robotizadas no YouTube, entrar em uma fábrica com equipamentos analógicos, painéis antigos e pouca automação não é exatamente o cenário dos sonhos.
Esse envelhecimento não é só das máquinas, é também dos donos dos negócios. Dados recentes do FGV Ibre mostram que a idade média dos donos de negócios no Brasil é de 44 anos e que 34,1% deles têm 50 anos ou mais; apenas 16,6% estão abaixo dos 29 anos. Em setores mais intensivos em capital, como a indústria, essa maturidade tende a ser ainda maior, porque o valor do investimento inicial é alto e a tolerância ao risco costuma ser menor. O empreendedor industrial típico é alguém que já passou por outras carreiras, acumulou patrimônio e decide empreender depois dos 40, não um jovem recém-formado apaixonado por robótica.
Cinco gerações na mesma arena industrial
Nesse contexto aparece um fenômeno inédito: cinco gerações convivendo, simultaneamente, no mercado de trabalho. Os baby boomers carregam a ideia de estabilidade e carreira longa na mesma empresa. A geração X busca equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mas foi criada para respeitar hierarquias rígidas. Os millennials e a geração Z, por sua vez, valorizam propósito, flexibilidade, autonomia e têm baixíssima paciência para estruturas engessadas. A chegada dos primeiros jovens da geração Alpha, nativos digitais extremos, tende a acentuar ainda mais essas diferenças.
Essa mistura geracional poderia ser a base de um projeto poderoso de reinvenção da indústria, mas, na prática, muitas vezes vira campo de conflito. Em diversas empresas industriais, a liderança ainda é majoritariamente boomer ou X, com repertório de gestão da era do relógio de ponto e do “manda quem pode”. As gerações mais jovens, especialmente Z, entram com outra expectativa: querem aprender rápido, testar ideias, ter voz em decisões e trabalhar em ambientes onde tecnologia e impacto social andem juntos. Quando não enxergam isso na indústria, migram para startups digitais, creator economy ou para carreiras de serviço que parecem mais compatíveis com seu estilo de vida.
Se o ambiente de trabalho não ajuda, a base educacional também não tem feito sua parte para aproximar os jovens da indústria. Nos resultados do Pisa 2022, o Brasil registrou 379 pontos em matemática, bem abaixo da média dos países da OCDE, e 73% dos estudantes não atingiram o nível básico mínimo considerado necessário para exercer plenamente a cidadania nessa área. Em leitura e ciências a situação é um pouco melhor, mas ainda aquém dos países mais desenvolvidos. Na prática, isso significa que milhões de jovens chegam ao final da educação básica inseguros com números, fórmulas e raciocínio lógico.
Entre os nativos digitais, esse cenário ganha um componente extra: o mito da startup milionária na garagem, amplificado por incubadoras, aceleradoras, programas de pré-aceleração e toda uma indústria de eventos, prêmios e formações em “empreendedorismo”.
Essa cultura, que é muito bem-intencionada, acaba apresentando a narrativa de que o caminho nobre é criar um app escalável, captar investimento e sonhar com um exit, que quando comparado com empreender em indústria parece burocrático, lento e “pouco sexy”. Não é raro ver instituições de fomento, universidades e hubs de inovação celebrarem pitches brilhantes de modelos de negócio puramente digitais, ao mesmo tempo em que protótipos de hardware, soluções industriais ou projetos de engenharia profunda ficam em segundo plano, justamente por exigirem mais capital, mais tempo e mais complexidade.
O resultado é uma geração hiperconectada, cheia de talento e repertório tecnológico, mas que aprendeu desde cedo a associar ambição empreendedora com a tela do notebook, não com uma cultura maker e inventiva para uma linha de produção redesenhada por ela mesma.
Uma cultura que afasta os jovens das exatas
Essa insegurança se traduz em escolhas de carreira. Um estudo recente sobre preferências de curso mostra que quase metade dos estudantes brasileiros tende a preferir áreas de humanas, enquanto apenas cerca de 28% se declaram mais inclinados para exatas, e que a matemática é o principal motivo de rejeição à engenharia para 22% dos jovens. Outro levantamento, ligado à transformação digital da indústria, aponta que somente 17% dos universitários demonstram interesse por áreas ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática, o famoso STEM. Quando a cultura dominante trata frases como “sou de humanas” quase como um álibi socialmente aceitável para fugir de matemática, fica difícil construir massa crítica para um país industrial.
No ensino superior, esse descompasso aparece tanto na quantidade quanto no tipo de diplomados. Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostram que, ao longo de duas décadas, o percentual de concluintes em engenharia em relação ao total de formados no ensino superior se mantém relativamente baixo. A Confederação Nacional da Indústria estima um déficit da ordem de 75 mil engenheiros no mercado brasileiro, ou seja, vagas que existem e não são preenchidas porque não há gente qualificada suficiente. O mesmo vale para áreas correlatas, como design de produto, desenvolvimento de software industrial e automação, que são exatamente as competências críticas para uma indústria moderna.
O design, aliás, é uma peça frequentemente subestimada nessa conversa. Durante muito tempo, a cultura empresarial brasileira tratou design como “embelezamento” de produto, algo que entra no final da cadeia, e não como pensamento de projeto que conecta engenharia, experiência do usuário e estratégia de negócio. Isso afasta jovens criativos que poderiam ver na indústria um laboratório incrível para criar soluções físicas, digitais e híbridas. Quando essa turma olha para o mercado, contudo, costuma enxergar mais oportunidades em branding, marketing digital e UX de aplicativos do que em desenvolvimento de máquinas, equipamentos ou produtos manufaturados.
Seria injusto colocar toda a responsabilidade na escola, porque o problema é cultural e sistêmico. Pais que repetem que matemática “é difícil mesmo”, professores que passaram por formações frágeis em exatas, empresas que comunicam a engenharia como carreira dura, pouco criativa e predominantemente masculina, tudo isso reforça a ideia de que a indústria é território de poucos “gênios” ou de pessoas dispostas a sacrificar a própria vida pessoal. Ao mesmo tempo, a sociedade exalta o caminho do empreendedor digital que, supostamente, precisa apenas de um notebook, uma boa história e uma conta nas redes sociais para “escalar o negócio”.
Do lado das políticas públicas, há sinais recentes de reação, ainda que tardios frente à dimensão do desafio. A Nova Indústria Brasil, política lançada em 2024, prevê até 2033 metas de modernização do parque industrial, transição ecológica e estímulo à inovação, com cerca de 300 bilhões de reais em linhas de financiamento até 2026, operadas por BNDES, Finep e Embrapii. O Mapa Estratégico da Indústria da CNI também coloca como prioridade explícita incentivar o acesso e a permanência dos estudantes em áreas STEM, especialmente conectando o ensino médio técnico às demandas da indústria. São movimentos importantes, mas ainda muito mais próximos da fase de anúncio do que da mudança concreta de percepção para o jovem de 17 anos que está escolhendo um curso hoje.
Reindustrializar também é recontar uma história
O ponto central é que a desindustrialização brasileira não é apenas um problema de imposto ou de câmbio, é também um problema de narrativa. Enquanto a fábrica continuar associada à imagem de galpão barulhento, hierarquia rígida, tecnologia defasada e pouca liberdade criativa, será difícil convencer um talento da geração Z a apostar uma década da sua vida construindo um negócio industrial. Do outro lado, enquanto engenharia, exatas e design seguirem tratados como “carreiras difíceis e pouco glamourosas”, o funil de talentos continuará estreito demais para suportar qualquer projeto sério de reindustrialização.
Para quem lidera empresas, governos ou instituições de ensino, a pergunta que fica não é apenas como crescer o PIB industrial, mas como tornar a indústria novamente desejável para as novas gerações. Isso passa por currículos que aproximem matemática da vida real, por escolas técnicas conectadas com fábricas de verdade, por programas que unam mentores da geração X e baby boomers com jovens de Y, Z e Alpha em projetos concretos, e por uma comunicação que mostre a indústria como o lugar onde tecnologia, impacto ambiental positivo e carreira global podem coexistir. Envolve também abrir espaço para que designers, engenheiros de software e profissionais de dados reimaginem produtos e processos industriais desde a concepção.
No fim das contas, a falta de uma nova geração de empreendedores na indústria é sintoma de algo mais profundo: por décadas, o Brasil não contou para os seus jovens uma história sedutora sobre o que significa construir coisas, aqui dentro, em escala, com tecnologia própria. Se quisermos inverter a desindustrialização, precisaremos recontar essa história, combinando investimento pesado, reformas estruturais e uma mudança cultural que reconcilie o país com matemática, engenharia e design. Porque, no século da inteligência artificial e da transição verde, ou a fábrica volta a ser sonho de carreira para os jovens, ou continuaremos importando o futuro em caixas e exportando o nosso talento em PDFs de currículo.