Todo começo de ano tem o mesmo ritual. As listas aparecem. Metas, objetivos, hábitos, rotinas, promessas. Acordar mais cedo, treinar mais, faturar mais, produzir mais, postar mais. Como se virar a página do calendário fosse suficiente para virar a chave de comportamentos de uma vida. Como prova dessa virada de chave, 2026 começa com uma palavra que virou quase um mantra coletivo: autenticidade.
Há algum tempo venho escrevendo e falando sobre autenticidade, propósito, etc, aqui mesmo no Economia SC. Não como tendência, nem como estratégia de posicionamento, mas como um exercício constante de desconstrução. Porque, mesmo antes dela virar palavra da moda, já era evidente o quanto estávamos nos afastando de quem realmente somos.
Talvez por isso cause um certo estranhamento ver a autenticidade despontar agora como a grande promessa para 2026. Coaches, especialistas em imagem e posicionamento passaram a vendê-la como diferencial competitivo, como se fosse possível empacotar algo tão íntimo em mais uma fórmula de sucesso. Autenticidade virou pauta de palestras, mentorias e consultorias. Descubra sua essência, alinhe seu discurso, ajuste sua imagem, encontre seu tom de voz. Tudo muito bem organizado, estruturado, escalável. O paradoxo é evidente. Estamos tentando padronizar aquilo que, por definição, não deveria caber em padrão algum.
Depois de tantos anos seguindo modelos prontos de sucesso, carreiras idealizadas e vidas que funcionam bem no Instagram, fica a pergunta incômoda: será que ainda sabemos quem somos sem o roteiro? Ou apenas aprendemos a performar uma versão aceitável de nós mesmos? O mundo corporativo nos treinou bem para isso. A falar o que precisa ser dito. A vestir o que é esperado. A gostar do que gera status. Pouco espaço ficou para escutar o desconforto interno, aquele que surge quando a vida até funciona, mas não faz sentido. Nesse contexto, autenticidade vira só mais uma meta na lista. Algo a ser alcançado, medido e exibido.
Talvez o problema esteja justamente aí. A gente começa o ano obcecado pelo que vai adicionar à vida, mas raramente se pergunta o que precisa remover. E se, ao invés de mais uma lista de metas para 2026, a gente tivesse coragem de fazer uma lista de nãos?
Não para o projeto que drena energia e não constrói nada. Não para a agenda sempre cheia, mas que esvazia por dentro. Não para o personagem que você interpreta no trabalho, mas não reconhece no espelho. Não para relações mantidas por conveniência. Não para caminhos que você só segue porque alguém disse que era o certo.
Ser autêntico, talvez, tenha muito mais a ver com limites do que com exposição. Autenticidade não nasce quando você adiciona algo novo à sua identidade, mas quando para de sustentar o que nunca foi seu. Existe um custo alto em dizer não. O custo de frustrar expectativas, de decepcionar quem se acostumou com a sua versão funcional. Mas existe um custo ainda maior em nunca dizer. Esse custo aparece como ansiedade, exaustão e aquela pergunta que insiste em voltar nos momentos de silêncio: por que estou vivendo assim?
Se autenticidade virar só mais uma fórmula de sucesso para 2026, ela vai falhar como todas as outras. Porque autenticidade não é estética nem discurso bem ensaiado. É coerência interna. Talvez o verdadeiro exercício deste início de ano não seja planejar quem você quer se tornar, mas reconhecer quem você não quer mais ser. E talvez a lista mais honesta de 2026 não seja a de metas, mas a de nãos inegociáveis. Quem sabe seja exatamente aí que a autenticidade deixe de ser tendência e volte a ser o que sempre foi: um caminho íntimo, desconfortável e profundamente libertador.