Quando Marshall McLuhan publicou Understanding Media, em 1964, deixou uma provocação que atravessaria décadas: o impacto mais profundo de qualquer tecnologia não está no conteúdo que ela carrega, mas em como transforma o comportamento humano, a percepção e a organização social.
A frase que o tornou célebre — “o meio é a mensagem” — nunca foi tão atual quanto agora.
Ao longo do século XX, os meios de comunicação ampliaram as capacidades humanas já existentes. A imprensa padronizou o conhecimento. O rádio encurtou distâncias. A televisão sincronizou a atenção coletiva. Cada novo meio acelerou as práticas sociais e expandiu sua escala.
A internet, porém, fez algo diferente: ela colapsou sistemas inteiros.
Cartas viraram e-mails. Jornais viraram feeds. Lojas viraram plataformas. Especialistas viraram resultados de busca. A mídia deixou de ser um lugar que visitamos e passou a ser um ambiente em que vivemos.
Na metade da década de 2020, esse ambiente mudou novamente. O que experimentamos hoje já não é apenas uma rede, mas um ecossistema governado por algoritmos.
A visibilidade deixou de ser cronológica ou comunitária; passou a ser calculada.
Algoritmos decidem o que aparece, para quem e por quanto tempo. O alcance é otimizado para retenção.
Emoção supera explicação. Velocidade supera a reflexão. O meio treina, de forma silenciosa, seus usuários sobre como falar, o que compartilhar e até o que sentir.
Paralelamente, a chamada creator economy transformou indivíduos em canais de mídia.
Profissionais, fundadores, educadores e influenciadores passaram a exercer um trabalho contínuo de visibilidade: postar, reagir, contar histórias, construir marca.
A comunicação deixou de ser episódica e passou a ser permanente, estratégica e monetizável.
Esse detalhe econômico é central. Quando atenção vira renda, a expressão se adapta.
Ideias são comprimidas em ganchos. A complexidade é achatada em certezas. O conteúdo passa a ser moldado menos pelo que é mais preciso e mais pelo que é mais clicável.
Então chegou a comunicação mediada por inteligência artificial. Em 2026, uma parcela crescente do conteúdo que consumimos já não é escrita, editada ou distribuída diretamente por humanos.
Ferramentas de IA geram textos, roteiros, resumos, manchetes, traduções e imagens em escala. Outros sistemas de IA decidem quais desses materiais serão amplificados, reduzidos ou simplesmente ignorados.
O meio já não é apenas digital. Ele é computacional.
O sentido atravessa agora filtros invisíveis antes de chegar ao público. Prompts, agentes, modelos, rankings, sistemas de recomendação.
O resultado é um colapso ainda mais rápido de contexto. Frases circulam sem fonte. Trechos ganham vida sem intenção original. A autoridade passa a ser estética.
É verdade que a internet segue ampliando a participação. Vozes antes excluídas podem ser ouvidas. Histórias podem contornar instituições. O conhecimento circula com velocidade inédita.
Mas participação não é o mesmo que poder.
O poder continua concentrado nos sistemas que estruturam a atenção: plataformas, algoritmos e incentivos econômicos que decidem o que escala e o que desaparece.
O que parece uma conversa espontânea, muitas vezes, é resultado de otimização.
Por isso, quando uma mensagem domina nossos feeds, a lição de McLuhan permanece válida. Não se trata apenas do que está sendo dito. Trata-se do meio ensinando como dizer.
A mensagem, no fundo, não mudou. Os impulsos humanos também não. O que mudou foi o ambiente.
Em um ecossistema algorítmico, orientado por criadores e impulsionado por IA, esses impulsos são amplificados, acelerados e monetizados em uma escala que McLuhan ainda não imaginava.
Essa é, talvez, a verdadeira mensagem de 2026.
Este artigo contou com a coparticipação de Michelle Cristina Damasco Noronha, founder da iNGLÊS iNC.