Por Felipe Nicácio, consultor de segurança da informação Introduce.
O World Economic Forum publicou o “The Global Risks Report 2026” reforçando a percepção de que na perspectiva de cibersegurança, “nada há de novo sob a luz do sol”, uma vez que esse tema continua figurando entre os dez riscos globais classificados por gravidade no curto prazo (2 anos) e longo prazo (10 anos).
A reflexão que deixo ao leitor é simples e direta:
O maior risco não será o ataque cibernético, mas, sim, a incapacidade de responder a ele.
Como forma de responder a esse risco, este artigo aborda a importância de se estabelecer, nas organizações, um Sistema de Gestão de Continuidade de Negócios (SGCN).
A Gestão da Continuidade de Negócios (GCN) é um processo de gestão holístico que identifica ameaças potenciais e os impactos que elas podem causar nas operações das empresas. Ele se torna um pilar fundamental para evitar sanções legais, prejuízos financeiros severos e danos irreparáveis à imagem institucional.
A interrupção das atividades de uma organização gera consequências financeiras imediatas e de longo prazo. Sob a ótica da LGPD, por exemplo, o impacto financeiro ganha uma nova dimensão severa. A lei estabelece sanções administrativas rigorosas para infrações às normas de proteção de dados. Entre as penalidades previstas, destaca-se a multa simples de até 2% do faturamento da pessoa jurídica, limitada a R$ 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) por infração. Além disso, a lei prevê multas diárias para garantir o cumprimento de obrigações, como a remoção de dados ou a regularização de atividades. Reforçando que estar de prontidão para responder a esses momentos adversos é questão de sobrevivência.
Custo de oportunidade
Ao tratar os efeitos financeiros de uma interrupção operacional, este artigo adota o conceito de custo de oportunidade. Mais do que mensurar perdas diretas, essa abordagem evidencia o valor que a organização deixa de capturar ao ter sua operação total ou parcialmente paralisada.
Enquanto o impacto financeiro tradicional foca em custos imediatos como perda de faturamento ou penalidades contratuais, o custo de oportunidade considera também receitas futuras não realizadas.
Uma paralisação nos processos críticos de negócio após um ataque cibernético onde ocorreu um vazamento de dados pessoais pode não apenas resultar em perda financeira decorrente de multas, mas também no custo de oportunidade associado à perda de novos contratos e a migração de clientes para concorrentes.
A substituição do termo impacto financeiro justifica-se ao considerar que os recursos financeiros, humanos e tecnológicos direcionados à recuperação do ambiente após um incidente deixam de ser aplicados em iniciativas estratégicas, como inovação, desenvolvimento de novos produtos, expansão de mercado ou melhoria da experiência do cliente.
Sob essa ótica, investimentos em continuidade de negócios deixam de ser vistos como despesas defensivas e passam a ser compreendidos como mecanismos de proteção e maximização de valor ao longo do tempo.
A mensuração do custo de oportunidade permite que a alta administração avalie riscos de continuidade sob uma perspectiva estratégica, facilitando decisões mais alinhadas ao apetite a risco e aos objetivos de longo prazo da organização.
Impacto de imagem e reputação
Além dos efeitos econômicos, a interrupção do negócio afeta diretamente um ativo igualmente sensível: a confiança.
Enquanto os prejuízos financeiros podem ser calculados, o dano à imagem é frequentemente imensurável. A reputação de uma marca, construída ao longo de anos, pode ser comprometida em poucas horas após um incidente de segurança ou interrupção prolongada.
O impacto reputacional inclui a atenção negativa da mídia, comentários adversos em redes sociais e a perda de confiança dos acionistas e dos clientes. Um vazamento de dados, por exemplo, demonstra para a sociedade um despreparo da instituição, gerando um efeito devastador sobre sua imagem.
A segurança possui uma relação direta com a confiança; uma vez comprometida, o restabelecimento dessa relação é lento e desafiador. Por esse motivo, o SGCN deve incorporar planos robustos de continuidade de negócios, respostas a incidentes e comunicação de crise, capazes de orientar a organização na gestão da informação, na transparência e na mitigação dos impactos reputacionais durante eventos adversos.
Gestão de riscos
A base para a implementação eficaz de um SGCN é a gestão de riscos, na qual as incertezas que possam vir a impactar os objetivos da organização sejam identificadas, analisadas, avaliadas e tratadas para que, caso venham a se materializar seus impactos sejam o menor nível possível.
Retomando a reflexão apresentada no início deste artigo, o maior risco não será o ataque, mas a incapacidade de respondê-lo.
O Sistema de Gestão de Continuidade de Negócios não é apenas uma questão de compliance, mas de estratégia financeira e reputacional. A interrupção das operações pode resultar em multas milionárias e destruir a confiança do mercado. Ao implementar uma gestão de riscos robusta, alicerçada em uma Política de Segurança da Informação sólida e em planos de resposta a incidentes devidamente testados, a organização protege não apenas seus ativos digitais, mas sua própria existência e o valor que entrega à sociedade.