O mundo de 2026 não é apenas volátil, ele é estruturalmente diferente. A sensação de ambiguidade permanente, muitas vezes descrita por líderes como “complexa demais para ser compreendida plenamente”, deixou de ser retórica e passou a moldar decisões estratégicas reais.
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, reflete esse novo espírito do tempo: crescimento e liderança seguem no centro do debate, mas agora atravessados por um tabuleiro onde geopolítica, regulação e insegurança jurídica se movem como peças de xadrez. O caso Maduro foi o prenuncio do que já vinha sendo apregoado queria queira, quer não.
Dois episódios recentes ajudam a ilustrar esse cenário híbrido, no qual o risco global e o doméstico se fundem. No Brasil, o adiamento pelo Supremo Tribunal Federal do julgamento sobre a tributação de lucros de controladas no exterior, caso que envolve a Vale e cifras bilionárias, prolonga uma nuvem de incerteza sobre planejamento tributário, repatriação de capitais e decisões de investimento de multinacionais brasileiras.
A depender do desfecho, o impacto fiscal estimado para a União pode ultrapassar R$ 140 bilhões, mas o custo invisível da indefinição já é sentido agora. Mais um fator em período decisivo da reforma tributária que já não está mais no futuro, mas já é presente.
Em paralelo, na Europa, o acordo União Europeia–Mercosul foi novamente paralisado, desta vez enviado à análise do Tribunal de Justiça da União Europeia. A votação apertada no Parlamento Europeu escancarou a força de pressões protecionistas e de disputas sobre autonomia regulatória.
O resultado prático é um congelamento que pode durar até dois anos, travando o acesso preferencial a um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e reconfigurando estratégias de exportação e investimento.
Não por acaso, a McKinsey & Company aponta a instabilidade geopolítica como o principal risco ao crescimento global, à frente da volatilidade macroeconômica, da disrupção tecnológica e até da cibersegurança. Desde 2010, intervenções comerciais se multiplicaram por doze.
Ainda assim, apenas um terço dos executivos confia na capacidade de suas organizações de responder a mudanças abruptas em políticas comerciais, e a maioria dos conselheiros admite não estar preparada para choques globais de grande escala.
É nesse contexto que ganha centralidade o conceito de “QI geopolítico”. Não se trata de prever o futuro, mas de construir capacidade institucional para interpretar cenários, testar hipóteses e agir com velocidade. As empresas que avançam nessa agenda têm adotado estruturas permanentes de análise internacional, verdadeiros nerve centers, capazes de produzir uma “visão da casa” sobre o mundo, indo além de relatórios públicos e análises genéricas.
A incerteza, quando bem tratada, deixa de ser paralisante e passa a ser vantagem competitiva. Isso exige decisões claras: identificar quais negócios prosperam em um mundo mais aberto e quais sobrevivem melhor em um cenário fragmentado; diversificar cadeias de suprimentos; transformar mudanças regulatórias em gatilhos de inovação; e, sobretudo, fortalecer conselhos consultivos com repertório internacional, capazes de conectar geopolítica, tecnologia e estratégia.
Para o Brasil, e para Santa Catarina em particular, o desafio é ainda mais profundo. O crescimento regional historicamente ancorado na expansão da força de trabalho encontra limites claros. A produtividade passa a ser o vetor decisivo, e a inteligência artificial surge como uma oportunidade concreta de agregar até US$ 1,7 trilhão à economia latino-americana. No entanto, apenas uma pequena parcela das empresas consegue, hoje, extrair valor real dessa tecnologia.
O ponto de conexão entre esses mundos, geopolítica, regulação, tecnologia e crescimento, não é automático. Ele precisa ser construído. E começa por lideranças que aceitam uma premissa fundamental: liderar, em 2026, é assumir responsabilidade sobre aquilo que não se controla totalmente.
As empresas que internalizarem essa lógica deixarão de reagir à incerteza. Passarão, enfim, a jogá-la a seu favor.