Todo mês de março, Austin se transforma em um grande radar do futuro. O SXSW não é apenas um evento — é um ambiente onde tecnologia, cultura, negócios e política pública se cruzam para antecipar movimentos que, meses depois, passam a orientar decisões de mercado, investimentos e políticas corporativas no mundo inteiro. Olhando para 2026, algumas tendências já se consolidam como eixos centrais do festival.
A primeira delas é a centralidade do humano na era da inteligência artificial. Se nos últimos anos o discurso esteve concentrado na escalabilidade da IA, agora o foco migra para temas como governança algorítmica, ética, impacto social e desenho de sistemas que ampliem — e não substituam — a capacidade humana. A tecnologia deixa de ser fim e passa a ser meio. Isso tem implicações diretas para empresas que atuam em mercados regulados, como governo, saúde, educação e serviços financeiros.
A segunda tendência é o amadurecimento da Creator Economy e das comunidades como ativos econômicos. O SXSW 2026 reforça que marcas, empresas e até governos estão deixando de falar “para” públicos e passando a construir soluções “com” comunidades. Valor, hoje, nasce mais da relação contínua do que da simples transação.
Outro eixo importante é o avanço do debate sobre cidades, clima e infraestrutura digital. Smart cities deixam de ser apenas sensores e dashboards e passam a incorporar temas como resiliência urbana, serviços digitais inclusivos e interoperabilidade entre sistemas públicos e privados. Para empresas latino-americanas, isso abre oportunidades — mas também eleva o nível de exigência técnica, institucional e regulatória.
Até aqui, tudo parece bastante promissor. O problema começa quando se acredita que estar presente em eventos internacionais, por si só, é sinônimo de internacionalização. Participar do SXSW, de feiras na Europa ou de missões empresariais é como visitar uma grande vitrine global. Ela impressiona, inspira e amplia repertório. Mas vitrine não vende sozinha. Sem estratégia, é apenas contemplação vazia.
Internacionalizar não é viajar. Não é colecionar crachás, fotos ou conexões no LinkedIn. Internacionalizar é tomar decisões estruturais: entender onde competir, com qual proposta de valor, sob quais regras, com que modelo comercial e com que capacidade operacional. Exige estudo de mercado, leitura regulatória, definição clara de produto, precificação internacional, parceiros locais e, principalmente, clareza sobre o problema que se resolve fora do país.
Muitas empresas brasileiras — inclusive de Santa Catarina — chegam a eventos globais sem saber responder a perguntas básicas: quem é meu cliente internacional? Qual dor concreta eu resolvo? Meu modelo é compatível com aquele mercado? É como ir a uma vitrine sem saber o que se está vendendo. O SXSW 2026 deixa uma mensagem clara: o mundo está mais conectado, mas também mais seletivo. Oportunidades existem, mas não são genéricas. Elas favorecem quem chega preparado, com tese clara, narrativa consistente e capacidade de execução.
Eventos internacionais continuam sendo fundamentais — como termômetros, espaços de aprendizado e pontos de acesso a redes globais. Mas eles só geram resultado quando fazem parte de uma estratégia de internacionalização consciente, e não quando são tratados como um fim em si mesmos.