O mercado de tecnologia acaba de ser atingido por um surto psicótico coletivo que atende pelo nome de Moltbot (o antigo e controverso Clawdbot). O que começou como um projeto ambicioso para criar agentes de IA locais transformou-se em uma “tempestade perfeita” de marketing agressivo, levando usuários a uma corrida por hardware caro e promessas de automação milagrosa. A premissa de transformar qualquer pessoa em um gênio da produtividade digital esbarra, no entanto, em uma realidade nua, crua e recheada de bugs.
Para entender esse cenário, é preciso olhar para além da superfície das redes sociais. Enquanto gurus vendem o sonho da renda passiva, a comunidade técnica alerta para os perigos de tratar ferramentas instáveis como a “segunda vinda de Cristo”. O debate agora gira em torno de uma questão fundamental: estamos diante de um novo paradigma de software ou apenas de um “peso de papel de alumínio gourmet” de R$ 11.000 rodando scripts instáveis na cozinha de casa?
O histórico da ferramenta já nasceu sob o signo da polêmica e da confusão de marcas. O nome original, Clawdbot (escrito com “W”), foi uma jogada clara para sugerir uma conexão oficial com o modelo Claude da Anthropic, o que rendeu um “olá jurídico” da empresa e forçou a mudança para Moltbot. No meio dessa transição, o fundador, Peter Steinberger — um veterano da indústria que já vendeu empresas de processamento de PDF —, cometeu um erro de amador ao renomear sua conta no GitHub, permitindo que golpistas de criptomoeda sequestrassem o nome antigo para promover fraudes.
A mecânica e o papel do Moltbot
O Moltbot opera como um assistente pessoal que reside diretamente no ambiente local do usuário, posicionando-se não apenas como um chatbot passivo, mas como um “fantasma na máquina” com agência real. Diferente de modelos de linguagem tradicionais que vivem exclusivamente na nuvem e perdem o contexto a cada reset, este sistema busca a continuidade através de uma memória de longo prazo armazenada em arquivos locais. Sua mecânica fundamental permite que ele navegue na internet, preencha formulários, crie e edite arquivos, e execute comandos diretamente no terminal do computador.
Como agente e copiloto, ele assume funções que exigem autonomia, podendo atuar de forma independente ou como um par programador que auxilia no desenvolvimento de código. Sua relação com outras inteligências artificiais é de interdependência, já que ele precisa se conectar a um modelo de linguagem (LLM) externo, como o Gemini do Google, o GPT da OpenAI ou o Claude da Anthropic, para processar informações e “trocar ideias”. Ele atua como a interface de execução que traduz a lógica desses modelos em ações práticas dentro do sistema operacional do usuário.
As principais aplicações do Moltbot abrangem desde a automação de rotinas domésticas e gerenciamento de listas de tarefas até operações complexas de negócios e desenvolvimento. Na prática, usuários o utilizam para organizar e renomear arquivos, gerenciar caixas de entrada de e-mail e criar relatórios automáticos em ferramentas como o Google Analytics. Além disso, ele se destaca pela capacidade de se conectar a canais de comunicação como WhatsApp, Telegram e Discord, permitindo que o usuário envie comandos à distância para que o agente execute tarefas no computador físico de forma remota.
A anatomia do hype e a ilusão do hardware
Um dos pontos mais criticados na ascensão do Moltbot é o estranho frenesi em torno do Mac Mini M4. O marketing da ferramenta conseguiu convencer o público de que 16 núcleos de neural engine são essenciais para rodar scripts que, na prática, funcionariam em uma VPS simples ou em um computador velho que você esqueceu de devolver para a empresa. Esse movimento orquestrado gerou uma escassez artificial de um hardware que, historicamente, costumava encalhar nas prateleiras das lojas da Apple.
Essa necessidade de hardware robusto contrasta com a eficiência real da ferramenta, que tem se mostrado um verdadeiro “buraco negro de tokens”. Relatos de usuários indicam que o bot pode consumir até 33.000 tokens em apenas três interações simples, como perguntar se o usuário bebeu água. Essa falta de otimização faz com que o Moltbot queime cotas semanais de assinaturas premium em poucas horas, tornando-o um “sócio majoritário” da conta bancária do usuário.
No campo da usabilidade, o Moltbot se apresenta como um “fantasma na máquina”, capaz de controlar o navegador, editar arquivos e rodar comandos no terminal. Diferente de IAs que apenas conversam, ele promete agência e continuidade, lembrando quem você é e executando tarefas periódicas (Crons). No entanto, o processo de instalação ainda é uma barreira para muitos, exigindo conhecimentos de Node.js e manipulação de terminais em modo administrador, o que afasta o usuário comum.
A segurança é, talvez, o calcanhar de Aquiles mais perigoso dessa nova onda. Especialistas alertam que o Moltbot pode sofrer sequestros de LLM, onde um atacante injeta comandos ocultos em URLs de Issues no GitHub. Como o bot tem permissões profundas no computador, ele pode acabar injetando malware em arquivos de sistema que ninguém revisa, como o package-lock.json. O risco de dar acesso total a senhas e arquivos sensíveis para uma ferramenta tão nova é, para muitos, um “cavalo de Tróia” pago.
Ecossistema de automação
Para quem busca eficiência sem os riscos de segurança e instabilidade de ferramentas experimentais, o mercado já oferece soluções maduras e integradas que resolvem a maioria das demandas de automação. Uma das opções mais eficazes e acessíveis é a utilização das extensões oficiais de navegadores, como a do próprio Claude, que permite realizar tarefas complexas de navegação, extração de dados e resumo de informações diretamente na aba ativa do Chrome. Essa abordagem elimina a necessidade de rodar scripts locais pesados ou conceder permissões profundas ao sistema operacional, garantindo uma experiência de uso muito mais fluida e segura para atividades como análise de relatórios no Google Analytics ou estruturação de e-mails.
No campo da gestão de arquivos e produtividade em computadores pessoais, o Claude for Desktop surge como um copiloto sólido, capaz de organizar pastas, renomear arquivos e interagir com o sistema operacional de forma controlada e previsível. Além disso, para aqueles interessados em criar aplicativos ou interfaces customizadas sem depender de codificação manual complexa, ferramentas como o Lovable permitem o desenvolvimento ágil através de comandos de voz ou texto, sendo totalmente responsivas e adaptadas para o uso em dispositivos móveis. Essas soluções já estão consolidadas e possuem suporte contínuo, evitando o “cheiro de hype” e os custos ocultos de infraestrutura desnecessária.
Para automações de fluxo de trabalho mais robustas e frequentes, ferramentas de low-code como o N8N continuam sendo a espinha dorsal de muitas operações digitais de sucesso. Embora exijam uma curva de aprendizado inicial, elas oferecem um controle total sobre o processamento de dados e a integração entre diferentes serviços de nuvem, como CRMs e gateways de pagamento, sem comprometer a segurança do hardware local. Ao optar por essas plataformas consagradas, o empreendedor digital troca a incerteza de scripts instáveis por sistemas validados que priorizam a integridade da informação e a eficiência de custos.
Do hype à realidade: o equilíbrio necessário
Apesar dos problemas, o Moltbot possui trunfos interessantes, especialmente na criação de automações que dependem de ações recorrentes. Ele consegue navegar no Instagram para responder seguidores, interagir com CRMs para gerenciar leads e até organizar pastas de arquivos locais de forma automática. O seu grande diferencial é a capacidade de se conectar a canais como WhatsApp e Telegram para executar ordens à distância, algo que ferramentas mais tradicionais como o N8N exigem uma curva de aprendizado muito maior.
Contudo, para quem busca apenas automação de navegação, existem alternativas muito mais “lisas” e seguras. A extensão oficial do Claude para Chrome, por exemplo, permite extrair dados do Google Analytics ou estruturar e-mails diretamente na aba aberta, sem a necessidade de rodar scripts locais pesados. Para quem quer criar aplicativos pelo celular, ferramentas como o Lovable oferecem uma experiência 100% responsiva e mais estável do que o atual estado do Moltbot.
No fim das contas, a recomendação para o entusiasta de tecnologia é cautela e ceticismo saudável. Não se deve tratar scripts de Python como milagres, especialmente quando eles pedem permissão para acessar cada canto do seu sistema operacional. O Moltbot tem potencial, mas hoje ele habita uma zona nebulosa entre a inovação técnica e a “pirâmide de tokens” alimentada por gurus de internet.
O futuro dos agentes de IA é promissor, mas ele não virá sem dores de cabeça e ajustes de rota. É preciso parar de procurar milagres e começar a buscar ferramentas sólidas que respeitem a segurança e o bolso do usuário. Se você quer testar o Moltbot, faça-o em um ambiente controlado e evite liberar permissões críticas, pois no mundo da tecnologia, quando a esmola é demais, o bug geralmente é pior do que o imaginado.