Por Sabrina Isabela da Rosa, empresária, estrategista de branding para médicos e instituições de saúde, CEO e fundadora da agência Fever Marketing Médico.
Durante muito tempo, o médico foi visto apenas como um prestador de serviço. Alguém que atendia dentro de uma clínica, um hospital ou de um convênio, quase sempre envolvido a uma estrutura maior. O paciente não escolhia o profissional, escolhia o lugar, e o médico vinha “no pacote”. Esse cenário mudou, e mudou rápido.
Hoje, vivemos a ascensão das marcas pessoais médicas. Médicos que se tornam referência não apenas pelo que fazem no consultório, mas pela forma como se apresentam, se posicionam e se conectam com as pessoas. E isso não tem a ver com vaidade ou autopromoção, mas com uma mudança clara no comportamento do consumidor.
Como pacientes, nós não consumimos apenas serviços. Consumimos pessoas. Histórias, valores, estilo de vida, visão de mundo. Antes de marcar uma consulta, a maioria das pessoas pesquisa no Google ou até mesmo no ChatGPT, no Instagram, conversa com amigos, observa como aquele profissional se comunica. Quer entender quem está do outro lado da mesa.
Ao mesmo tempo, o mercado médico nunca foi tão competitivo. Há muito mais profissionais atuando, mais especializações, mais clínicas e, paradoxalmente, menos diferenciação real aos olhos do paciente. O resultado é simples: quem não se posiciona, desaparece. Não porque não é bom, mas porque não é percebido.
É aqui que entra a importância de uma boa estratégia de marca pessoal. Diferente de ter a obrigação de se tornar “médico influencer”, uma boa estratégia de marca pessoal visa comunicar seu posicionamento com clareza de quem esse médico é, para quem ele fala, qual problema ele resolve e por que ele é a melhor escolha para aquele perfil de paciente.
Muitos profissionais acreditam que estar nas redes sociais já é se posicionar. Mas não é. Publicar por obrigação, seguir um calendário genérico ou falar de tudo um pouco não constrói marca, só gera ruído. Vejo muitos médicos que querem atrair pacientes para tratar câncer de pele, mas passam o dia falando apenas de botox. Não por estratégia, mas por falta dela.
Existe uma diferença enorme entre visibilidade e posicionamento. Um perfil pode viralizar e não converter absolutamente nada. O número de seguidores não é sinônimo de consultório lotado. Em contrapartida, perfis pequenos, bem direcionados e com uma narrativa consistente criam comunidades fortes e pacientes fiéis.
Para que uma marca pessoal médica seja sólida, três pilares são essenciais. O primeiro é a narrativa. O que esse médico precisa mostrar para que o paciente entenda o valor do trabalho dele? O segundo é a experiência. Não adianta se comunicar bem se, ao clicar no WhatsApp, o atendimento é lento, frio ou desorganizado. Marca também é experiência. O terceiro pilar é a comunidade. Hoje, médicos precisam pensar em como construir relacionamentos com seus pacientes além do consultório, precisam estimular a conexão e proximidade.
Existe ainda um medo muito comum: o de que investir em personal branding comprometa a credibilidade médica. Esse pensamento está ultrapassado. O brasileiro passa horas por dia nas redes sociais, e ignorar esse espaço não torna nenhum profissional mais ético ou mais competente, apenas invisível.
Nem todo médico nasceu para gravar vídeos todos os dias. E está tudo bem. Personal branding de verdade não força ninguém a ser o que não é. Ele parte do entendimento de até onde aquele profissional vai, do que faz sentido valorizar e de como comunicar isso de forma sustentável no longo prazo.
Também precisamos falar de ética. Construir autoridade no digital não significa prometer resultados milagrosos ou comentar tudo o que viraliza. Significa ter opinião, responsabilidade e consciência das normas. Hoje, inclusive, o próprio CRM entende que o digital faz parte da prática médica. O segredo é saber usar esse espaço com inteligência.
Para a maioria dos pacientes, o posicionamento digital pesa mais do que o currículo. Poucos sabem onde buscar o Lattes de um médico, mas quase todos sabem procurar um perfil no Instagram. Quem aparece primeiro nem sempre é o mais qualificado e isso muda completamente o jogo.
Estratégias de personal branding para médicos não são uma “tendência”, algo passageiro. É uma resposta direta a um novo mercado, a um novo paciente e a uma nova forma de consumir serviços de saúde. O médico que entende isso deixa de ser apenas um prestador de serviço e passa a ser, de fato, uma marca. E marcas bem construídas não competem por preço. Elas competem por valor.