Criar uma startup passou a ser, para muitos, sinônimo de seguir um roteiro conhecido: ideação, validação, MVP, tração e, ao final, um pitch bem ensaiado. Esse caminho ajudou a organizar o ecossistema e criou uma linguagem comum. Mas, aos poucos, também alimentou uma confusão perigosa: a ideia de que cumprir etapas equivale a construir um negócio.
Na prática, o que se observa com frequência são empreendedores com apresentações bem estruturadas, mas com pouca clareza sobre o contexto em que atuam, sobre as decisões que tomaram — ou sobre aquelas que evitaram tomar. Essa constatação não nasce da teoria, mas da experiência acumulada de quem acompanhou milhares de startups em diferentes territórios e estágios de maturidade
Vale lembrar que muitos dos modelos de pré-incubação hoje difundidos, especialmente os formatos de 12 ou 13 semanas, surgiram em um contexto muito específico. Em 2015, quando da criação do iLab na UNISUL, a Sapienza estruturou um desses modelos com foco claro em educação empreendedora: formar repertório, criar linguagem comum, desenvolver competências e permitir que estudantes e empreendedores iniciantes compreendessem a lógica de negócios inovadores. Esse modelo foi posteriormente operado em diversas universidades e cumpriu, e ainda cumpre, um papel relevante nesse campo.
O problema não está no modelo em si, mas na forma como ele passou a ser aplicado indistintamente. Quando o objetivo é educar, sensibilizar e desenvolver mentalidade empreendedora, programas estruturados ao longo de semanas seguem fazendo sentido. Eles criam espaço para reflexão, aprendizagem e experimentação. Mas quando o foco é mercado, alocação eficiente de recursos e decisão estratégica, a lógica muda.
O contexto atual é outro. Tempo, atenção, orçamento e energia empreendedora tornaram-se recursos cada vez mais escassos. Ainda assim, muitos programas continuam operando como se duração fosse sinônimo de profundidade. É nesse ponto que surge a pergunta inevitável: o que, de fato, exige tempo no desenvolvimento de um negócio, e o que sempre foi apenas inércia do modelo?
Negócios não são construídos em apresentações, mas em decisões. Decidir qual problema vale a pena resolver. Para quem criar valor. Quais premissas precisam ser testadas agora. Quais capacidades o time realmente possui. E, sobretudo, decidir conscientemente se faz sentido seguir, ajustar ou interromper.
Quando essas decisões são diluídas ao longo de semanas, misturadas com tarefas operacionais e rituais que já não agregam valor decisório, o risco é alto: avança-se no processo sem avançar na clareza. Por isso, revisitamos o próprio modelo que ajudamos a criar. Não para acelerá-lo artificialmente, mas para eliminar o que nunca foi essencial e concentrar energia no que realmente importa, decisão qualificada, feita com critério, contexto e responsabilidade
Talvez a maturidade de um ecossistema não esteja em criar mais startups, mas em ajudar empreendedores a decidir melhor, inclusive quando a melhor decisão é parar.
Startup é muito mais que um pitch. É uma sequência de decisões bem feitas.