Por Guilherme Abdala, co-fundador na Evermonte Executive & Board Search.
Muito se fala sobre os riscos de manter uma empresa familiar sem profissionalização. E com razão: falta de estrutura, sucessões mal planejadas e decisões excessivamente concentradas podem corroer valor ao longo do tempo.
Mas há uma outra parte dessa história que raramente ganha destaque: as forças silenciosas que o modelo familiar carrega consigo. Elas não viram manchete, mas fazem uma grande diferença – e sustentam negócios que, mesmo sem estruturas sofisticadas, seguem entregando resultado, retendo profissionais e atravessando gerações.
Liderança próxima muda tudo
Em empresas familiares, a liderança está mais perto. Da operação, das decisões e das pessoas. Essa proximidade cria um ambiente de confiança e agilidade que muitas organizações tentam replicar, mas sem sucesso.
No estudo mais recente do Evermonte Institute, mais de 70% das empresas familiares ainda operam majoritariamente no formato presencial. Não por aversão ao híbrido, mas porque, nesses contextos, a convivência é parte da cultura – além de reforçar alinhamento, reduzir ruídos e fortalecer o senso de pertencimento.
Esse ambiente humano, direto e cotidiano favorece algo que toda empresa persegue: engajamento genuíno. É mais comum ver “times que vestem a camisa” onde há proximidade entre líderes e operação.
Decidir rápido (e com contexto)
Outro diferencial pouco explorado é a capacidade de tomada de decisão ágil. Em empresas familiares, é comum que decisões estratégicas relevantes sejam tomadas em dias – porque os donos estão envolvidos, e o caminho entre o problema e a solução é curto.
Claro, essa agilidade só se torna uma vantagem quando existe maturidade e governança. Sem isso, o risco de decisões unilaterais ou desalinhadas é alto. Mas com clareza de papéis, a proximidade vira trunfo: menos comitês, menos burocracia, mais ação.
Enquanto grandes companhias paralisam diante da complexidade, empresas familiares muitas vezes seguem adiante com decisões simples e bem executadas.
Flexibilidade na estrutura e nas relações
No estudo, observamos que cerca de 31% dos executivos dessas empresas atuam como PJ. Isso revela uma flexibilidade contratual importante, que permite montar times sob medida para desafios específicos, com rapidez e eficiência.
Seja para trazer um executivo experiente para um ciclo de transformação ou estruturar uma área crítica, essas empresas conseguem adaptar seu modelo com mais agilidade – algo que organizações mais tradicionais costumam demonstrar uma maior dificuldade.
Contudo, essa flexibilidade não elimina a necessidade de políticas claras de cargos e incentivos. Ela oferece, na verdade, uma vantagem competitiva: atrair profissionais que, em modelos mais rígidos, talvez nunca entrassem.
Cultura viva como ativo estratégico
Talvez o maior diferencial – e o menos tangível – seja a cultura. Ela não está nos manuais, mas nas histórias que a empresa conta, nas decisões que toma e na forma como lida com clientes e colaboradores.
Muitos executivos permanecem em empresas familiares porque sentem que estão construindo algo com significado. E isso, especialmente em tempos de incerteza, tem um valor que vai além da remuneração.
Uma cultura viva ajuda a integrar novos líderes, acelera transições e dá sustentação emocional em momentos difíceis. É um ativo invisível, mas extremamente valioso.
Estruturar sem perder a essência
Profissionalizar é necessário – não há dúvida. Sucessão, governança, diversidade, remuneração variável: tudo isso precisa avançar. Mas há um ponto de atenção importante: profissionalização não é pasteurização.
Cada organização tem sua lógica, seu tempo, sua história. Tentar copiar modelos que não conversam com a essência da empresa pode ser mais prejudicial do que benéfico.
O desafio está em estruturar o futuro sem apagar o que deu certo até aqui. E, nesse processo, reconhecer o valor das características próprias do modelo familiar é fundamental.
As vantagens desse modelo estão ali, ao alcance dos olhos – para quem decide olhar além das planilhas.