Existe uma pergunta que poucos empresários têm coragem de fazer — e menos ainda têm coragem de responder com honestidade:
Se sua empresa perdesse 30% da equipe amanhã, ela continuaria operando?
Não é uma pergunta sobre demissão em massa. É uma pergunta sobre arquitetura organizacional. É um teste de robustez.
Nos últimos anos, falamos muito sobre crescimento, expansão, escala, faturamento e valuation. Mas falamos pouco sobre resiliência estrutural. E, paradoxalmente, é a resiliência que define quem permanece quando o ambiente muda.
Vivemos uma transição histórica. A inteligência artificial está redesenhando funções operacionais, o trabalho híbrido diluiu fronteiras, a rotatividade de profissionais aumentou, novas gerações têm outro tipo de vínculo com empresas e a velocidade das transformações exige adaptação quase em tempo real. Nesse contexto, depender excessivamente de pessoas-chave deixou de ser uma característica cultural e passou a ser um risco estratégico.
Muitas empresas ainda operam no modelo da centralização silenciosa: processos críticos estão na cabeça de alguém, decisões dependem de poucos, clientes confiam em pessoas específicas e não na organização. Enquanto tudo está estável, esse modelo parece funcionar. Mas basta uma saída inesperada para revelar a fragilidade.
A ilusão é acreditar que estabilidade está na permanência das pessoas. Estabilidade real está na capacidade do sistema de continuar funcionando independentemente de indivíduos específicos.
Empresas maduras não são aquelas que têm mais pessoas. São aquelas que têm inteligência distribuída, gestão do conhecimento organizacional, processos claros e estruturados e desenvolvimento de atores humanos e não-humanos.
Processos documentados, indicadores claros, fluxos definidos, tecnologia integrada, cultura explícita e liderança intermediária preparada. Quando esses elementos existem, a organização ganha elasticidade. Ela absorve impactos.
Sem isso, cada saída vira uma crise.
É aqui que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma tendência tecnológica e passa a ser um elemento estruturante. Não se trata de substituir pessoas indiscriminadamente. Trata-se de revisitar e revisar o desenho operacional.
A IA é extraordinariamente eficiente para tarefas repetitivas, analíticas, preditivas e administrativas. Processamento de dados, atendimento inicial, geração de relatórios, controle de rotinas, acompanhamento de métricas, organização de informações — tudo isso pode ser automatizado com qualidade crescente.
Quando essas camadas operacionais são sustentadas por tecnologia, as pessoas deixam de ser engrenagens e passam a ser estrategistas. E isso muda completamente o desenho organizacional.
Uma empresa que utiliza IA para sustentar seus processos operacionais não depende exclusivamente de força humana para manter a máquina girando. Ela ganha continuidade. Ela reduz vulnerabilidade. Ela transforma custo fixo em inteligência sistêmica.
A pergunta, portanto, não é apenas se sua empresa sobreviveria com 30% menos pessoas. A pergunta é: o quanto dos seus processos hoje poderia estar sustentado por tecnologia e inteligência artificial, liberando seu time para atividades de maior valor estratégico?
Se a resposta for “muito pouco”, talvez o problema não seja o tamanho da equipe. Talvez seja o modelo mental de gestão.
Durante décadas, o crescimento empresarial esteve associado ao aumento do quadro de colaboradores. Mais vendas significavam mais pessoas. Mais clientes exigiam mais estrutura. Esse modelo começa a se esgotar.
As organizações do futuro serão mais enxutas, mais tecnológicas e mais estratégicas. Não porque demitem indiscriminadamente, mas porque operam com desenho inteligente. Elas sabem exatamente onde a presença humana gera diferencial competitivo — e onde a tecnologia pode oferecer estabilidade e escala.
Outro ponto pouco discutido é o impacto da saída de pessoas sobre a tomada de decisão. Se a saída de um profissional paralisa decisões, isso revela que o conhecimento estava concentrado. Concentração de conhecimento é uma das maiores fragilidades organizacionais contemporâneas.
E aqui trago uma experiência que tivemos na Sapienza durante os anos de 2022 até 2025. Não reduzimos 30%, reduzimos quase 60% da equipe de operação. Alguns foram convidados a serem sócios, outros a cuidarem de novas unidades de negócios e outros optaram em sair do negócio.
Explico:
Em 2022 já operávamos 100% digital (na verdade desde 2019), em modelo híbrido e em um formato de liderança e tomada de decisão compartilhada, a partir de BUs – Unidades de Negócios. Todos com participação nos lucros e remuneração variável.
Com o processo de transformação digital e de inclusão da inteligência artificial e da criação de assistentes virtuais baseados em IA, a proposição para todos os colaboradores foi de criarem copilotos para as suas tarefas.
Boa parte da equipe não se adaptou a nova realidade, mesmo passando por um processo de capacitação e de esclarecimento do papel da IA na vida da empresa e nos resultados que isto geraria interna e externamente. Alguns tiveram medo, não se adaptaram o novo momento e nova cultura estabelecida e acabaram buscando outras alternativas no mercado.
Aqueles que permaneceram, um pouco mais de 40% da empresa compreenderam que era possível fazer este movimento e gerar mais performance, tanto no âmbito individual, coletivo, gerando mais impacto e mais valor para os clientes.
Atualmente o meu pensamento está cada vez mais claro, e segue com a seguinte pergunta: “Como gerar performance com menos estrutura e de maneira mais assertiva e mais rápida?”
Reduzimos: tempo de execução; de tomada de reuniões; de operação, de compreensão sobre processos e produtos já existente; retrabalho, convencimento, distrações, grupos internos de whatsapp, ações que não estavam alinhadas a estratégia e que não geravam resultados reais a curto e médio prazo.
Aumentamos: a qualidade da entrega; a produtividade; o faturamento; o lucro; a distribuição de benefícios e bonificações; foco; prioridades; entendimento da necessidade do uso intensivo da tecnologia baseada em IA; tempo de recuperação de energia vital; gestão do conhecimento e dos resultados.
Não foi fácil. Mas, foi necessário. Tanto para criar uma nova arquitetura organizacional, uma nova cultura e uma nova forma de trabalhar.
Não fizemos por questões financeiras, mas pela necessidade de repensar de forma inovadora o modelo organizacional. Que é outro pensamento que tenho de forma recorrente, que se transforma em um pergunta: “Se somo uma empresa de inovação e empreendedorismo, e propomos isto aos nossos clientes, devemos cotidianamente inovar em todas as áreas da nossa empresa?”
Fico até constrangido, quando me perguntam: “Quantas pessoas a Sapienza tem, para atender 6 verticais de negócios, franquias espalhadas pelo Brasil e operar junto/com os clientes, e clientes dos clientes – já que alguns modelos o B2B, se transforma em B2B2C?”.
E eu respondo: “Aproximadamente 10 pessoas e mais de 20 robôs”. Geralmente a expressão é de espanto e em alguns casos de não compreensão.
Fecho o meu exemplo, mas fico à disposição para compartilhar em um café online sobre a nossa experiência.
Empresas resilientes criam redundância positiva: mais de uma pessoa entende o processo, dados estão organizados, indicadores são acessíveis, decisões não dependem exclusivamente de memória individual.
Essa é a diferença entre improviso e arquitetura.
Reduzir equipe para cortar custos é uma decisão tática. Estruturar a empresa para não depender excessivamente de indivíduos é uma decisão estratégica. São movimentos completamente distintos. O primeiro reage à crise. O segundo antecipa o futuro.
Talvez a pergunta mais importante não seja sobre perder 30% da equipe amanhã. Talvez seja esta: se você precisasse dobrar sua operação com a mesma equipe atual, conseguiria?
Ambas as perguntas falam da mesma coisa: estrutura. A verdadeira vantagem competitiva dos próximos anos não será apenas inovação de produto ou agressividade comercial. Será capacidade de adaptação organizacional.
Empresas adaptáveis sobrevivem a saídas, crises, disrupções tecnológicas e mudanças geracionais. Empresas dependentes entram em colapso silencioso quando o ambiente muda.
Se sua empresa ainda funciona baseada em heróis, talvez seja hora de construir sistemas. Porque o futuro não premia quem tem mais pessoas. Premia quem tem melhor arquitetura.