Pesquisar

Guerra contra o Irã: redes e conexões

Foto: divulgação

Por Julio Cesar Marcellino Jr., doutor em Direito, professor e advogado.

Recentemente os Estados Unidos e Israel realizaram ataques militares contra o Irã. Quem acompanha geopolítica sabe que essa possibilidade é discutida há décadas. Desde a Revolução Iraniana de 1979, os ânimos se acirraram, especialmente em razão da postura adotada pelo novo regime, marcada por um discurso anti-imperialista e contrário à existência do Estado de Israel. As justificativas apresentadas para a recente incursão militar foram o combate ao terrorismo e a contenção de uma possível ameaça nuclear futura na região.

Uma leitura apressada dos acontecimentos pode levar à impressão de que se trata de um fato isolado. Na verdade, o conflito é resultado de uma sucessão de eventos e de uma complexa teia de interesses políticos e econômicos. É fundamental adotar uma visão ampla para compreender todas as conexões envolvidas. Vejamos o contexto histórico.

O Irã é uma teocracia com quase 100 milhões de habitantes detentora da terceira maior reserva de petróleo do mundo com mais de 200 bilhões de barris (atrás apenas da Venezuela e da Arábia Saudita). Além disso, ocupa uma posição estratégica em relação ao Estreito de Ormuz, por onde transita entre 20% e 30% de todo o petróleo comercializado globalmente. Vale destacar ainda que os iranianos não são árabes, mas persas, e que a esmagadora maioria da população é muçulmana xiita.

As imagens do Irã nas últimas décadas podem sugerir que o país sempre foi ultraconservador em relação aos costumes. No entanto, antes da Revolução dos Aiatolás, durante o governo do xá Reza Pahlavi, o Irã era bastante “ocidentalizado” e mantinha relações sólidas e cordiais com os Estados Unidos e também com Israel.

Esse cenário se altera profundamente com a ascensão do regime dos aiatolás, que transformou o Irã em uma teocracia de caráter fundamentalista. Desde então, Estados Unidos e Israel passaram a ser considerados inimigos centrais. No caso de Israel, a retórica é ainda mais radical, com a defesa explícita de sua eliminação. Entre as estratégias adotadas pelo Irã está o apoio a grupos como Hezbollah, no Líbano, Hamas, na Palestina, e os houthis, no Iêmen. Dentre os diversos episódios de violência, destaca-se o ataque de 7 de outubro de 2023, conduzido pelo Hamas contra Israel, que resultou na morte de mais de mil israelenses e no sequestro de aproximadamente 250 pessoas.

Desde então, Israel, com o apoio dos Estados Unidos, intensificou suas ações militares na região, buscando enfraquecer ou eliminar grupos que considera ameaças existenciais. As operações se concentraram principalmente na Faixa de Gaza, mas também atingiram o Líbano e a Síria. Em uma análise mais detida, é possível deduzir que Israel optou por uma estratégia estruturada em “camadas”, tendo o Irã como alvo final.

Outro aspecto relevante a ser considerado é a disputa econômica entre as grandes potências, especialmente entre Estados Unidos e China. A partir do governo Donald Trump, intensificou-se uma espécie de “guerra econômica” voltada a conter a ascensão chinesa. Uma das principais estratégias adotadas pelos Estados Unidos foi a imposição de tarifas elevadas sobre produtos chineses, com o objetivo de enfraquecer ou desacelerar sua economia.

A China respondeu com diversas medidas. Uma das mais impactantes foi a restrição à exportação de minerais críticos — as chamadas terras raras — essenciais para setores de alta tecnologia, como produção de chips, motores e dispositivos eletrônicos. A China detém a maior reserva desses minerais e é responsável por cerca de 90% de seu processamento global. Os Estados Unidos, por sua vez, decidiram revidar atingindo um ponto sensível da economia chinesa: o acesso ao petróleo.

Para isso os norte-americanos decidiram intervir na Venezuela, assumindo o controle da comercialização do seu petróleo, e tentarão, por certo, também controlar ou influenciar o fornecimento de petróleo iraniano. A China depende fortemente desses fornecedores, consumindo grande parte de sua produção. Uma eventual limitação nesse acesso poderia impactar significativamente o crescimento econômico chinês.

Outro ponto importante a ser observado é o sistema dos chamados “petrodólares”. Há décadas, o comércio internacional de petróleo é majoritariamente realizado em dólares, o que reforça o papel da moeda norte-americana como reserva global. Esse mecanismo, bom lembrar, contribui para financiar o elevado déficit fiscal dos Estados Unidos. Países que tentaram contornar esse sistema, como Iraque e Líbia, enfrentaram consequências severas. O Irã, devido às sanções econômicas e restrições ao sistema financeiro internacional (como o SWIFT), passou a negociar utilizando outras moedas.

A manutenção do dólar como moeda dominante é, portanto, um elemento central da política econômica e monetária dos Estados Unidos. Porém tem se constatado a crescente insatisfação de outros países com esse modelo. Os BRICS — grupo que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros como Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — discutem alternativas, incluindo a criação de sistemas próprios de pagamento. 

Todos esses fatores evidenciam a complexidade do conflito envolvendo o Irã. Não se trata, como dito, de um evento isolado, mas de mais um episódio dentro de um cenário de “policrises”, como conceituou Adam Tooze. Questões geopolíticas, econômicas e sociais se entrelaçam, tornando a análise mais desafiadora.

Diante desse quadro, é fundamental conectar os diferentes elementos para compreender a dimensão e os possíveis desdobramentos desses acontecimentos. Ainda é cedo para apontar vencedores ou perdedores. Mas uma conclusão parece inevitável: em contextos de guerra, de uma forma ou de outra, todos acabam perdendo.

Compartilhe

Tudo sobre economia, negócios, inovação, carreiras e ESG em Santa Catarina.

Leia também