Por Mauricio Gimenes, CSO e co-fundador da Introduce.
Em um ano que combinou pressão econômica, eleições, Copa do Mundo, reformas estruturais e um volume crescente de ataques cibernéticos, o desafio das empresas brasileiras deixou de ser apenas crescer, passou a ser sustentar sua operação com previsibilidade.
A preocupação que começa a surgir nas reuniões executivas, em sinergia às suas alavancas de crescimento é:
“Quanto conseguimos crescer sem correr grandes riscos cibernéticos?”
Nas últimas semanas, em eventos com executivos e líderes de tecnologia de todo o Brasil, uma percepção ficou evidente: a segurança da informação ainda não ocupa o espaço estratégico que deveria, e, em muitos casos, continua sendo tratada apenas como um tema técnico.
Seria esse o problema ou a grande oportunidade para que o tema assuma protagonismo definitivo?
Qual a causa raiz da ausência do debate?
Apesar da escalada das ameaças digitais, a segurança ainda é conduzida sob uma lógica operacional.
Muito se discute a adoção de ferramentas básicas para que as empresas tenham seus escudos digitais: firewall, endpoint, backup, gestão de patches e demais tecnologias. Porém, a pergunta que permanece é direta:
O que, de fato, deveria estar na agenda do board?
O board não decide tecnologia.
O board decide exposição a risco, continuidade operacional e capacidade de crescimento sustentável.
Quando os times de tecnologia tratam Segurança da Informação e Cibersegurança como risco técnico, perde-se espaço estratégico.
O impacto de uma empresa inoperante não se limita à perda imediata de receita. Existe um componente ainda mais relevante: o custo de oportunidade. Ou seja, tudo aquilo que a organização deixa de capturar enquanto sua operação está comprometida.
Novos contratos deixam de ser fechados. Clientes deixam de confiar. O crescimento desacelera, ou simplesmente não acontece.
A virada: segurança como risco de negócio
O tema Segurança da Informação e a Ciber Resiliência começam a ganhar espaço na mesa do board quando mudam a visão e o discurso.
Deixa-se de defender segurança como investimento técnico e passa-se a posicioná-la como instrumento de proteção de valor econômico e continuidade operacional.
Na prática, isso significa substituir discursos como:
- “Precisamos evoluir nossa proteção de endpoint”
por uma abordagem que conversa diretamente com a estratégia:
- “Precisamos garantir a reputação e imagem da nossa marca diante do mercado”
Essa mudança não é apenas semântica, é estrutural.
Quem precisa ser convencido primeiro?
Um erro recorrente dentro das organizações é tentar escalar o tema exclusivamente pela área de tecnologia.
Existem três figuras responsáveis na governança e continuidade dos negócios:
- CFO → responsável pela exposição financeira e impacto econômico
- Jurídico / Compliance → responsável por risco regulatório, LGPD e responsabilidade civil
- CEO → responsável pela continuidade e sustentabilidade do negócio
Quando esses três entram na equação, a segurança deixa de ser uma pauta técnica e passa a ser um tema de governança.
Orçamento: o verdadeiro teste de maturidade
Em um cenário de otimização de custos em 2026, a pressão por eficiência será inevitável.
E é nesse momento que a maturidade organizacional é testada. O erro clássico é posicionar a segurança como centro de custo.
Organizações mais maduras adotam outra postura: segurança da informação como mitigação de risco econômico do negócio.
Na prática, isso significa demonstrar que segurança:
- reduz a probabilidade de indisponibilidade operacional
- protege reputação e valor de mercado
- evita custos futuros exponencialmente maiores
A narrativa muda. Segurança deixa de ser despesa e passa a ser seguro operacional.
O que realmente entra na pauta do board
O board não consome indicadores técnicos. Ele consome indicadores de negócio.
A pergunta central permanece: “Estamos mais preparados para crescer com segurança?”
Isso exige traduzir tecnologia em métricas executivas, como:
- tempo de recuperação da operação (RTO)
- tempo médio de detecção de incidentes
- nível de maturidade cibernética
- percentual de risco mitigado
- impacto financeiro potencial evitado
É essa tradução que viabiliza a tomada de decisão.
2026: um ambiente de risco ampliado
O contexto reforça a urgência dessa transformação.
Além dos fatores econômicos e políticos, organizações passam a lidar com riscos mais sofisticados e interconectados:
- ataques potencializados por inteligência artificial
- fraudes baseadas em deepfakes
- comprometimento da cadeia de fornecedores
- roubo de identidade digital
- indisponibilidade de serviços críticos
Nesse cenário, a questão deixa de ser “se” haverá incidentes. A questão passa a ser:
Qual será a capacidade de resposta da organização quando eles ocorrerem.
Confiança: a nova moeda do mercado
No ambiente empresarial atual, confiança deixou de ser um conceito abstrato. Ela passou a ser um ativo mensurável, e, principalmente, determinante para o crescimento dos negócios.
Empresas confiáveis acessam mais oportunidades. Fecham contratos com maior facilidade. Sustentam valuation. E mantêm relacionamento de longo prazo com clientes e parceiros.
Por outro lado, organizações que sofrem incidentes, vazamentos ou indisponibilidade começam a enfrentar um efeito que tem grande potencial destrutivo: perdem credibilidade perante o mercado.
E credibilidade não se recupera na mesma velocidade que sistemas. Por isso, a segurança não pode mais ser vista como uma camada técnica. Ela passou a ser um dos principais mecanismos de proteção da confiança, e, consequentemente, da capacidade de geração de receita.
Ou, em termos mais diretos:
Confiança não é mais consequência. É moeda de troca.
Um convite à evolução
Esse movimento já está em curso.
Cada vez mais lideranças estão ampliando sua visão sobre segurança, governança e continuidade, não como um tema técnico, mas como um vetor estratégico.
Para aqueles que buscam aprofundar essa jornada e trocar experiências com outros executivos, iniciativas como os Guardiões Digitais vêm se consolidando como espaços relevantes de evolução prática e conexão de mercado.
Porque, no final, conquistar espaço na mesa do board não depende das tecnologias implementadas. Depende da maturidade da conversa que se decide conduzir.
Florianópolis será palco, no dia 23 de abril, de um dos principais encontros de cibersegurança do Sul do país. O 5º Encontro Guardiões Digitais – Edição Florianópolis acontece no Passeio Primavera, e deve reunir cerca de 100 líderes de tecnologia e segurança da informação de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
As inscrições já estão abertas, com ingressos disponíveis pela plataforma Sympla. Membros da comunidade contam com condições especiais, com descontos que podem chegar a 50%.