Nem sempre os caminhos profissionais seguem uma linha reta. Para alguns empreendedores, são justamente as mudanças de rota que constroem uma trajetória singular. É o caso de Felipe Melo, fundador da POPS, que teve a carreira moldada pela combinação de diferentes universos, como tecnologia, música, comunicação e audiovisual.
Felipe construiu uma jornada marcada pela reinvenção constante. Hoje, à frente da POPS, une estratégia e criatividade para ajudar empresas a contar histórias, enquanto mantém vivos os projetos autorais que alimentam sua inquietação criativa e sua paixão por narrativas capazes de gerar impacto. Em entrevista ao Economia SC, ele contou mais sobre a sua trajetória:
Como começou sua carreira e como decidiu sua formação?
Minha trajetória profissional nunca foi linear. E, olhando para trás, ainda bem. Foi justamente a soma de caminhos improváveis que me trouxe até aqui.
Tudo começou aos cinco anos de idade, quando entrei para uma escola de música e aprendi a ler partituras antes mesmo de aprender a ler e escrever. A música foi minha primeira grande paixão e continua presente na minha vida até hoje.
Na adolescência, fiquei dividido entre dois mundos. De um lado, a área da saúde, influenciado pela carreira do meu pai, dentista em Lages. Do outro, a tecnologia, que começava a se transformar com a chegada da internet. Acabei escolhendo Ciência da Computação e me formei em 2007 pela Unisul.
Mas a música continuou me puxando. Estudei produção musical, trabalhei em estúdios, abri meu próprio espaço e tive a oportunidade de desenvolver projetos ao lado de nomes importantes da cena catarinense, como Luiz Meira, músico e produtor que acompanhou Gal Costa por mais de uma década, Jean Mafra, com quem compartilhei composições e projetos musicais, e Antônio Rossa, parceiro de longa data e hoje um dos principais nomes do cinema catarinense.
Também não posso deixar de citar a Templa, banda que dividi com dois grandes músicos e amigos, João Mateus da Rosa e José Neto. Foi justamente essa vivência no universo da música que mais tarde abriu portas para outros caminhos criativos, aproximando-me do audiovisual por meio de videoclipes e da cobertura de mais de 30 espetáculos da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina.
Aos 30 anos, tomei mais uma decisão que parecia improvável: voltar para a sala de aula e iniciar uma nova formação em Produção Publicitária. Foi um período transformador. Mergulhei no universo da fotografia, do vídeo e da comunicação. Ao concluir o curso, recebi o Prêmio Mérito Estudantil da Univali, que me abriu as portas para uma pós-graduação em Cinema e Imagens Contemporâneas.
Hoje percebo que minha formação foi construída pela soma de diferentes linguagens: música, tecnologia, comunicação e cinema. Durante muito tempo achei que essa mistura era uma característica incomum. Hoje entendo que ela se tornou uma das minhas maiores forças.
Como nasceu a POPS?
A POPS nasceu em 2017 como POPZ Content. Na época, a proposta era simples: produzir conteúdo para redes sociais em um momento em que as empresas começavam a entender a importância da presença digital.
Mas a verdade é que a empresa nasceu junto com a minha própria transformação profissional. Eu estava mergulhando cada vez mais na fotografia, no vídeo e no cinema, e isso começou a direcionar naturalmente os projetos.
Um marco importante aconteceu em 2019, quando produzi uma série de vídeos para o Salto Aceleradora de MEIs, projeto liderado por Maíra Rodrigues dentro do Impact Hub Floripa. Rodamos diversas cidades catarinenses e aquela experiência reforçou uma percepção que eu já tinha: o vídeo deixava de ser apenas uma ferramenta de comunicação para se tornar uma das linguagens mais poderosas para contar histórias.
A pandemia acelerou esse movimento e consolidou o audiovisual como principal foco da empresa. Foi nesse período que a POPZ Content evoluiu para POPS Filmes.
Mas existe um detalhe importante: nunca nos enxergamos como uma produtora audiovisual tradicional. Não produzimos casamentos, aniversários ou eventos sociais. Desde o início, nos posicionamos como uma produtora de conteúdo, ajudando empresas, startups e organizações a contar histórias que geram conexão e resultados. Foi dessa visão que nasceu o slogan “Vídeos que geram resultados”.
Com essa proposta, passamos a transitar por diferentes formatos de comunicação, produzindo desde vídeos institucionais até webséries sobre startups, documentários corporativos, podcasts e projetos especiais. Ao longo dos anos, a empresa cresceu, novas parcerias foram construídas, muitos talentos passaram pela nossa trajetória e nossa atuação se tornou cada vez mais ampla, estratégica e conectada às transformações do mercado.
No ano passado, realizamos um rebranding e um novo posicionamento estratégico, refletindo uma transformação que já vinha acontecendo na prática. Passamos a nos chamar simplesmente POPS. O nome mudou, mas a essência continua a mesma: unir estratégia, conteúdo e boas histórias para gerar impacto real.
O que te motiva a empreender?
Minha motivação para empreender vem da combinação entre criatividade e liberdade.
Sempre gostei de construir coisas. De pegar uma ideia que existe apenas na imaginação e transformá-la em algo real.
Ao longo da vida transitei por áreas muito diferentes, como tecnologia, música, comunicação e audiovisual. Empreender me permitiu unir todos esses universos e colocar esse repertório a serviço de outras pessoas e empresas.
Mas o que realmente me move é resultado. Criatividade, por si só, não basta. O que me entusiasma é ver uma ideia gerar impacto, fortalecer uma marca, abrir oportunidades ou ajudar alguém a crescer.
Quando isso acontece, sinto que todo o processo faz sentido.
Quais são os principais desafios que surgiram pelo caminho e os principais aprendizados da carreira?
Minha carreira foi construída a partir de mudanças de direção. E toda mudança cobra um preço.
Talvez o maior desafio tenha sido abrir mão de caminhos mais previsíveis para seguir aquilo em que eu realmente acreditava. Fiz isso quando deixei uma trajetória tradicional na tecnologia para investir na música. Fiz novamente quando decidi voltar a estudar e iniciar uma nova carreira na comunicação.
O tempo me ensinou que sucesso e realização precisam caminhar juntos. Ganhar dinheiro é importante. Mas acordar motivado para fazer o que você faz também é.
Empreender significa conviver diariamente com incertezas. Ao mesmo tempo, é um exercício constante de coragem, adaptação e aprendizado.
Se existe uma lição que carrego comigo é esta: a capacidade de recomeçar talvez seja uma das habilidades mais valiosas que alguém pode desenvolver.
Uma dica de leitura
Vou tomar a liberdade de citar mais de uma.
No dia a dia, uma leitura da qual não abro mão é o jornal Meio & Mensagem. Faço questão de receber a edição impressa em casa todas as semanas. Em um mercado que muda tão rapidamente quanto o da comunicação, estar atualizado deixou de ser diferencial. É obrigação.
Entre os livros, três obras me marcaram profundamente.
“Bill Graham: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”, porque mostra a visão de um dos maiores produtores da história da música e praticamente um dos criadores da indústria de shows moderna.
“Agassi”, autobiografia de André Agassi, pela honestidade brutal com que fala sobre talento, disciplina, fracassos e reinvenção.
E “Você Aguenta Ser Feliz?”, de Nizan Guanaes e Arthur Guerra, um livro que mostra algo que muitas vezes esquecemos: não basta alcançar resultados. É preciso estar bem para aproveitá-los.
São livros diferentes, mas todos falam, de alguma forma, sobre a mesma coisa: evolução pessoal.
Quais são seus hobbies hoje? Existe algum hábito que considera essencial para manter a produtividade ou a saúde mental?
Meu dia começa cedo, geralmente por volta das 7 horas da manhã, com um chimarrão.
Mais do que uma bebida, ele representa um ritual. Aprendi esse costume com meu tio Mário José e mantenho esse hábito desde a adolescência. Antes de qualquer compromisso, aproveito alguns minutos de silêncio e contemplação.
Costumo brincar com minha terapeuta que essa é a minha forma de meditação. Ela talvez torça um pouco o nariz para a definição, mas concorda que é um bom caminho. Para mim, esse momento representa presença, reflexão e preparação para o dia.
Hoje tenho uma preocupação muito maior com equilíbrio do que tinha no início da carreira. A vida me ensinou que produtividade e saúde mental caminham juntas. E que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar dos negócios.
Movimento meu corpo com intensidade pelo menos cinco vezes por semana, seja na academia ou jogando tênis, uma atividade que comecei na adolescência, abandonei por alguns períodos e reencontrei mais tarde. O tênis me ensinou algo que vale para a vida e para o empreendedorismo: na maior parte do tempo, você não está competindo contra o adversário. Está competindo contra você mesmo.
Depois das partidas, costumo fazer uma sessão de sauna. Somando as duas atividades, são cerca de três horas completamente longe do celular, das redes sociais e das notificações. Em um mundo cada vez mais barulhento, esses momentos de desconexão se tornaram indispensáveis.
Também continuo muito conectado à música, gosto de cozinhar e valorizo os momentos ao lado dos meus verdadeiros amigos, um grupo bastante seleto. E tenho a sorte de dividir a vida com minha esposa, Fernanda, com quem compartilho os desafios do dia a dia e o prazer de viajar, conhecer novos lugares e ampliar horizontes.
O que ainda deseja realizar profissionalmente?
Quanto mais eu aprendo, mais percebo o quanto ainda tenho para aprender.
E existe uma característica que acompanha toda a minha trajetória: eu sempre transitei entre dois universos aparentemente diferentes. De um lado, o Felipe empreendedor e publicitário, focado em estratégia, negócios e resultados. Do outro, o músico, documentarista e artista, movido pela curiosidade, pela sensibilidade e pela vontade de contar histórias.
O mais curioso é que, quando esses dois mundos se encontram, quase sempre nasce algo interessante. É nesse cruzamento entre arte e negócios que encontro a inovação, a criatividade e as ideias que mais me motivam.
Por isso, meu principal objetivo profissional continua sendo evoluir, me reinventar e manter a curiosidade viva em um mundo que muda cada vez mais rápido.
Também sinto que estou entrando em uma fase em que posso compartilhar mais conhecimento, contribuir como mentor e ajudar outras pessoas a encurtarem caminhos que levei anos para descobrir.
Do ponto de vista profissional, quero continuar ajudando empresas a alcançarem resultados por meio de projetos construídos de forma personalizada. Sempre acreditei que cada marca tem uma história única e que boas histórias não apenas conectam pessoas, mas também movem negócios.
Paralelamente, pretendo seguir investindo em projetos autorais, especialmente na música e no audiovisual, duas linguagens que atravessam toda a minha trajetória e continuam alimentando minha inquietação criativa.
Um sonho que ainda gostaria de realizar é ver um documentário meu selecionado para um festival de cinema. Já tive a emoção de assistir a um trabalho meu em uma tela de cinema, mas viver essa experiência dentro de um festival seria algo muito especial.
No fim das contas, acredito que a carreira não se mede apenas pelos projetos que entregamos ou pelos resultados que conquistamos. Ela também se mede pelas pessoas que impactamos ao longo do caminho. Se eu conseguir continuar criando, aprendendo, inspirando e gerando impacto positivo por onde passar, já vou me considerar muito bem-sucedido.