Por Zélia Janssen, coordenadora geral do capítulo Santa Catarina do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
A carreira executiva já não precisa seguir uma trajetória linear, da entrada na empresa à alta gestão. Transformação digital, inteligência artificial, novos modelos de negócio e maior complexidade regulatória estão ampliando os espaços nos quais o conhecimento acumulado pode gerar valor. Experiência continua essencial, mas precisa ser acompanhada de atualização e capacidade de atuar em diferentes ambientes de decisão.
Santa Catarina é um bom retrato dessa mudança. Encerrou 2025 com 59.184 novos empregos formais e taxa de desemprego de 2,3%. Serviços responderam por 65,5% do saldo e comércio, 20,2%. Atividades com expressiva diversidade, com indústria, tecnologia, saúde, logística, agroindústria e serviços profissionais, revelam uma economia na qual as fronteiras entre setores e competências estão cada vez mais fluidas.
Nesse cenário, um executivo que acumulou experiência em estratégia, pessoas, investimentos, operações e riscos pode levar esse repertório para novas funções. Para isso, o Programa de Certificação Profissional do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) contempla formações para Conselheiro de Administração, Conselheiro Fiscal, membro de Comitê de Auditoria e Governance Officer. A entidade mantém, ainda, um Banco de Certificados que permite a empresas e recrutadores consultarem informações de profissionais, mediante autorização. A formação, contudo, não termina com a primeira certificação. Para mantê-la, é necessário cumprir 45 créditos a cada três anos.
O quadro econômico de Santa Catarina reforça a importância dessas mudanças e avanços nas carreiras. Entre 2014 e 2024, o emprego formal em Tecnologia da Informação e Comunicação cresceu 57,2%, ante 11,9% no total. O Estado também alcançou a segunda posição no Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID) 2025, elaborado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Abrem-se, assim, novas possibilidades profissionais. Um executivo de tecnologia pode contribuir com uma indústria; um especialista financeiro, com uma empresa de tecnologia; um profissional de pessoas, para sucessão e impactos da IA sobre o trabalho; e um especialista em sustentabilidade, para decisões sobre riscos climáticos e reputacionais.
Vejo, nesse movimento, uma transformação na forma de pensar a carreira. Em vez de perguntar apenas “qual será meu próximo cargo?”, talvez seja mais relevante arguir sobre “quais problemas de negócio estarei preparado para ajudar a resolver?” Para profissionais experientes, governança pode representar uma segunda carreira, uma atividade paralela ou uma transição para conselhos, comitês, aconselhamento e mentoria. Ser um bom CEO, porém, não significa automaticamente ser um bom conselheiro. Quem executa decide; quem atua no conselho acompanha, questiona e orienta. São papéis diferentes.
O futuro das carreiras tende a ser menos linear. E uma economia diversificada como a catarinense precisa de lideranças igualmente diversas, capazes de combinar experiência, conhecimento tecnológico, visão financeira, compreensão de pessoas e capacidade de interpretar novos riscos.
O desafio é formar líderes que tenham respostas para essas demandas e profissionais capazes de orientar, cobrar, monitorar e contribuir para o avanço das empresas. A governança, nesse sentido, deixa de ser apenas uma estrutura de controle e se torna também uma fronteira de desenvolvimento profissional. A próxima etapa da carreira pode estar na sala do conselho, construída pela combinação entre experiência, formação, atualização e visão de futuro.