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95% das empresas estão falhando com a IA e a consequência tem sido silenciosa

Foto: divulgação

Quando foi a última vez que você tomou uma decisão sem usar IA? Parece uma pergunta inofensiva. Afinal, todos os dias há inúmeras decisões que sequer percebemos. Em qual bolso da calça você coloca as chaves do carro ou qual caminho você faz até o trabalho?

Mas não falo dessas decisões que já se tornaram automáticas. Falo daquelas que precisamos tomar diariamente na empresa: realizar um feedback, contribuir em uma reunião, escrever um e-mail, avaliar um relatório, assistir a um treinamento, montar uma proposta comercial e assim por diante.

Agora, mudando a lógica: e se a inteligência artificial estiver tornando você mais produtivo? Como você seria capaz de provar sua resposta?

A eficiência em um processo fez você trabalhar menos? Fez a empresa aumentar a margem? Fez as vendas aumentarem comparadas ao último ano? O número de reclamações no 0800 diminuiu?

As avaliações anuais de desempenho

Certa vez ouvi essa história. Na intenção de não comprometer sua imagem com o time, a gestora de uma grande empresa em Santa Catarina resolveu colocar todas as suas anotações do ano no ChatGPT. Essas anotações eram resumos sem muitos detalhes de inúmeras observações feitas durante o último período.

O objetivo era claro: pedir ao ChatGPT que escrevesse os feedbacks para levar ao colaborador na avaliação de final de ano.

A ferramenta trouxe tudo: dos pontos fortes e fracos ao plano de ação, inclusive com um texto de apoio para ser usado na avaliação. Tudo com um tom ameno, muito equilibrado e profissional.

Porém, o que deveria ter sido uma virtude se tornou um grande equívoco. Após a avaliação, o colaborador saiu devastado e sem amparo. Por outro lado, o que se viu foi o despreparo da gestora que buscava agradar.

Mesmo com o texto todo organizado para a abordagem, a intenção não cumpriu com a prática. Faltou contexto. Uma série de nuances fundamentais para cada uma daquelas anotações sequer foi considerada, e isso impactou a relação de ambos.

No fim, a maior falha foi não considerar que ali, logo do outro lado da mesa, havia também um ser humano.

Não importava o quanto aquele script estava bonito. Ou seja: não basta seguir o roteiro, é preciso ser humano.

A consequência silenciosa 

Essa história não deve ser a única. Ao mesmo tempo que muitos líderes estão usando a IA como um acelerador de suas capacidades multitarefas visando crescimento financeiro e corte de custos, na prática, a teoria esbarra na realidade do dia a dia.

Um relatório do MIT, publicado no ano passado, aponta que 95% das IA generativas estão falhando na aplicação. Não devido a modelos de IA falhos, mas sim à má integração, estratégias desalinhadas, baixa qualidade dos dados e falta de um ROI definido.

Ainda que a implementação ocorra com sucesso e a empresa obtenha os ganhos prometidos, há um problema maior, porém silencioso, que cresce nos corredores da organização: a destruição da capacidade de julgamento das lideranças.

E vamos ser francos aqui: quem não gosta de conversar com o ChatGPT sobre um assunto que dominamos, certo?

É a melhor conversa possível. Ele sempre nos ouve. Responde rapidamente. Dificilmente nos puxa a orelha ou chama nossa atenção. É confortável.

Porém, sabemos que o relacionamento humano depende de confiança, e essa só se constrói com fricção. Se uma pessoa sempre disser o que você quer ouvir, como vamos confiar quando ela disser o contrário?

Aliás, muitos de nossos times são assim, certo? São pessoas que contrariam e se incomodam dia sim, dia não. Buscam questionar quando pertinente. Lembram de promessas passadas.

Em um ambiente muito previsível e altamente orientado ao comando e controle, as consequências são evidentes — considerando a alta permissividade das pessoas.

Reuniões ficam mais curtas. Feedback vira um checklist ao invés de uma conversa de qualidade. Poucas pessoas se desafiam a compartilhar suas ideias. Toda e qualquer decisão é comunicada, jamais discutida.

Um sistema que nunca resiste a você treinará você a ver a resistência como um problema.

A verdadeira gestão acontece nos momentos que desafiam a estrutura

Como quando um membro da equipe se fecha no meio de um feedback. Ou quando uma reunião fica silenciosa quando não deveria. Ou quando uma decisão que parecia ótima no papel acaba mal em uma reunião geral.

Assim, os gestores começam a transmitir informações em vez de discuti-las. Seguem a estrutura em vez de reagir à situação. As conversas passam a ser sobre conformidade, e não sobre contexto.

O perigo não é que a IA dê a resposta errada. É que ela dê uma resposta que pareça completa, fazendo com que você pare de prestar atenção ou de pensar.

O controle na gestão não vem de resumos concisos. Ele vem de estar presente quando as coisas deixam de ser concisas e de reagir em tempo real.

Conclusão: o trabalho do líder é saber julgar

A inteligência artificial é poderosa. Nos ajuda, e muito, no que precisamos fazer diariamente.

Mas ela não carrega responsabilidade. Os gestores são pagos para tomar decisões em meio à incerteza. Eles ponderam as vantagens e desvantagens e equilibram o valor esperado com os custos.

Todo mundo já entendeu que o caminho é sem volta e a inteligência artificial será tão comum quanto a calculadora.

E talvez essa seja minha principal definição de IA aqui: ela funciona muito melhor como uma ferramenta de apoio do que como um parceiro de trabalho.

O mundo corporativo já é cheio de pessoas que falam o que seus líderes querem ouvir. Não podemos fazer parte dessa manada.

Se a IA facilita seu trabalho e enfraquece seu julgamento, você não ganhou uma ferramenta.

Você perdeu sua vantagem competitiva.

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Sócio na Entre Aspas – Gente & Gestão

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