Por Denis Braguini Bevacqua, consultor e estrategista de eventos, comunidades e brand experience.
Nunca estivemos tão conectados e tão sozinhos ao mesmo tempo. Vivemos uma era marcada pela hiperconectividade, pela automação e pela inteligência artificial, consumindo mais conteúdo do que nunca e, paradoxalmente, confiando cada vez menos. Talvez seja exatamente por isso que os eventos nunca tenham sido tão importantes.
Nos últimos anos, o marketing digital dominou os investimentos das empresas. E funcionou por muito tempo, mas o cenário mudou muito rápido. A ascensão da IA aumentou drasticamente o volume de conteúdo, elevou a disputa por atenção e tornou muito mais difícil gerar relevância real. O digital continua essencial, mas já não resolve tudo sozinho.
Hoje, o resultado nasce da integração entre alcance, experiência, relacionamento e comunidade.
O retorno da presença
Confiança continua sendo construída entre pessoas. Ela nasce nas conversas, nos encontros e nas experiências compartilhadas que criam memória, pertencimento e identidade. Em um ambiente cada vez mais automatizado e replicável, a presença física ganhou ainda mais valor.
O evento se tornou uma das poucas oportunidades reais de materializar uma marca e formar comunidades em torno dela. E comunidade talvez seja um dos ativos mais difíceis de copiar e, ao mesmo tempo, um dos mais resilientes que uma empresa, cidade ou instituição pode construir.
O Sul do Brasil como prova viva
A Região Sul ajuda a dimensionar a força dessa transformação. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina somam 20.831 empresas ativas no setor de eventos, o equivalente a 17,2% do total nacional, além de 35.286 empregos formais, representando 19,1% dos postos do segmento no país. Em consumo, a região movimenta R$ 26 bilhões em 2025.
O crescimento também chama atenção. Entre 2019 e março de 2026, o estoque de empregos formais do setor avançou 154,2% no Rio Grande do Sul, 124,4% no Paraná e 92,6% em Santa Catarina, todos acima da média nacional de 86,1%, que já supera em mais de três vezes a média da economia brasileira no período.
Tudo isso aconteceu atravessando uma pandemia e, no caso gaúcho, também uma tragédia climática histórica. Quando um setor cresce dessa forma em cenários tão adversos, já não estamos falando apenas de recuperação. Estamos falando de uma transformação estrutural capaz de moldar a economia de cidades inteiras.
Cidades que abraçam eventos se transformam
Eventos não apenas movimentam pessoas. Movimentam economias.
Esse impacto vai muito além do turismo. Existe uma diferença entre cidades que apenas recebem eventos e cidades que os utilizam como estratégia de desenvolvimento.
Municípios que sediam e apoiam regularmente eventos corporativos, culturais, esportivos e de inovação passam a ser percebidos de outra forma por investidores, redes de varejo, hotelaria, mercado imobiliário e profissionais que escolhem onde viver e trabalhar. A agenda de eventos de uma cidade funciona como um sinal de vitalidade econômica, criatividade e relevância cultural. E vitalidade gera percepção positiva, fortalece identidade e atrai capital.
Não é um evento isolado que transforma uma cidade. É a consistência de uma agenda.
Eventos também ajudam a resolver um desafio importante de destinos sazonais, como acontece em grande parte de Santa Catarina, gerando fluxo econômico entre temporadas e mantendo ativos diversos ecossistemas locais ao longo do ano.
O paradoxo de quem sustenta essa indústria
Um evento começa meses antes do público existir. Equipes são contratadas, estruturas são montadas e fornecedores precisam ser pagos meses antes de qualquer receita estar garantida. Grande parte do retorno, em reputação, relacionamento e geração de negócios, aparece no médio e longo prazo, fora da planilha de quem executa.
Por isso, municípios, estados e governo federal precisam enxergar eventos de forma mais estratégica. Incentivar esse setor não é subsidiar entretenimento. É investir em uma das ferramentas mais eficientes de geração de emprego, circulação de renda e desenvolvimento regional.
Presença virou vantagem competitiva
O Brasil possui uma vantagem competitiva nesse cenário. Poucos países têm um público tão engajado, participativo e aberto à experiência coletiva quanto o brasileiro. Existe aqui uma capacidade genuína de conexão e envolvimento que transforma a experiência presencial em algo muito mais potente.
Em um mundo cada vez mais automatizado, os encontros presenciais ganharam um novo valor. A tecnologia escala alcance. Mas presença ainda escala confiança.
E talvez essa seja a grande transformação silenciosa do mercado atual: enquanto tudo se torna mais digital, acelerado e replicável, as experiências capazes de gerar conexão real se tornam mais raras, mais valiosas e mais estratégicas.
Porque no fim, eventos nunca foram apenas sobre entretenimento. Sempre foram sobre pessoas, confiança e desenvolvimento.