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Não confiamos uns nos outros e continuamos pobres. Com a IA vai piorar ou melhorar?

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Foto: divulgação

No Brasil, o ambiente de negócios foi desenhado sobre uma premissa silenciosa, mas implacável: a de que a outra parte tentará tirar vantagem de você a qualquer momento. Nós não criamos processos corporativos para acelerar a inovação tecnológica, mas sim para nos defendermos das incertezas mercadológicas e uns dos outros. A nossa máquina burocrática, com seus inúmeros cartórios e contratos blindados, é o monumento máximo de uma sociedade que pune o risco porque parte primeiramente da suspeita, e não da boa-fé.

Essa dinâmica hostil transforma qualquer tentativa de criar algo novo em uma maratona exaustiva de atritos e custos ocultos para as empresas. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o chamado Custo Brasil consome cerca de R$ 1,7 trilhão anualmente, o que representa impressionantes 22% do nosso Produto Interno Bruto. Nós gastamos essa energia financeira incalculável validando identidades e construindo barreiras jurídicas porque o medo do erro e do dolo se tornou infinitamente maior do que a vontade coletiva de colaborar.

O sucesso corporativo no país, infelizmente na maior parte das vezes, é medido pela espessura das muralhas legais que uma empresa consegue erguer, sufocando a coragem necessária para inovar. O verdadeiro abismo que nos separa do desenvolvimento sustentável não é apenas tecnológico ou financeiro, mas um déficit gravíssimo de capital social que gera uma profunda aversão sistêmica ao risco. Entender profundamente esse fenômeno histórico é o primeiro passo para compreendermos por que nossas empresas enfrentam tantos atritos em um mundo onde a inteligência artificial nos obriga a repensar nosso papel diário.

A aversão ao risco como mecanismo de defesa

Os números confirmam a gravidade desse cenário estrutural de forma indiscutível e expõem a nossa gigantesca dificuldade de dar saltos estratégicos consistentes. Segundo um levantamento profundo de 2022 conduzido pela OCDE, apenas 26% dos cidadãos brasileiros declaram ter confiança alta ou moderada no governo federal. Essa percepção amplamente negativa vai muito além das fronteiras políticas tradicionais e contamina todas as instâncias de poder, de convivência civil e de negociação corporativa na iniciativa privada.

O dado mais revelador sobre a nossa incapacidade coletiva de ousar está posicionado no espelho das nossas interações cotidianas mais básicas. O Edelman Trust Barometer de 2024 corrobora essa fratura, apontando que a confiança na mídia e no Estado recua agressivamente ano a ano, deixando as empresas privadas como a única instituição vista como minimamente ética e competente pela maioria. Quando cruzamos essa visão corporativa com a pesquisa global da Ipsos, que indica que menos de 15% dos brasileiros acreditam que seus próprios pares são confiáveis no dia a dia, percebemos que o freio de mão da inovação aberta está permanentemente puxado.

Quando olhamos estrategicamente para as nações nórdicas, o contraste comportamental é um choque de realidade para qualquer empreendedor brasileiro focado em disrupção real. Na Noruega e na Dinamarca, os níveis de confiança interpessoal superam a vigorosa marca dos 60% há várias décadas, impulsionando a experimentação constante em absolutamente todos os setores produtivos. A confiança atua efetivamente como uma tecnologia invisível e de altíssima performance que reduz drasticamente os custos de transação, permitindo que as empresas invistam no incerto sem o medo crônico de serem sumariamente destruídas pelo próprio ecossistema.

A inovação asfixiada pela desconfiança operacional

No intrincado ambiente corporativo brasileiro, precisamos obrigatoriamente fazer uma distinção vital entre a indignação moral passageira e a ineficiência burocrática que paralisa o mercado. A desconfiança de natureza puramente operacional é muito mais letal para a economia, pois ela questiona a própria capacidade de o sistema entregar qualquer resultado prático no fim do dia. O brasileiro comum não desconfia apenas porque acha o sistema desonesto por essência, mas porque tem a certeza empírica e testada de que a máquina pune severamente quem tenta fazer qualquer coisa de forma diferente.

Inovar significa transitar intensamente pelo desconhecido, e só fazemos isso quando há garantias mínimas de funcionamento estrutural e alguma previsibilidade de regras. O estrondoso case de sucesso do Pix ilustra perfeitamente essa dinâmica no Brasil: ao construir uma infraestrutura tecnológica inquestionável, o Banco Central eliminou o atrito bancário tradicional e transferiu a confiança da burocracia humana para um sistema digital instantâneo. A adoção massiva que movimentou trilhões de reais em pouquíssimos anos prova irrefutavelmente que, quando há segurança operacional, a inovação disruptiva acontece de forma natural e veloz.

Sem essa segurança generalizada no restante da economia, a consequência direta foi a criação de um mercado fragmentado que prefere a fuga individual à construção de soluções universais robustas. A Agência Nacional de Saúde Suplementar registrou recentemente que o setor privado fechou o ano com mais de 52 milhões de beneficiários dependentes, evidenciando essa busca constante por bolhas exclusivas de previsibilidade. Comprar o próprio isolamento é a forma pragmática e emergencial que a classe média e as grandes corporações encontraram para mitigar os altos riscos de um país que não funciona de forma ágil para todos.

Nesse contexto altamente desafiador, a profunda falência operacional empurra instintivamente os indivíduos e as organizações para soluções blindadas sempre que o orçamento permite o escape financeiro. A mesma fuga em massa acontece no ambiente de negócios nacional, onde as empresas preferem erguer laboratórios de inovação trancados a 7 chaves a colaborar abertamente em rede com o resto do mercado. O sistemático abandono do espaço compartilhado de cocriação retira a força motriz vital necessária para as grandes disrupções e consolida a nossa paralisia tecnológica.

O alto custo da minoria e a fatura coletiva

A desconfiança estrutural que paralisa o mercado brasileiro, por mais trágica que seja, não nasceu de uma simples paranoia infundada. Ela é a resposta absolutamente racional a um ecossistema onde uma ínfima minoria de fraudadores e criminosos tem o poder de causar estragos desproporcionais à imensa maioria de cidadãos e parceiros de negócios honestos. O sistema burocrático e corporativo trata todo indivíduo como um risco potencial exatamente porque o impacto financeiro de ser enganado é devastador e raramente punido com eficiência institucional. Cria-se, assim, uma distorção perversa em que 99% da sociedade é forçada a pagar diariamente a pesada fatura gerada pelas intenções de 1% de mal-intencionados.

Os números expõem a brutalidade desse mecanismo de defesa de forma inquestionável para qualquer gestor. Segundo um estudo detalhado da LexisNexis Risk Solutions, cada R$ 1 efetivamente perdido em transações fraudulentas no Brasil custa, na prática, impressionantes R$ 3,59 para as empresas, somando despesas operacionais, jurídicas e de recuperação de mercadorias. Somado a isso, o setor produtivo gasta o equivalente a 1,7% do Produto Interno Bruto nacional, cerca de R$ 170 bilhões por ano, apenas em aparatos de segurança privada para se proteger da criminalidade e da violência cotidiana. São recursos colossais que deveriam estar sendo investidos maciçamente em inovação, expansão de mercados ou na geração de novos empregos, mas que acabam tristemente drenados para a mera sobrevivência e proteção patrimonial.

A consequência letal dessa arquitetura defensiva é que o ceticismo acaba impiedosamente precificado em absolutamente tudo o que consumimos e produzimos no mercado. Quando a minoria fraudadora dita as regras de engajamento, os produtos chegam muito mais caros às prateleiras, as taxas de crédito explodem e os contratos ganham dezenas de páginas de cláusulas punitivas. Nós estamos, na prática, tributando pesadamente o empreendedorismo audaz e o cidadão honesto para subsidiar um aparato gigantesco de proteção contra a má-fé alheia. Aceitar passivamente que todos paguem essa conta coletiva é o erro estratégico mais caro que as lideranças empresariais brasileiras continuam cometendo na era digital.

O paradoxo da inteligência artificial e a essência corporativa

Nesse exato momento revolucionário da história, a inteligência artificial surge como um maremoto inevitável que automatiza a burocracia e resolve de vez o gargalo da previsibilidade de processos. Os algoritmos estão assumindo rapidamente a análise densa de contratos, a verificação massiva de fraudes e a gestão de tarefas repetitivas que antes consumiam exércitos de analistas focados apenas em mitigação de riscos. A máquina de processamento está roubando o trabalho puramente mecânico, forçando as organizações tradicionais a repensarem urgentemente o que realmente traz valor diferencial em um cenário de hiperautomação inevitável.

A inteligência artificial está forçando o mercado corporativo a focar toda a sua atenção na verdadeira essência da resolução de problemas criativos de ponta a ponta. Um estudo contundente realizado pelos pesquisadores do MIT apontou que profissionais altamente capacitados, quando apoiados por ferramentas de IA generativa, concluem tarefas analíticas complexas até 40% mais rápido. Essa espantosa velocidade expõe cruelmente a fragilidade competitiva de empresas obsoletas que baseiam seu antiquado modelo de negócios na lentidão dos processos e no controle excessivo de informações internas.

Em um mundo dinâmico onde a IA assume com maestria incontestável os papéis lógicos e os fluxos previsíveis, o que sobra para o ser humano é justamente ser radicalmente humano nas relações. Habilidades preciosas como empatia genuína, negociação complexa, intuição criativa refinada e a capacidade de forjar confiança profunda não são codificáveis em frias linhas de programação algorítmica. Nós fomos condicionados e treinados durante séculos para agir como máquinas processuais e desconfiadas, e agora as máquinas de verdade chegaram para nos provar que essa postura engessada se tornou totalmente inútil.

O doloroso reflexo dessa mentalidade de trincheira pode ser visto nitidamente na forma como organizamos a nossa própria formulação de políticas nacionais ao longo do tempo. O orçamento público brasileiro pulverizou-se gravemente em emendas parlamentares excessivamente fragmentadas justamente porque ninguém confia no real poder de entrega de um plano central coordenado de longo prazo. O que aparentemente parece fazer sentido do estrito ponto de vista de defesa individual e sobrevivência política acaba inviabilizando qualquer grande salto de infraestrutura de base ou de tecnologia soberana.

A polarização ideológica extrema e desgastante funciona como o acelerador final dessa pesada engrenagem de degradação da inovação nacional em absolutamente todos os níveis de decisão. Quando os diferentes atores sociais, empresariais e econômicos se enxergam apenas como inimigos mortais em uma arena pública tóxica, o terreno comum e fértil necessário para inovar simplesmente desaparece do horizonte. Sem um espaço minimamente neutro de fatos incontestáveis e regras macroeconômicas aceitas pacificamente por todos os lados, a tolerância ao risco corporativo vai a 0 e o ambiente de negócios torna-se asfixiante.

Para romper esse ciclo, a DRIN atua como parceira estratégica e educacional, redefinindo o mindset das lideranças para que abandonem a suspeita em favor da transparência. Complementarmente, o PRIMEIRO ROBO entra com a execução técnica, utilizando IA e automação para eliminar o erro humano e os gargalos burocráticos que alimentam a desconfiança operacional. Ao integrar inteligência e estratégia, transformamos organizações que antes gastavam energia se protegendo de ineficiências em estruturas ágeis, onde a previsibilidade algorítmica substitui a burocracia da suspeita pela eficiência real.

O resgate do risco e da colaboração autêntica

Romper esse ciclo paralítico e destrutivo demanda líderes incrivelmente corajosos, dispostos a priorizar a transparência radical e a assumir a vulnerabilidade como uma estratégia legítima de gestão contemporânea. Precisamos desesperadamente de empresários audaciosos que entendam que o atrito regulatório desnecessário reduz a velocidade, e que a velocidade de execução é a única moeda forte e conversível na volátil era digital. Recompensar sistematicamente a construção contínua de confiança institucional e encorajar o erro produtivo nas equipes são passos absolutamente inegociáveis para quem deseja sobreviver e prosperar com relevância no futuro próximo.

O grande desafio civilizatório da nossa era contemporânea não é apenas equilibrar milimetricamente as contas públicas ou dominar a inteligência artificial que está reescrevendo rapidamente os grandes mercados. O verdadeiro teste histórico e comportamental da nossa geração de líderes é reconstruir a ponte esburacada da confiança mútua e resgatar urgentemente o apetite corporativo pelo risco calculado. A tão sonhada prosperidade econômica genuína só se materializa de forma sustentável em solos abertos e férteis onde a colaboração radical e irrestrita é a norma cotidiana de trabalho e não a exceção heroica isolada.

Democracias sólidas e mercados de capitais vibrantes exigem invariavelmente cidadãos e consumidores destemidos, dispostos a apostar alto em um futuro brilhante e compartilhado com pessoas que eles nem conhecem intimamente. Isso significa na prática aceitar dores e perdas financeiras temporárias para abraçar o desconhecido com a certeza inabalável de que o sistema é corretivo, justo e aprenderá valiosas lições com os tropeços do caminho.

Ao longo da minha trajetória como empreendedor, confesso que a estrada não foi isenta de cicatrizes profundas. Já perdi sócios e colaboradores que não sustentaram o compromisso e clientes que romperam o laço da confiança mútua sem aviso prévio. Cada uma dessas experiências, embora dolorosa, serviu para reafirmar um princípio inegociável: por mais que a desconfiança seja a norma em um ambiente de baixo capital social, esses casos de quebra de lealdade são, no final das contas, uma minoria.

Não permito que as falhas de poucos definam a minha estratégia de futuro para todos. Continuo escolhendo confiar, não por uma ingenuidade cega, mas por uma convicção analítica de que a colaboração autêntica ainda é o único caminho capaz de gerar valor exponencial e real. No limite, a nossa capacidade de apostar em pessoas, e de usar a tecnologia para pavimentar essa jornada, é o que nos diferencia. 

Prefiro correr o risco de ser traído pela minoria a viver na paralisia eterna de quem não confia em ninguém. A inovação real pertence aos corajosos que, mesmo em um ecossistema de suspeita, decidem construir o futuro em conjunto.

Hoje, no momento exato em que os algoritmos de alta capacidade tentam decifrar a nossa lógica comportamental limitante, confiar abertamente e assumir riscos é a atitude mais subversiva, lucrativa e puramente humana que podemos e devemos adotar imediatamente no Brasil.

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CEO da Drin Inovação, TEDx speaker, mentor, conselheiro e Linkedin TOP Voice.

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