A escala 5×2 foi aprovada na Câmara dos Deputados e caminha para o Senado com boas chances de sanção presidencial. A proposta tem um apelo óbvio: mais dias de folga, mais qualidade de vida, trabalhador mais descansado. Difícil ser contra no discurso. O problema é que ninguém está falando sobre quem paga a conta.
Eu opero na hotelaria e gastronomia. Conheço de perto como funciona a estrutura de custos de um negócio de serviços. E posso dizer com clareza: essa mudança vai custar caro. Muito caro. E o custo vai ser repassado para o consumidor final.
O setor de serviços, hotelaria, gastronomia, aviação, varejo, funciona com escala de trabalho contínua. Hotel não fecha no fim de semana. Restaurante não fecha na segunda. Avião não pousa para descansar porque o tripulante cumpriu sua jornada semanal. Para manter a operação rodando com menos horas disponíveis por colaborador, a matemática é simples: ou você contrata mais gente, ou paga mais horas extras, ou reduz a operação.
Nenhuma das três opções é gratuita.
Contratar mais gente resolveria o problema se houvesse mão de obra disponível. Mas o mercado de trabalho no setor de serviços já opera no limite. Recepcionistas, cozinheiros, camareiras, comissários de bordo, baristas. Profissionais qualificados nessas funções já são escassos hoje. Com a 5×2, a demanda por esse perfil vai aumentar ao mesmo tempo em que a oferta continua a mesma. Vai virar um leilão de profissionais. Salários sobem, os melhores migram para quem paga mais e quem não consegue contratar reduz o atendimento.
A conta do aumento de folha vai aparecer no preço da diária, no valor do prato, na tarifa aérea. O consumidor que hoje reclama que viajar ficou caro vai achar ainda mais caro daqui a um ano.
Mas o que me incomoda não é a discussão sobre jornada de trabalho em si. Qualidade de vida importa. Trabalhador descansado produz melhor. Isso é real. O que me incomoda é a discussão pela metade.
Por que reduzir jornada sem discutir redução de impostos? O Brasil tem uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo sobre a folha de pagamento. Cada contratação já carrega um custo absurdo antes mesmo de o funcionário começar a trabalhar. Se o governo quer que as empresas contratem mais para cobrir as horas que serão reduzidas, deveria, no mínimo, tornar essa contratação menos cara.
Por que não entra na mesa a desoneração da folha? Por que não se discute simplificação tributária? Por que ninguém fala em aumentar produtividade como parte da equação?
Uma empresa que produz mais com o mesmo time consegue absorver reduções de jornada sem necessariamente repassar tudo para o preço final. Mas produtividade no setor de serviços depende de tecnologia, treinamento e gestão. Depende de investimento. E investimento fica travado quando a carga tributária engole a margem e a burocracia consome o tempo do empresário.
A discussão que está sendo feita no Congresso é incompleta. Pega um lado da equação e ignora o outro. O trabalhador não ganha quando a empresa fecha. A empresa não cresce quando o trabalhador está esgotado. Isso é verdade. Mas também é verdade que sem empresa saudável não existe emprego sustentável.
Hotelaria, gastronomia e aviação são setores que empregam milhões de brasileiros, boa parte deles em funções que exigem presença física, horários alternados, fins de semana e feriados. São justamente os setores que mais vão sentir o impacto da mudança. E são os setores que menos aparecem nessa conversa.
A 5×2 vai passar. A pergunta que fica é se o país vai ter a maturidade de discutir o conjunto da obra, ou se vamos aprovar metade da solução e deixar a outra metade para o mercado resolver sozinho, na ponta do preço.
Como sempre, a conta fecha. A questão é para quem.