Estive em um evento recentemente e saí de lá com uma sensação estranha e incômoda, quase física, de que o ambiente já não queria apenas discutir modelos de negócio, mas distribuir certificados de virtude.
Não era um subtexto, era quase uma pedagogia explícita da superioridade moral no qual quem estava tocando projetos chamados de impacto aparecia como agente iluminado de transformação, enquanto o empreendedor comum, aquele que vende, contrata, paga imposto, erra, corrige e insiste em continuar aberto, era tratado como uma figura menor, meio tosca, quase suspeita. De um lado, a virtude; do outro, o mercado malvado com a culpa das mazelas do mundo.
Nos últimos anos, o empreendedorismo de impacto passou a ocupar no Brasil um lugar quase sagrado no imaginário dos negócios. De repente, parecia não bastar empreender, vender, contratar, pagar fornecedor, atravessar crise e sustentar operação. Era preciso também apresentar uma narrativa moralmente superior, capaz de transformar uma empresa em manifesto.
No papel, isso soa admirável. Todo país precisa de negócios que resolvam problemas sociais e ambientais com inteligência, escala e responsabilidade. O desvio começa quando essa agenda deixa de ser uma ambição legítima e passa a funcionar como filtro de prestígio, como se apenas certos empreendedores merecessem admiração pública.
É nesse ponto que o debate se desorganiza. O erro do momento é duplo: romantiza-se demais o impacto e banaliza-se demais o empreendedor que sustenta emprego, renda e arrecadação no mundo real. Quando essa inversão acontece, a estética da virtude começa a valer mais do que a substância do trabalho.
Para colocar essa discussão em perspectiva, vale olhar para o tamanho real do empreendedorismo brasileiro. Segundo o Mapa de Empresas do governo federal, o país tinha 24.213.445 empresas ativas no segundo quadrimestre de 2025, das quais 93,8% eram microempresas ou empresas de pequeno porte, e os MEIs sozinhos somavam 12.660.170 registros, o equivalente a 52,3% de todas as empresas ativas.
Esse ecossistema não é periférico pois opera em escala nacional, ajuda a explicar um estoque de 48,4 milhões de vínculos celetistas e um saldo de 1.279.498 empregos formais gerados em 2025, além de sustentar uma máquina arrecadatória que levou a Receita Federal a registrar R$ 2,886 trilhões em receitas federais no mesmo ano.
Além dos cerca de 39 milhões de trabalhadores na informalidade, existe ainda uma vasta camada de trabalho indireto movimentada pelas cadeias produtivas, embora esse contingente não apareça em um número nacional único, sendo normalmente estimado por modelos econômicos setoriais.
Parte do fascínio em torno do impacto vem do fato de que ele oferece algo que o capitalismo tradicional nunca soube comunicar muito bem: um senso imediato de propósito. Uma empresa comum precisa provar seu valor por anos, trimestre após trimestre, cliente após cliente. Já um negócio embalado pela linguagem do impacto muitas vezes entra na conversa com uma espécie de crédito moral antecipado.
Só que existe uma diferença importante entre propósito declarado e valor efetivamente entregue. O Brasil real não é sustentado por apresentações bonitas, e sim por operações que abrem cedo, fecham tarde e convivem com uma hostilidade diária do ambiente de negócios brasileiro que raramente aparece em evento de inovação. É nesse chão áspero que se decide se uma empresa ajuda o país ou apenas performa boas intenções.
Uma empresa que emprega gente, treina pessoas sem experiência, gira cadeias locais, paga impostos e permanece viva em um ambiente hostil já produz efeito social concreto. Talvez não seja o tipo de impacto que rende manchete simpática ou painel temático, mas é o tipo de impacto que impede cidades inteiras de entrarem em colapso silencioso. Há dignidade econômica nisso, e eu diria que há também um valor social que o debate contemporâneo finge não ver.
Eu desconfio dessa necessidade moderna de transformar toda atividade empresarial em uma declaração ética grandiosa. Em muitos casos, ela revela menos compromisso com transformação e mais desconforto com a ideia simples de que lucro, quando nasce de valor real, já cumpre uma função civilizatória importante. O empresário brasileiro parece ser constantemente pressionado a pedir desculpas por existir, como se gerar resultado precisasse vir sempre acompanhado de um pedido formal de absolvição.
O mais curioso é que esse constrangimento moral quase nunca recai sobre a retórica, apenas sobre a execução. Ninguém se incomoda com discursos ambiciosos, metas abstratas e promessas emocionantes. Mas basta uma empresa dizer com clareza que quer crescer, ganhar mercado e operar com margem para que parte da plateia passe a tratá-la como moralmente suspeita.
Isso não significa que todo negócio seja, automaticamente, um negócio de impacto. Essa seria uma simplificação tão pobre quanto a ideia de que apenas empresas com causa explícita geram valor social. Há uma diferença entre ter externalidades positivas, o que muitas empresas têm, e desenhar o próprio modelo de negócio para atacar de forma intencional um problema socioambiental específico.
O problema é que essa distinção conceitual, que deveria trazer clareza, foi capturada por uma lógica de prestígio. Em vez de ajudar a entender melhor os modelos empresariais, ela passou a funcionar como uma espécie de selo de superioridade. E quando um conceito nasce para organizar a realidade, mas começa a ser usado para humilhar quem não se encaixa nele, o conceito já está sendo mal utilizado.
A comparação com organizações do terceiro setor também costuma entrar nesse debate de forma rasa. Há, sim, casos de dependência crônica de verba pública, baixa eficiência e moralismo seletivo, e ignorar isso seria ingenuidade. Mas também é preguiçoso transformar toda ONG em caricatura e toda empresa em vilã até que prove ter alma.
O ponto mais sério não está em escolher um inimigo fácil, mas em entender qual arranjo produz resultado consistente sem depender de encenação. Quando o impacto vira linguagem obrigatória, muitos negócios passam a aprender antes a falar do que a fazer. E isso distorce investimento, distorce reputação e, no fim, distorce até a noção do que deveria ser transformação concreta.
Existe ainda um componente de classe e de estética nesse fenômeno. O empreendedor admirado costuma ser aquele que articula bem a própria missão, domina o repertório correto e se apresenta de forma compatível com o gosto de quem distribui atenção. Já o dono da empresa comum, que vive entre folha de pagamento, inadimplência, tributo e custo financeiro, segue sendo tratado como uma peça banal da paisagem.
No Brasil, o empreendedor comum carrega mais do que a própria ambição. Ele absorve o risco que muita gente prefere teorizar de longe, emprega em regiões sem grandes oportunidades e sustenta uma parte relevante da arrecadação que mantém o Estado funcionando. Não há nada de banal nisso. Pelo contrário, existe algo profundamente decisivo nesse esforço de continuar de pé quando quase tudo ao redor empurra para o contrário.
Talvez a romantização do impacto agrade porque ela oferece uma narrativa mais confortável. É mais bonito celebrar a empresa que promete regenerar o mundo do que reconhecer o valor da firma que simplesmente não fecha as portas e segue contratando. Mas maturidade econômica exige justamente essa coragem menos fotogênica de respeitar quem mantém a realidade funcionando sem precisar transformar cada movimento em liturgia.
O engraçado é que quem mais sinaliza consciência social é justamente quem brinda em Jurerê, circula em ambientes de vida badalada e fala sobre transformação com a desenvoltura de quem conhece a pobreza mais pelo Google do que pela experiência. Raramente pisaram em Parelheiros, Heliópolis ou em qualquer outro lugar onde os problemas que dizem combater aparecem sem mediação, sem curadoria e sem glamour. Ainda assim, falam como autoridades morais do país real, sempre muito confortáveis em defender fomento público para seus projetos, suas agendas e, não raro, seus próprios caprichos camuflados de causa.
Dito isso, seria um erro cair no extremo oposto e desmerecer o empreendedorismo de impacto, porque ele tem valor real quando combina intenção com execução. Estamos falando de negócios cuja atividade principal busca resolver um problema social ou ambiental com sustentabilidade financeira e monitoramento do impacto gerado, e o ecossistema brasileiro já dá sinais concretos de tração: o Cadimpacto, base pública federal lançada em 2025, já registrava 1.430 negócios em fase de validação até novembro daquele ano; no mesmo ciclo, a terceira edição do BNDES Garagem acelerou 100 startups de impacto, o programa Jornada Amazônia atendeu 121 startups em 2025 e 318 desde 2023, o InovAtiva de Impacto apoiou 30 startups, o Green Sampa acelerou 25 negócios verdes e o Hub de Inovação Climática impulsionou 15 soluções na Amazônia.
Isso não é fumaça retórica nem desfile de boas intenções, longe disso, mas é uma agenda que, quando bem feita, ajuda a transformar problemas sociais e ambientais em soluções escaláveis, com capital, método e mercado.
O país precisa, sim, de negócios orientados a resolver problemas sociais e ambientais com método, métrica e responsabilidade. Isso é desejável, necessário e, em muitos casos, urgente. Os números ainda são tímidos frente aos desafios que nosso país continental enfrenta.
O que ele não precisa é da fantasia de que esse é o único empreendedorismo moralmente relevante.
Também precisa recuperar o respeito pelo empreendedor que constrói valor sem adornos, sem verniz messiânico e sem a necessidade de parecer um projeto de redenção coletiva. Eu sinceramente acho que o Brasil erra quando glamouriza o discurso e rebaixa a quem entrega. Emprego, renda, arrecadação e continuidade operacional ainda são formas muito sérias de impacto.
No fim, a discussão adulta não deveria perguntar quem tem a narrativa mais bonita, mas quem produz o saldo mais real. Impacto não pode ser fetiche de quem quer sinalizar virtude, e lucro não pode ser tratado como pecado que busca rebranding. Quando o debate perder o fascínio pela pose e voltar a respeitar a realidade, o empreendedor de verdade sairá do rodapé e retomará o lugar central que nunca deveria ter perdido.