Passei uma tarde limpando a lista de contatos do celular. Eram oitocentos e poucos nomes acumulados ao longo de quinze anos de trocas de aparelho, grupos de trabalho, viagens, antigos clientes, gente que conheci uma única vez e nunca mais encontrei.
Alguns eu reconhecia imediatamente. Outros me obrigavam a abrir a foto do perfil para lembrar quem eram. Havia números de restaurantes que já fecharam, médicos aposentados, colegas de faculdade, pessoas com quem conversei intensamente durante alguns meses e depois nunca mais. Quando terminei, restaram cento e quarenta e sete contatos. Não achei pouco. Achei familiar.
Anos antes de qualquer rede social existir, um antropólogo britânico chamado Robin Dunbar estava tentando responder uma pergunta completamente diferente: por que algumas espécies de primatas vivem em grupos pequenos enquanto outras conseguem manter comunidades muito maiores? Em vez de observar apenas o comportamento dos animais, ele comparou seus cérebros. Mais especificamente, a proporção do neocórtex, região ligada à linguagem, memória social, planejamento e interpretação do comportamento dos outros.
O padrão apareceu com uma regularidade difícil de ignorar. Espécies com neocórtex maior conseguiam sustentar grupos maiores. Quando Dunbar projetou essa relação para os seres humanos, chegou a uma estimativa de aproximadamente cento e cinquenta pessoas.
Não era um limite para conhecidos. Era um limite para relações. Pessoas de quem lembramos sem esforço, cujas histórias ainda acompanhamos e com quem conseguimos manter algum grau de reciprocidade ao longo do tempo.
A hipótese ganhou fama justamente porque o número parecia reaparecer onde ninguém esperava. Dunbar apontou exemplos em comunidades tradicionais e chamou atenção para padrões semelhantes observados em alguns assentamentos antigos reconstruídos por arqueólogos. Historiadores notaram tamanhos parecidos em diferentes organizações militares ao longo dos séculos. Mais tarde, empresas passaram a se interessar pela ideia. A fabricante americana Gore, responsável pelo desenvolvimento do Gore-Tex, decidiu limitar o tamanho de suas unidades porque acreditava que, acima de certo ponto, as pessoas deixavam de se conhecer o suficiente para que a confiança continuasse funcionando sem estruturas mais rígidas.
Nem todo pesquisador concorda com Dunbar. Nas últimas décadas, estatísticos, antropólogos e psicólogos questionaram se realmente existe um número universal. Há evidências de que cultura, profissão, personalidade e contexto alteram bastante a quantidade de relações que cada pessoa consegue manter. O debate continua aberto.
O curioso é que a discussão nunca foi suficiente para tornar a hipótese irrelevante. Porque, mesmo quando discordam do cento e cinquenta, poucos discordam da pergunta. Existe um limite para quantas relações conseguimos cultivar de verdade?
Quando a internet surgiu, parecia que a resposta finalmente seria “não”. As redes sociais venderam a ideia de que a tecnologia tinha resolvido um problema que acompanhava a humanidade desde sempre. Pela primeira vez seria possível manter milhares de conexões ao mesmo tempo.
Anos depois, o próprio Dunbar voltou a investigar o assunto. Analisando redes sociais digitais, percebeu que o número de contatos podia crescer indefinidamente, mas o grupo das relações realmente próximas permanecia surpreendentemente estável. A tecnologia ampliava a rede. Não ampliava a intimidade.
Foi aí que a teoria deixou de parecer uma curiosidade sobre antropologia. Ela começou a falar sobre tempo. Dunbar descreveu nossas relações em camadas. Um núcleo muito pequeno de pessoas íntimas, depois um círculo um pouco maior de amizades próximas, outro de relações frequentes e, mais adiante, um grupo mais amplo que ainda conseguimos acompanhar. Não existe uma fronteira exata entre essas camadas, mas todas exigem a mesma matéria-prima.
Tempo compartilhado. Nenhum aplicativo conseguiu produzir mais disso. Enquanto apagava contatos, percebi que não estava escolhendo quem permanecia na agenda. Estava olhando para o lugar que cada pessoa ocupou na minha vida. Alguns números desapareceram sem resistência. Outros ficaram vários minutos na tela. Não porque ainda existisse uma conversa, mas porque apagar aquele contato parecia reconhecer que a relação tinha mudado muito antes de eu decidir apagá-la.
Foi nesse momento que a lista deixou de parecer uma lista. Ela virou uma espécie de mapa. Não das pessoas que conheço, mas daquelas para quem ainda consigo oferecer atenção suficiente para que uma relação continue existindo.
Talvez seja essa a parte da teoria que mais resiste ao tempo. O recurso escasso nunca foi memória. Nunca foi espaço no celular. Sempre foi a quantidade de vida que cabe entre uma conversa e outra. Quando fechei a agenda, os cento e quarenta e sete nomes continuavam ali. Não pensei em procurar mais três.
Pensei em quanto tempo faz que a gente mede a vida pelo tamanho das listas, quando talvez ela sempre tenha sido medida pelo número de pessoas que ainda reconhecem nossa voz antes mesmo de perguntarmos se está tudo bem.