A pressão sobre margens, o aumento da concorrência internacional e a concentração das vendas em grandes marketplaces estão levando empresas do comércio eletrônico a rever seus modelos de negócio. Para reduzir a dependência da revenda e fugir da disputa baseada apenas em preço, parte do setor passou a investir em produtos exclusivos e marcas próprias.
É nesse movimento que a catarinense Cofari prepara uma nova etapa de expansão. Sediada em Rodeio, no Vale do Itajaí, a empresa projeta importar 55 contêineres de produtos próprios em 2026, depois de iniciar esse modelo com apenas um contêiner em 2023.
A companhia também pretende alcançar R$ 500 milhões em faturamento acumulado até o fim deste ano. Com uma equipe de 30 profissionais, a operação já atende consumidores em 99% dos municípios brasileiros e vende simultaneamente em 6 marketplaces.
A projeção para 2027 é ultrapassar a marca de 100 contêineres, consolidando a transformação de uma operação baseada na revenda para uma empresa com maior controle sobre portfólio, posicionamento e margem.
Marca própria muda estratégia de crescimento
A virada começou em 2023, quando a empresa realizou sua primeira importação direta para testar fornecedores, logística e aceitação dos produtos.
Depois da validação inicial, a operação avançou para dois contêineres em 2024 e quatro em 2025. No mesmo período, criou a Bem Casa, marca própria voltada ao segmento de artigos para o lar.
A estratégia permite que a empresa comercialize produtos exclusivos e diminua a exposição à guerra de preços comum nos marketplaces, nos quais diferentes vendedores oferecem os mesmos itens e competem por pequenas diferenças de valor.
“Quando você revende, está sempre em uma disputa que não tem fim. Com a marca própria, começamos a construir um negócio menos dependente de fornecedores e com uma visão de longo prazo”, afirma Bruna Ferrari Pacher, sócia-fundadora da Cofari.
A mudança acompanha o crescimento do comércio eletrônico brasileiro, que movimentou R$ 235,5 bilhões em 2025, segundo os dados apresentados pela empresa com base na Associação Brasileira de Comércio Eletrônico.
Operação nacional a partir de uma cidade de 12 mil habitantes
Mesmo distante dos principais centros de distribuição do país, estruturou uma operação capaz de atender praticamente todo o território nacional.
Cerca de 80% dos pedidos ainda são enviados a partir do galpão de 4 mil metros quadrados localizado em Rodeio.
Os demais 20% saem de pontos logísticos instalados em outras regiões, estratégia que reduziu em até dois dias o prazo de entrega para localidades mais distantes de Santa Catarina.
Nos primeiros anos, toda a expedição dependia da agência local dos Correios. Com o crescimento das vendas, a empresa incorporou transportadoras regionais e, posteriormente, centros de distribuição fora do estado.
Essa descentralização logística se tornou necessária para sustentar a expansão nos marketplaces e manter níveis competitivos de prazo e custo de entrega.
Decisões orientadas por dados desde o início
A trajetória da empresa começou em 2007, quando Junior Cristofolini passou a vender acessórios automotivos pela internet a partir de uma sala de casa.
Sem capital para grandes estoques, ele adotou uma estratégia baseada em testes de demanda: os produtos eram comprados em pequenas quantidades e só ganhavam escala depois de apresentarem resultados consistentes.
Em 2012, Bianca Ferrari Pacher e Bruna Ferrari Pacher entraram na sociedade. Dois anos depois, foi criada a Casa Ferrari, inicialmente voltada à comercialização de vinhos e produtos de fabricantes da região. Ao longo dos anos, o portfólio passou a incluir eletrodomésticos, brinquedos e utilidades para o lar.
“Sempre avaliamos a demanda antes de ampliar o estoque. Testamos em pequena escala e só aumentamos o investimento quando os números confirmam que existe mercado”, explica Bianca.
A gestão é dividida entre os três sócios. Junior lidera as áreas estratégica e comercial; Bianca responde pelas finanças e gestão de pessoas; e Bruna conduz marketing, experiência do cliente e desenvolvimento de produtos.
Ajustes após o crescimento da pandemia
A pandemia acelerou as vendas digitais e levou a empresa a um novo patamar de faturamento. Entretanto, a normalização do consumo entre 2022 e 2023, somada à entrada de concorrentes internacionais, trouxe pressão sobre margens e estoques.
A Cofari passou então por uma revisão da operação, reduziu custos, ajustou o portfólio e acelerou a busca por um modelo menos dependente da revenda.
“A ressaca do e-commerce depois da pandemia foi intensa. O diferencial foi olhar para os números e ajustar a rota antes que o problema se tornasse maior”, afirma Junior Cristofolini.
Em 2018, a empresa já havia migrado do Simples Nacional para o Lucro Real e adotado uma nova plataforma de gestão, ampliando o controle financeiro, fiscal e operacional.
Nos anos seguintes, recebeu reconhecimentos como o RA1000, do Reclame Aqui, o Magazord Awards 2025, na categoria Casa e Construção, e o Prêmio Reclame Aqui 2025, na categoria Artigos para o Lar. A empresa também obteve a certificação Great Place to Work.
Nova marca acompanha mudança de posicionamento
Em abril de 2026, a Casa Ferrari passou a se chamar Cofari. O rebranding acompanha a expansão do portfólio próprio e a intenção de construir uma marca mais abrangente, desvinculada da imagem de uma loja virtual tradicional.
O nome reúne referências a três elementos da cultura da companhia: coração, família e Ferrari. Mais do que uma mudança visual, o novo posicionamento busca fortalecer o relacionamento com o consumidor e ampliar a produção de conteúdo como estratégia de geração de audiência.
Com marca própria, estrutura logística nacional e uma estratégia de importação em escala, a empresa entra em uma fase em que o principal desafio será transformar o crescimento acelerado em uma operação sustentável, sem perder o controle de estoque, margem e experiência do cliente.