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Sobre construir uma nova identidade profissional

Foto: divulgação

Li os cinco livros desta lista em ordem quase acidental, ao longo do último ano. Só depois percebi que eles conversavam entre si.

O primeiro foi o da Herminia Ibarra.

Identidade de Carreira, de Herminia Ibarra

Ibarra é professora da London Business School e passou anos entrevistando profissionais em transição de carreira. Chegou a uma conclusão que contraria quase tudo o que se ensina sobre planejamento: as pessoas que mudam de verdade não são as que descobriram o que queriam e então agiram. São as que agiram antes de saber.

Ela chama isso de identidade em construção. A tese de Working Identity, publicado em 2003 e traduzido aqui como Identidade de Carreira, é que o autoconhecimento não antecede a mudança. Ele é produzido por ela. Você não encontra um self verdadeiro escondido debaixo do cargo atual. Você testa versões possíveis de si, descarta a maioria e vai ficando com o que resiste ao contato com a realidade.

Isso é mais radical do que parece.

Significa que os conselhos usuais estão invertidos. Faça um teste vocacional, liste seus valores, descubra sua paixão. Depois planeje. Ibarra observou que quem segue esse roteiro tende a ficar preso. Porque a mente, consultada em abstrato, devolve o que já conhece. Ela não tem acesso a uma identidade que ainda não foi vivida.

O que funciona, segundo ela, são três movimentos. Experimentar com projetos pequenos e reversíveis, coisas que cabem nas bordas do emprego atual. Mudar de rede, porque as pessoas que te conhecem bem são exatamente as que reforçam a versão antiga de você. E construir a narrativa depois que a mudança começa, não antes, porque coerência é sempre retroativa.

Li esse livro em um momento em que ele funcionou menos como orientação e mais como permissão.

Existe uma pergunta que aparece com frequência nas conversas que tenho com mulheres em posições comerciais. Ela raramente vem formulada assim, mas é sempre a mesma: como eu saio daqui sem jogar fora o que construí?

A resposta de Ibarra é que você não sai. Você vai saindo.

E que a sensação de estar entre duas identidades, sem pertencer inteiramente a nenhuma, não é sinal de que algo deu errado. É a descrição literal do processo.

A área de vendas ensina bem algumas coisas e mal outras. Ensina a operar sob pressão, a ler contexto, a sustentar conversa difícil sem desmontar. Ensina também que resultado é a única evidência que conta. E quando o resultado vira o único espelho disponível, a identidade profissional fica dependente do número do mês. Aí qualquer transição parece queda, porque significa começar sem número nenhum.

Ibarra dá o método. Mas ele pressupõe algo que o livro não discute: que você saiba distinguir o que quer do que aprendeu a querer.

Foi isso que me levou aos outros quatro.

O Mito da Beleza, de Naomi Wolf

Publicado em 1990, quando as mulheres já tinham entrado massivamente no mercado de trabalho americano e alguém precisava explicar por que a liberdade conquistada não tinha se convertido em sensação de liberdade.

A tese de Wolf é que os padrões estéticos não são resíduo de um mundo antigo. São resposta ao avanço. Conforme caíam as barreiras legais e formais, uma nova exigência se instalou, mais difusa e por isso mais difícil de combater. Ela descreve isso como o último fio de uma ideologia antiga que ainda tem força sobre mulheres que, em todos os outros aspectos, se tornaram incontroláveis.

O que faz o livro sobreviver não é o argumento sobre beleza. É o argumento sobre custo cognitivo.

Wolf descreve algo que ambientes comerciais tornam evidente. Existe um trabalho paralelo rodando em segundo plano o tempo todo. Como estou sendo lida nesta sala. Se pareço competente ou apenas agradável. Se firmeza vai soar como firmeza ou como outra coisa.

Isso consome atenção. E atenção é o recurso que a negociação exige inteiro.

Trinta e cinco anos depois, o mecanismo mudou de forma. As redes criaram uma métrica de aparência disponível o tempo todo, e a exigência migrou do corpo para o desempenho de si. O ponto de Wolf permanece intacto: enquanto uma parte da energia estiver alocada em gerenciar percepção, ela não está disponível para o trabalho.

Ler isso não resolve nada. Mas reposiciona o problema. Tira do território da falha pessoal e coloca no território do que é estrutural. E problema estrutural não se resolve com esforço individual, o que já é uma informação útil.

Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés

Estés é psicanalista junguiana e passou vinte anos escrevendo este livro. É um trabalho de análise de contos, publicado em 1992, que ficou anos entre os mais vendidos do New York Times por razões que o próprio livro ajuda a explicar.

O método é o seguinte. Ela recolhe histórias tradicionais de várias culturas, narrativas que sobreviveram séculos de transmissão oral, e lê nelas padrões psíquicos. A hipótese junguiana por trás é que essas histórias persistiram porque descrevem processos internos reais, não porque são bonitas.

O capítulo que mais importa para a conversa de carreira é o do Barba Azul.

No conto, uma mulher se casa com um homem que lhe entrega as chaves da casa e proíbe apenas uma porta. Ela abre. Encontra o que ele escondia. A leitura de Estés é que o conto trata da capacidade de reconhecer o predador interno, aquela voz que desqualifica o próprio instinto e recomenda não olhar. A mulher do conto quase morre por ter ignorado sinais que ela mesma percebeu desde o início.

Existe uma versão profissional disso.

Você percebe que o ambiente não sustenta mais, que a função esgotou, que o que era desafio virou repetição. E não olha. Adia. Encontra razões objetivas para não abrir a porta, e todas parecem sensatas.

Estés chama de intuição ferida. A capacidade de saber que foi treinada para não confiar em si.

Este é o livro menos óbvio da lista e o que sustenta os outros. Porque Ibarra ensina a testar caminhos, e testar pressupõe alguém capaz de avaliar o resultado do teste sem terceirizar o julgamento. Sem isso, experimentar vira só mais uma forma de pedir aprovação.

Primeiro Eu Tive Que Morrer, de Lorena Portela

Uma brasileira em burnout é forçada a parar. Vai para Jericoacoara, fica, e o que era pausa vira outra vida.

O que me interessa aqui não é o enredo de renascimento, que é comum. É o título.

Primeiro Eu Tive Que Morrer. Não escolhi. Não decidi. Tive.

É a descrição mais exata que já li do que acontece em ambientes de alta performance. A pausa não é tratada como decisão legítima. Ela precisa ser justificada por colapso. Você não para porque avaliou e concluiu que fazia sentido. Para quando o corpo tira a decisão das suas mãos.

E a diferença entre as duas coisas é enorme. Pausa escolhida se organiza, tem prazo, tem retorno planejado. Colapso não tem nada disso. Acontece no pior momento possível, custa mais caro, e deixa marcas que a versão escolhida não deixaria.

Coloco este livro numa lista sobre transição de carreira porque quase toda transição adiada demais termina assim. Não como movimento, mas como interrupção.

Ibarra descreve o processo de quem consegue conduzir a própria mudança. Portela mostra o que acontece quando a mudança conduz você.

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

O último livro de Clarice, publicado em 1977, poucos meses antes da morte dela.

Macabéa é datilógrafa, nordestina vivendo no Rio, mal alfabetizada, sem talento aparente, sem ambição, sem sequer a consciência de que poderia querer alguma coisa. Clarice a narra através de Rodrigo S.M., um escritor que tenta contar essa história e não consegue decidir se sente compaixão ou impaciência por ela.

É o oposto de tudo que os outros quatro livros discutem. Não há transição. Não há autoconhecimento. Não há projeto.

E ainda assim Clarice escreve o livro.

O que ela força o leitor a encarar é uma pergunta incômoda: por que precisamos que uma vida tenha trajetória para considerá-la digna de atenção? Macabéa não se desenvolve, não supera nada, não encontra a si mesma. Clarice a trata com uma seriedade que o mundo não trataria.

Deixo este por último de propósito.

Porque uma lista sobre construir identidade profissional carrega um risco embutido: o de sugerir que a pessoa é aquilo que ela constrói. E isso é falso de um jeito perigoso, especialmente para quem trabalha em ambientes em que o valor é recalculado a cada trimestre.

Clarice desmonta isso sem argumentar. Só narrando alguém que não construiu nada e mesmo assim ocupa um livro inteiro.

Boa parte da conversa sobre carreira feminina ainda gira em torno de técnica. Como negociar salário, como se posicionar numa reunião, como ocupar espaço, como não ser interrompida.

Tudo isso importa. Nada disso é suficiente.

Técnica sem clareza de identidade vira performance. E a performance, sustentada por tempo suficiente, produz exatamente o tipo de cansaço que faz alguém questionar a carreira inteira quando o problema nunca foi a carreira.

Ibarra dá o método. Wolf mostra o que consome a energia. Estés devolve a bússola. Portela expõe o custo de adiar. Clarice lembra que nada disso define quem você é.

Nenhum deles entrega resposta.

Mas todos deslocam a pergunta do mesmo lugar. Do que eu deveria estar fazendo para o que eu quero quando ninguém está avaliando.

Em transição, essa segunda pergunta costuma ser a única que leva a algum lugar.

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Head of Revenue na SalesHunter, professora e mentora de startups.

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