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Se tudo muda, o que fica para o futuro da moda?

Foto: divulgação

Por Matheus Fagundes, presidente global da Audaces.

A discussão sobre o futuro da moda passa necessariamente pela tecnologia. Inteligência Artificial, automação, análise de dados e sistemas integrados já estão modificando a forma como as empresas desenvolvem coleções, organizam estoques e respondem às mudanças do mercado. Mas existe uma pergunta acima dessas transformações: qual é o papel das pessoas na nova indústria?

Afinal, a moda só existe porque há pessoas para criar, produzir, vender, comprar e vestir. Mesmo que processos se tornem mais inteligentes e máquinas assumam tarefas repetitivas, a indústria continuará dependendo de criatividade, repertório, sensibilidade, capacidade de decisão e renda disponível para o consumo.

Por isso, o debate precisa ir além da substituição de postos de trabalho. A questão central é como utilizar a tecnologia como um catalisador do potencial humano, ampliando competências e permitindo que profissionais realizem suas atividades com mais eficiência, precisão e qualidade de vida.

Quando uma nova ferramenta assume parte de uma atividade antes executada manualmente, é natural que as pessoas questionem o futuro de suas funções. Essa preocupação precisa ser reconhecida pelas empresas, e não tratada como uma resistência que desaparecerá por conta própria. Profissionais precisam compreender como utilizar as novas ferramentas, interpretar os dados gerados por elas e incorporar seus recursos à rotina. 

Um estilista, por exemplo, poderá usar a IA para testar combinações, visualizar produtos antes da produção física e acelerar a validação de uma ideia. Isso não elimina a sua função. Ao contrário, permite que dedique mais tempo ao conceito da coleção, à identidade da marca e à interpretação do comportamento do consumidor. A ferramenta amplia as possibilidades, mas a direção continua sendo humana.

Bases da Indústria 5.0

Existe também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. A automação aumenta a produtividade, mas a economia depende de pessoas com renda para consumir aquilo que é produzido. A indústria da moda pode fabricar de forma mais rápida e eficiente, mas continuará precisando de consumidores capazes de comprar roupas, calçados e outros produtos.

Essa relação cria um desafio para empresas, poder público e instituições de ensino. Os ganhos tecnológicos precisam ser acompanhados pela criação de novas competências, novas ocupações e possibilidades de mobilidade profissional. 

Um dos principais benefícios da automação está na possibilidade de retirar as pessoas de atividades repetitivas, desgastantes ou de alta complexidade operacional. Isso pode gerar mais segurança, reduzir erros e permitir que o tempo humano seja utilizado em tarefas de maior valor.

Na moda, isso significa menos horas dedicadas a processos manuais de conferência, desenvolvimento de amostras e transferência de informações entre equipes. Pode significar também mais tempo para criar, analisar o mercado, conversar com clientes e desenvolver soluções. Essa é uma das bases da Indústria 5.0: utilizar a tecnologia para fortalecer a atuação humana.

A indústria da moda continuará mudando. Novos materiais, canais de venda, modelos produtivos e comportamentos de consumo deverão surgir nos próximos anos. Enquanto isso, as pessoas continuarão buscando roupas que expressem identidade, cultura, pertencimento e estilo de vida. Neste cenário, a IA ajuda a indústria a entender melhor esses movimentos. O futuro da moda não será definido pela capacidade das máquinas, mas pela maneira como as utilizaremos para ampliar o potencial humano, gerar trabalho qualificado e manter as pessoas participando da economia.

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