Existe uma coisa que a montanha ensina rapidamente: pouco importa o que estava no seu planejamento. O clima muda, a neve muda, a visibilidade muda, as condições da pista mudam e, de repente, aquilo que parecia simples exige uma nova decisão. Talvez seja justamente por isso que algumas das melhores lições para quem está no mundo dos negócios não estejam em salas de reunião, cursos de liderança ou livros de estratégia, mas em lugares onde não temos controle sobre quase nada.
Fui ao Chile com um plano relativamente claro. A ideia principal era subir o Vulcão Villarrica, em Pucón, uma experiência que há algum tempo estava nos meus planos. Mas o clima decidiu participar da viagem. As condições na região não estavam favoráveis e, poucos dias antes, precisamos mudar o roteiro. Acabamos indo para outra cidade, onde havia uma estação de esqui e, para minha sorte, espaço para praticar Snowkite, um esporte que estava no meu radar havia alguns anos. O que inicialmente parecia um desvio do plano acabou criando espaço para uma experiência que provavelmente não aconteceria naquela viagem se tudo tivesse saído exatamente como planejado.
Essa talvez seja uma das maiores dificuldades que enfrentamos no mundo corporativo. Somos treinados para planejar, prever cenários, estabelecer metas e construir caminhos para chegar até elas. E tudo isso é importante. O problema começa quando confundimos planejamento com controle. O plano é apenas uma hipótese sobre o futuro. O mercado, os clientes, a economia, os concorrentes e uma infinidade de outras variáveis não têm qualquer obrigação de seguir aquilo que colocamos no PowerPoint.
Na montanha, essa diferença fica ainda mais evidente. Em um dos dias, tivemos um problema com o carro. Por causa da neve e do gelo, era necessário utilizar correntes nos pneus para aumentar a segurança durante a subida. Só que, em plena alta temporada, não conseguimos encontrar correntes que servissem no nosso carro. O plano estava pronto, mas faltava uma variável importante. Tivemos que compensar com mais atenção, técnica e cuidado na direção. Em alguns momentos, subindo uma estrada de vários quilômetros, com tratores limpando a pista e nos obrigando a reduzir ou parar, confesso que pensei que talvez não fosse dar certo.
Mas a montanha não estava errada. O problema era nosso planejamento que precisava se adaptar às condições que existiam.
Essa é uma diferença importante entre planejamento e capacidade de adaptação. No mundo dos negócios, muitas vezes gastamos uma quantidade enorme de energia tentando prever o cenário perfeito, quando talvez deveríamos estar mais preparados para tomar boas decisões quando o cenário muda. Não podemos escolher o vento, a neve, a economia ou o comportamento do consumidor. Podemos escolher como reagimos a eles.
O snowboard reforçou ainda mais essa percepção. Já pratico o esporte há alguns anos, mas estava há algum tempo sem descer uma montanha. O corpo conhece os movimentos, mas precisa relembrá-los. E existe uma característica interessante no snowboard: a curva de aprendizado começa bastante inclinada. Primeiro você precisa aprender a se equilibrar, controlar a direção, administrar a velocidade e, principalmente, aprender a cair. Porque você vai cair. Faz parte. Depois de dominar os fundamentos, a evolução acontece de maneira diferente, mas nunca termina.
Em uma das descidas, a neblina reduziu bastante a visibilidade. A pista continuava ali, mas já não conseguíamos enxergar com a mesma clareza o que vinha pela frente. E existe uma relação direta entre velocidade e tomada de decisão. Quanto mais rápido você desce, menos tempo existe para interpretar o cenário, escolher o trajeto e corrigir a direção. A velocidade, sozinha, não é uma vantagem. Ela só funciona quando você consegue enxergar suficientemente bem para decidir o que fazer com ela.
Quantas empresas estão acelerando sem conseguir enxergar a próxima curva?
No snowboard, ninguém faz a sua gestão de risco. Você decide qual pista vai descer, considerando seu nível de habilidade, a condição da neve, a visibilidade, o clima e a velocidade que pretende atingir. Se escolher uma pista acima da sua capacidade, a responsabilidade é sua. Se acelerar demais em uma condição ruim, também. Não existe uma área de risco para assumir a responsabilidade pela sua decisão.
No mundo corporativo, às vezes esquecemos disso. Procuramos benchmarks, consultorias, especialistas, metodologias e empresas para copiar, como se alguém pudesse nos entregar uma fórmula pronta para tomar nossas decisões. Mas chega um momento em que a decisão é nossa. E a responsabilidade também.
Foi nesse contexto que finalmente experimentei o Snowkite. O esporte já havia chamado minha atenção há alguns anos, justamente por representar mais uma experiência diferente, uma nova modalidade e uma nova sensação. Quando finalmente coloquei o kite nas mãos e comecei a deslizar pela neve, descobri algo curioso: era muito mais fácil do que eu imaginava. Na minha cabeça, eu havia criado um monstro muito maior do que o desafio real.
Talvez façamos isso com frequência também nos negócios. Criamos mentalmente problemas gigantescos antes mesmo de experimentar. Uma nova tecnologia parece complexa demais. Um novo mercado parece distante demais. Uma mudança de carreira parece arriscada demais. Um novo projeto parece difícil demais. E, muitas vezes, o medo do desconhecido cresce muito mais rápido do que a dificuldade real.
Existe ainda outra coisa que o esporte me lembra constantemente: somos eternos aprendizes. Mesmo depois de anos praticando snowboard, precisei voltar a lembrar movimentos básicos. Ao experimentar Snowkite, voltei a ser iniciante. E isso é desconfortável. Queremos fazer certo, queremos ter domínio, queremos parecer bons rapidamente. Mas o esporte nos coloca diante de uma verdade que o ambiente corporativo muitas vezes tenta esconder: não existe experiência suficiente para nos tornar especialistas em tudo.
Talvez seja justamente essa disposição para voltar a ser iniciante que mantenha uma pessoa relevante por mais tempo. O mundo muda, as tecnologias mudam, os mercados mudam, os modelos de negócio mudam. Quem acredita que já sabe o suficiente começa a perder a capacidade de aprender. E quem perde a capacidade de aprender perde, pouco a pouco, a capacidade de se adaptar.
Voltei do Chile pensando que talvez essa seja a maior lição da montanha. Não precisamos controlar tudo. Precisamos aprender a ler o cenário, reconhecer quando as condições mudaram, assumir responsabilidade pelas nossas decisões e ter coragem para ajustar a rota. Às vezes, inclusive, abandonar o plano original é justamente o que permite encontrar algo melhor.
Porque a montanha não respeita o nosso planejamento. O mercado também não.
E talvez liderança não seja ter sempre o melhor plano, mas saber o que fazer quando o plano deixa de funcionar.